EDITORIAL- A DEMOCRACIA COMEÇOU MAL

No princípio da década de 60, quando se começou a perceber que os problemas de África, embora provocados pela exploração colonial, não desapareceriam com as independências, pois muitos dos «libertadores» apenas ansiavam por ocupar os lugares dos europeus, surgiu um livro de um sociólogo francês que provocou celeuma – ´L’Afrique noire est mal partie. “A África começou mal” – 60 anos depois, conclui-se que a realidade superou o pessimismo do autor, René Dumont. Os povos ganharam um hino e uma bandeira. A mão que brandia o chicote tinha agora a cor da pele dos chicoteados.

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Há 195 anos, em 24 de Agosto de 1820, estando ausente Beresford, o general inglês que D. João VI nomeara como comandante supremo das forças militares portuguesas, eclodiu no Porto uma Revolução Liberal que depressa se estendeu a Lisboa e a todo o país e que veio a ter como consequência a transformação do regime político. No lugar da monarquia absoluta Portugal passou a ter uma monarquia constitucional, liberal. Portugal atravessava uma crise profunda – sobretudo no plano económico, pois ressentia-se da devastação provocada pelas invasões francesas – roubos, incêndios, estupros … – mas na ponta das baionetas dos soldados franceses vinham também ideias, novos conceitos, que a Revolução de 1789 provocara e que a coreografia política do general corso ainda não extinguira.

Com a família real e a corte no Rio de Janeiro e com os ingleses a ocupar os principais cargos de poder, o descontentamento alastrava como fogo em seara seca. Já em 1817, o general Gomes Freire de Andrade encabeçara um movimento para liberalizar a monarquia – tentativa para mudar o regime, exigir o regresso do rei e, sobretudo, para expulsar os ingleses do nosso país. A conspiração foi descoberta e os seus responsáveis presos e executados. Foi neste quadro que um grupo de liberais do Porto, constituído por magistrados, negociantes e militares, formou o Sinédrio – associação secreta, dirigida por Fernandes Tomás  e que tinha como objectivo preparar uma revolução. Foi criada uma Junta Provisional de Governo do Reino que expulsou os ingleses e exigiu o imediato regresso do rei D. João VI a Portugal e a realização de eleições para eleger deputados às Cortes Constituintes, para elaborar uma Constituição.

O rei D. João VI cedeu à pressão revolucionária e regressou a Portugal em 1821, jurando a Constituição em 1822. Em Dezembro de 1822 realizaram-se as primeiras  eleições em Portugal. A Constituição  consagrou os princípios da liberdade e de igualdade dos cidadãos perante a lei. A burguesia ilustrada substituiu em muitos cargos a nobreza abrutalhada, das festas ostentosas, das touradas. Os pobres passaram a tirar os barretes, agora aos novos barões. A miséria continuou.

 

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