Caríssimo amigo, perdoe não lhe escrever há tanto tempo. Não me julgue um ingrato. Tenho-me lembrado imenso de si. Mas é que tenho tido tanto que fazer… Realmente, é como me disse várias vezes: “quem trabalha não tem tempo para mais nada”. Confesso que só agora percebo isso. Bem, trabalho, sim, mas também é preciso tempo para mais qualquer coisa, senão, isto descarrila. Sabe como é… Mas realmente, meu amigo, é verdade, os anos que eu perdi! Felizmente que agora isto está tudo a correr bem. Mas deixe-me contar-lhe o que tenho feito, os últimos acontecimentos.
Ainda antes de continuarmos, dê-me os parabéns. Saiba que, a semana passada, conclui finalmente o meu curso. Na quinta-feira, fiz um exame oral e passei com nota de bom. A Maria da Luz assistiu ao exame e disse-me que estive muito bem, muito seguro. Olhei sempre o professor de frente, e não gaguejei uma única vez. Devo-lhe dizer que, na véspera mesmo, tinha estado a ver com a minha amiga (a minha Luzinha) um dos temas sobre que me fizeram perguntas. Foi sorte, dirá. Mas não dizem que a sorte também faz parte do êxito? Qualquer coisa parecida com esta. Pronto, não quero maçá-lo com divagações. A Heloísa é que gosta muito de dissertar sobre estas questões de sorte e azar. A propósito, ela está felicíssima. Imagine que me comprou um fato novo, com colete e tudo! A Luzinha deu pulos de contente quando me viu todo assim todo bem vestido. Já me obrigou a despir e a vestir a fatiota não sei quantas vezes. Nem lhe conto como foi. Está a ver, isto não pode ser só trabalho… Já não somos novos e temos mesmo de aproveitar o tempo.
Foi uma festa cá na rua, por eu ter concluído o curso. A Heloísa contou a toda a gente. E acho que a Maria Antónia ajudou bastante. Este fim de semana, a Maria da Luz foi à terra. Queria que eu fosse com ela, mas pedi-lhe para ficar com a Heloísa, que anda contentíssima com o meu sucesso, e quer ir comigo para todo o lado. A minha amiga achou muito bem. Fez-me foi prometer que iria à serra passar quinze dias, na segunda metade de Agosto. Vamos a ver entretanto se a minha mãe se acalma. Confesso que me está a agradar a ideia de estar uns tempos na Covilhã. E a Luzinha insiste em combinar planos para começarmos a trabalhar logo a seguir às férias. Está sempre a dizer que temos muito que falar. Eu digo-lhe que sim a tudo.
Sábado, logo a seguir ao almoço (um frango corado com arroz, que rico petisco! Quando é que vem almoçar cá a casa?) fomos ao café. Já lhe contei várias vezes, creio, que a Heloísa adora ir à Esplendorosa tomar o seu cafezinho, logo a seguir ao almoço. E vai sempre um bolo a acompanhar, normalmente um duchesse, feito no próprio dia na fábrica dos donos da pastelaria, que fica ali para a Penha. Assim, saímos, atravessámos a rua e sentámo-nos lá dentro, que na esplanada não se podia estar com o calor. Felizmente arranjámos logo mesa. Era cedo, passava pouco da uma e meia da tarde, por isso estava pouca gente. Veio logo o Serafim atender-nos:
– Senhor Serafim, não se importa de nos trazer dois cafés? E um duchesse, com bastante chantilly – pediu logo a minha mãe. Eu acrescentei:
– Para mim, é também um whisky – acrescentei. A minha mãe não disse nada. Antigamente nem me atrevia a pedir. Mas disse logo a seguir: – Almocei muito bem.
– Que bom, senhor doutor! – disse o Serafim, com uma ligeira vénia.- Nem sabe como eu o invejo. Com as mãos que a sua mãe tem para a cozinha, deve saborear cada manjar…
A Heloísa resplandecia. Riu-se e foi dizendo:
– Não exagere, senhor Serafim. Mas sabe, com as alegrias que ultimamente tenho tido, ando mais inspirada. Um dia destes vou convidar a vizinhança e faço um jantar para toda a gente. Acha que podia ser aqui na Esplendorosa? Será preciso falar com os patrões?
– Julgo que não haverá problema nenhum. Mas convém falar com alguma antecedência.
Entretanto, foi chegando a vizinhança. A primeira foi a D. Gertrudes Acabadinho, que assim que nos avistou, veio direita pregar-me dois beijinhos:
– Viva o nosso doutor! Já tenho alguém para tratar dos meus assuntos. Meu querido Maurício, que orgulho!
