A Grécia é tratada como um estado hostil ocupado – por Ambrose Evans-Pritchard I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Nota sobre o texto A Grécia é tratada como um estado hostil ocupado,  um texto de Ambrose Evans-Pritchard

Um texto de Pritchard que dedico aos meus amigos da esquerda radical, defensores da saída do euro,   que atacam  Tsipras pelo vergonhoso acordo por ele assinado. Por este texto passa uma explicação para o claudicar de Tsipras, uma explicação, na minha simples opinião,  bem convincente. O que me leva a ser solidário com o homem, Tsipras,  que se vergou face ao medo do que podia acontecer ao seu povo, ao descobrir o que já devia saber,  que estavam perante adversários políticos que ao humanismo não devem nada e odeiam tudo o que tem cheiro a democracia real, a humanismo. Ao ler este texto sinceramente penso que será  melhor a estes radicais de esquerda  reflectirem um pouco sobre a posição tomada  quanto a este caso.

Por razões diametralmente opostas, também dedico esta peça a outros amigos meus, bem menos radicais,   que consideram viável uma permanência no euro, euro este que pode ser até um instrumento simpático. É preciso, olhos nos olhos, convencer governo a governo de que é preciso mudanças, um pouco como se defende que se faça com os bebés. Só assim se avançará na construção europeia e com esta Europa política! Um pequeno óbice:  aqui não há bebés para os poderemos convencer olhos nos olhos, se é que assim se podem convencer os bebés! Os monstros que controlam a Europa, seguramente não.

Falámos da Grécia e tudo isto nos faz então  lembrar as cavalariças de Áugias. A Europa tal como as cavalariças  de Augias desde há mais de trinta   anos que não é limpa. A Europa politicamente fede, fede como as cavalariças de Áugias  que durante mais de trinta anos limpas nunca foram limpas, fede pelos estragos provocados pelo neoliberalismo  e pelo desprezo que aqueles  que o manipulam e que têm o controlo do poder político, poder económico, poder financeiro e do aparelho ideológico, ou seja o controlo das Universidades e dos diversos  meios de comunicação social,  têm por tudo o que é democracia, por tudo o que  é   humanidade. A Europa precisa de ser limpa pela força de um povo, dos vários povos, tal como as cavalariças de Áugias o foram pela força das águas de dois rios, ou seja levadas à força. Mas neste nosso caso que seja então pela força da razão e da Democracia, o que impõe um imenso  trabalho de formação política de base popular, trabalho este que claramente não foi feito na Grécia. Se o fosse não seria possível um referendo em que se recusa a austeridade mas se quer permanecer no euro!

O texto de Pritchard, mostra-nos à evidência que nesta UEM  não há solução possível para a crise da Democracia e são  já múltiplos os casos de terror criados face a Estados soberanos em dificuldades.  A imperial Alemanha ordena, os outros cumprem, e o silêncio  dos socialistas à volta da Grécia de agora, sinceramente assusta.

 

Coimbra, 29 de Julho de 2015

Júlio Marques Mota

 

 

 

A Grécia é tratada como um estado hostil ocupado,

Um texto de Ambrose Evans-Pritchard

Um novo acordo para Atenas que é o pior possível e não resolve nada

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Photo : AP

 

Ambrose Evans-Pritchard

Tal como como os Bourbons Napolitains – gentis na comparação – os líderes da zona Euro não aprenderam nada e nada esqueceram.

A cruel capitulação imposta à Grécia após 31 horas de tortura diplomática não oferece nenhuma saída concebível à crise perpétua do país. Os termos são infinitamente mais duros que os que foram rejeitadas pelos eleitores gregos aquando do referendo triunfal uma semana antes  e nunca poderão, por conseguinte,  obter uma aprovação democrática.

Estes devem ser ratificados por um Parlamento grego sempre dominado por deputados de esquerda e de direita que detestam linha a linha a declaração da cimeira, o infame SN 4070/15,  e apenas aceitaram – se tanto fizeram – porque estavam com a faca encostada à garganta.

