BISCATES – Chamadas de valor acrescentado – por Carlos de Matos Gomes

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Do jornalista Alexandre Pais, na revista Sábado, de 6 de agosto, com o título: «Mina das chamadas a esgotar-se? – As receitas da SIC caíram 7,5%, para os 83 milhões no primeiro semestre deste ano, em parte devido à quebra verificada nas chamadas de “valor acrescentado”»

83 milhões em 6 meses de chamadas de “valor acrescentado”, só numa estação! Em seis meses! Portugueses, homens e mulheres adultos, gastam por sua decisão e livre alvedrio, em plena consciência, 400 milhões de euros por ano em chamadas que sim, são de verdadeiro valor acrescentado, mas para as estações de TV. Basta extrapolar 165 milhões por ano a multiplicar por 3 estações!

É o mercado a funcionar. Gritam-me. E a liberdade individual. Sacodem-me. Cada um gasta o dinheiro onde quer. Ameaçam-me. Se quer gastar o dinheiro a telefonar para um programa de televisão, está no seu direito. Percebeu? As estações de televisão apenas estão a dar às pessoas aquilo que elas querem. Juram-me os liberais. Os apresentadores e apresentadoras respondem aos berros e com esgares de aflição aos telefonadores de valor perdido.

As estações de televisão fazem parte do aparelho ideológico do poder. Por isso elas são um produto concessionado pelos Estados. Para desempenharem a sua função necessitam de dinheiro. Nas economias liberais esse dinheiro vem da propaganda que é autorizada pelo Estado, mesmo que seja um conto do vigário, que passa a ser legal, porque acompanhado por um folheto de letras microscópicas em que o cliente declara, sem ler, aceitar as condições para ser vigarizado dentro da lei.

A propaganda maliciosa autorizada pelo Estado para as televisões ganharem dinheiro é retribuída pela propaganda das televisões aos valores dominantes. Tu cá – tu lá.

Sérgio Figueiredo, o diretor de informação da TVI, explicou muito bem o conceito de informação da sua estação (o das outras será idêntico) para as próximas eleições: vamos surpreender os telespectadores. Para este director do que designa agora por “conteúdos de informação”, as eleições para o parlamento, são um espectáculo com candidatos, comentadores e até comediantes contratados para o efeito e que servem como elemento de surpresa para os telespectadores, um arraial com muitos VivóPovo! É preciso criar uma ilusão de festa e de treta, de delírio ou de bebedeira, de vertigem, como fazem os ajudantes de toureiro ao touro, volteando-lhe as capas diante dos olhos para o ajudar a cair na arena depois de enfiarem o estoque entre as espáduas.

Haverá, certamente, nos novos programas de “eleiçoentretenimento” lugar a chamadas de valor acrescentado promovidas por senhores de fato às bolas, de senhoras com botox e silicone a lançar rifas a propósito do nome do animal doméstico do chefe do partido da oposição, ou da maioria, do número que calça a líder do Bloco de Esquerda, de que cor são as peúgas de Marinho Pinto. Assuntos que surpreenderão o telespectador e que compensem as estações dos 7,5% de diminuição com os lucros das ditas chamadas.

As chamadas de valor acrescentado garantem que isto das eleições será um Portugal em Festa. Ligue para o número no rodapé do seu televisor, espere sentado pelos mil euritos, entretanto esqueça o salário mínimo, ou o RSI, ou a penhora da casa, ou a conta da eletricidade. E nem se lembre do próximo governo!

Telefonem, que as TV têm muitas surpresas para acompanhar as eleições. Até chupa-chupas!

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