– Sente-se, faz favor, D. Gertrudes. – a minha mãe puxou uma cadeira. O Serafim trouxe logo outro café e um pastel de nata, escolha diária da nossa vizinha. E então entraram a D. Henriqueta e a Maria Antónia. Houve logo grande entusiasmo.
– Maurício, meu filho, parabéns. – disse a primeira, com um ar muito afectuoso. Digo-lhe uma coisa: a maioria da vizinhança é-me completamente indiferente, mas a D. Henriqueta é uma excepção. Confesso-lhe que gosto muito dela. É a única pessoa de que me lembro do tempo da minha infância. Levantei-me e dei-lhe um abraço muito grande. Ela chorou. Mas atrás vinha a Maria Antónia:
– D. Heloísa, dá licença que dê um beijo ao seu filho? – fiquei sem saber se havia de rir ou pôr um ar muito sério. Levei um grande chocho na face. E ela ainda teve artes de me beliscar não lhe digo onde. As senhoras riam-se. Claro que não deram pelo atrevimento maior.
Sentámos todos e começou uma enorme discussão, muito amigável, muito participada, sobre as novas telenovelas, já estreadas ou a estrear. Eu mantive-me à parte, embora procurasse manter o ar de quem estava com toda a atenção. Tenho longa prática disso, como sabe. E por vezes é de utilidade. A Maria Antónia, do outro lado da mesa, fazia o mesmo, acho eu. A maioria das fãs, agora contando também com a D. Josefa da mercearia, e a D. Maria Augusta, que mora no prédio da D. Gertrudes, inclinou-se para dar destaque a uma telenovela brasileira, Paixão à Tarde, que trata de uma senhora, já não muito nova, mas sempre muito sedutora, que sai de casa todas as tardes, pouco depois de almoço, e que faz uma conquista nova de cada vez. Assim mesmo, uma conquista por dia. Ou por tarde. Até que uma vez faz uma conquista que lhe faz recordar alguém…
Com certeza que o meu amigo não perde tempo com telenovelas. E que esta conversa já o está a aborrecer. Mas a seguir imagine que começámos a falar de política. Digo “começámos” porque insistiram em saber a minha opinião sobre o que se tem passado no Brasil, e, também, na Grécia. Confesso que fiquei bastante embaraçado. Nunca tinham pedido a minha opinião, anteriormente, nem sobre telenovelas, nem sobre política ou outro assunto qualquer. Pois puseram-se a falar do Lula, que eu fiquei a saber que foi presidente do Brasil, e de uma tal Dilma, que eu percebi a princípio que se chamaria Wilma, como uma dos Flintstones dos desenhos animados, que eu via quando era pequeno, e a Heloísa estava na cozinha a fazer o jantar. Não sei porquê, fartaram-se todas de rir. A Maria Antónia chorava agarrada à barriga. Disseram-me que eu sou muito engraçado. Que faço muito bem em não ligar à política. Acho que não acreditaram em que eu nunca tinha ouvido falar do Lula (já agora porque não lhe chamam choco?) nem da Wilma, perdão Dilma. Mas quando chegaram à Grécia, e começaram a lamentar que um tal Tripas, que parece que anda zangado com os alemães, sobretudo com uma senhora alta e loura, Angela ou Angélica, que já vi na televisão, e com um senhor de cadeira de rodas, de óculos, que parece que faz muito bem contas, fiquei um bocado preocupado. Então ele não quer pagar porquê? Se deve o dinheiro, tem de o pagar. Não me digam que a Grécia não tem dinheiro. Sempre ouvi dizer que há lá muitos monumentos e antiguidades. Isso vale muito dinheiro. Mostraram-me uma fotografia do Tripas no jornal. Tem um ar sério, mas parece que anda sempre mal vestido, sem gravata. Assim não inspira confiança. E com os alemães há que ter respeito. Sempre ouvi dizer que fazem máquinas muito boas. Quando disse isto, desataram todas a falar em submarinos. Parece que os vendem para todo o lado, até para Portugal. Perguntei se havia algum mal nisso. Ninguém me soube explicar. E muito menos porque é o Tripas não quer pagar as contas dele. Não acho nada bem. Imaginem que as fábricas dos alemães fecham por não lhes pagarem. Não, o Tripas não está a proceder bem. Tem de pagar os submarinos e o resto. Ainda por cima parece que lhe emprestaram o dinheiro para fazer os pagamentos. Que quer mais o homem? Ele até tem um ar sério, mas afinal…