Os inspectores da União económica e monetária podem pôr um veto nas suas leis. A castração do Parlamento grego foi enfiada sorrateiramente no texto. Falta apenas uma unidade de polícias ao serviço da União económica e monetária.

Tais termos são inaplicáveis. Os credores procuraram tornar o novo memorando dotado de  um caracter definitivo,  transferindo 50 mil milhões de euros de activos gregos para  “ um fundo independente que monitorizará os activos obtidos com as privatizações e outros meios”. Será utilizando em parte para regular as dívidas.

Este fundo ficará sob “a vigilância” da União europeia. As delicadezas de ordem cosmética quanto à soberania serão preservadas deixando às autoridades gregas a gestão dos seus negócios diários. Ninguém é estúpido.

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Um Tsipras “crucificado” capitulou face a medidas draconianas depois de 17 horas de negociações, acabadas muito tarde, pela noite dentro.

Por outras palavras, apreenderam na fonte as poucas jóias que ainda restavam na Grécia. Isto não é realmente nada diferente do Comité Internacional para a Gestão da Dívida Grega em 1898 imposto à Grécia depois de que esta entrou em falência na sequência de uma guerra balcânica desastrosa.

Uma liga de seis grandes potências detentoras das obrigações de dívida, dirigida por banqueiros britânicos, confiscaram os direitos de alfândega no Porto do Pireu, confiscara os rendimentos procedentes dos direitos dos selos, do tabaco, do sal, do querosene e até os direitos sobre as cartas de jogar. Mas pelo menos não houve nenhuma vigarice sobre a solidariedade e a ajuda à Grécia nessa ocasião.

“É o Tratado de Versailles de hoje,” disse-me  Varoufakis esta manhã, ao falar-me da sua casa esta manha situada numa ilha do mar Egeu. .

De acordo com os novos termos do acordo, a Grécia deve reduzir o seu orçamento de cerca de 2% do seu PIB a partir do próximo ano, empurrando o país para uma posição de uma posição de espiral de deflação-dívida ainda mais intensa duma espiral de deflação-dívida e na sequência de uma sua depressão de já seis anos.

Isto terá como resultado que o governo não cumprirá os objectivos orçamentais ainda uma vez mais – provavelmente não cumprirá e em muito – numa repetição exacta da política de auto-falência que colocou  fora de controlo a dinâmica da dívida grega nos dois últimos conjuntos de empréstimos da Troika.

Como o Fundo Monetário Internacional o reconheceu no seu famoso mea culpa, se nos enganos no multiplicador orçamental e forçarmos a austeridade para além da dose terapêutica, isto só agrava as coisas. O rácio dívida/PIB aumenta e isto apesar dos cortes nas despesas.

Os líderes da UEM têm uma resposta. Tal como os cortesão da corte de Knut o Grande, ordenarão simplesmente que as vagas refluam. O texto declara que para além das diminuições das reformas e dos aumentos dos impostos deve haver “reduções de despesas quase automáticas no caso de desvios em relação aos objectivos dos excedentes primários ambiciosos”.

Por outras palavras, os gregos serão forçados a porem em prática políticas restritivas pró-cíclicas. A deriva fiscal que actuou como um ligeiro amortecedor durante os cinco últimos anos não será já tolerada esta vez.

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A propósito das exigências da UEM, o economista americano e Prémio Nobel Paul Krugman declara “isto vai para além da intransigência, é uma vingança”

E não esqueçamos que estes excedentes primários em primeiro lugar nunca  tiveram qualquer  sentido. Não foram estabelecidos com base na análise macroeconómica. Foram incluídos em acordos anteriores porque era o que  consideravam necessário – ceteris paribus – para fazer acreditar aos eleitores europeus  que a dívida é suportável e, por conseguinte, para que o FMI conceda o seu financiamento. Que grande vigarice!

 

 

(continua)

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