CARTA DO RIO 66 por Rachel Gutiérrez

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Na noite de sexta-feira, quando já começava a pensar em qual seria o meu tema para a próxima Carta do Rio, eis que reapareceu chorando muito, a ponto de soluçar ruidosamente, a menininha Esperança, que costuma sair do poema de Péguy, sobre as Virtudes Teologais, quando está preocupada ou muito triste. Suas irmãs, as outras virtudes ficam lá, quietas, em silêncio, são mais maduras, já sabem o que querem. Afinal, como disse o poeta, a Fé é uma grande Catedral, a Caridade é uma Santa Casa acolhedora e espaçosa, embora eu pense que esta anda quieta demais e seu silêncio tem a ver com a tristeza atual da menina Esperança, “a garotinha de nada que nos diz Bom Dia todas as manhãs”.

Aproximei-me dela e perguntei por que estava chorando tanto assim. Aos soluços, quase sem fôlego, Esperança exclamou:

– Então você não viu o que aconteceu na Áustria, na sua querida Áustria? Foram encontrados 71 corpos de refugiados asfixiados, dentro de um caminhão abandonado na beira de uma estrada. Eles também tentavam escapar dos horrores das guerras em seus países. E quatro eram corpos de crianças! Você já imaginou o desespero deles quando o ar lá dentro foi se acabando? Já imaginou quando, angustiadíssimos, tentaram sair e gritaram, gritaram muito, mas estavam trancados e ninguém ouvia, ninguém ouviu, ninguém pôde ouvi-los para ajudá-los? Parece que fugiam da Síria, da Síria onde a guerra não acaba, onde um ditador monstruoso está deixando morrer todo o seu povo. Exalta-se e diz: ele só pode ser um Ogro, um vampiro…

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 Tento acalmá-la, mas ela continua:

– E na costa da Itália, você sabia que muitos dos que chegam naqueles barcos abarrotados furam, de propósito, os próprios barcos para que percebam que eles correm o risco de se afogar, e venham salvá-los? E assim se arriscam ainda mais, arriscam a vida de muitos que não sabem nadar e alguns, às vezes muitos acabam se afogando? Quarenta desapareceram numa só vez e, em outro naufrágio, foram cem… Esperança continuou chorando alto e eu precisei me controlar para não chorar junto com ela.

Depois continuou:

– Pessoas bondosas colocaram flores na fronteira da Áustria com a Hungria, no local daquele caminhão abandonado. Mas os governos não são bondosos, estão construindo barreiras, erguendo muros, pregando cercas para impedir a entrada dos que não têm para onde ir, dos infelizes que não têm culpa alguma e não têm a quem apelar para que se compadeçam deles, para que os recebam simplesmente como semelhantes necessitados! Que humanidade é essa? Por que tratam os refugiados como invasores, como culpados, se são eles as maiores vítimas daquilo que os seus países fazem? E daquilo que os outros países não fazem! – gritou.

Limitei-me a suspirar, tão perplexa quanto a pequena Esperança.

– Não há terras neste mundo, pergunta então, que possam abrigar, como colonos, todos os refugiados da África, da Síria e da Colômbia? Pois é! Até os pobres colombianos, que haviam conquistado a cidadania na Venezuela agora foram expulsos, acusados de prejudicar o governo de Maduro! Como é que se explica isso? – pergunta indignada a menina.  Não faz mais de quinze anos que os colombianos fugiram das FARC (as tais forças revolucionárias da Colômbia) e foram recebidos como aliados pela Venezuela tornando-se cidadãos venezuelanos. Por que agora são expulsos e responsabilizados pela falência do seu país de adoção? Vão deixá-los assim: acampados, sem nada, sem móveis, sem roupas, sem o que era deles? Vi uma pobre mulher chorando enquanto derrubavam sua casa para obrigá-la a sair! Para onde ela iria? Que mundo é esse?

Olha séria para mim e diz:

– O Brasil é o que é graças a muitíssimos imigrantes: italianos, alemães, árabes, japoneses. Você já imaginou, na crise atual, começar a expulsar todos os que não nasceram no Brasil, culpando-os pelo desemprego, pela inflação e pela queda do Pib?  Será que não existem países precisando de trabalhadores, não existem terras e mais terras improdutivas por falta de gente, aqui, no Canadá, e em muitos outros lugares? E pergunta mais uma vez: por que os organismos internacionais não distribuem todos os refugiados nas terras que precisam de lavradores, de camponeses, de produtores rurais? Nesse ponto, ela delira:

– Todos produziriam alimentos saudáveis para o resto da humanidade. E todos seriam tratados como colaboradores, como semelhantes, como irmãos!

 – Ah! Esperança, você é encantadora, suspiro eu de novo. Para distraí-la, chamo-a para perto de mim, para vermos um belo documentário, na televisão, sobre vilarejos medievais e pequenas cidades francesas onde populações inteiras, de forma voluntária, se empenham em restaurar e conservar seus patrimônios artísticos e culturais. E depois nos refugiamos nas belezas de Saint Paul de Vence, apreciando as obras magníficas de sonhadores como Chagal e Miró.

Mais calma, Esperança adormeceu.

 

1 Comment

  1. Muito bom, Rachel. Muito bom mesmo. Acho que choros e gritos como esses da menininha Esperança só podem melhorar o destino daquela parte da Humanidade que geralmente vai para o lixo. Como é possível tanta gente hoje em dia ser tratada como eram seus semelhantes na Idade da Pedra? Como se explica que milhares, talvez milhões, de pessoas como eu e você sejam escorraçadas de onde estão e ninguém se digna a lhes dar abrigo? O que se pode deduzir de tudo isso, a não ser que a Humanidade, essa gloriosa Humanidade que tanto se orgulha de seus avanços e suas conquistas, ainda funcione como nossos antepassados trogloditas? Eu também não sei, mas me parece que isso aponta para algo de que muita gente não se dá conta – o fato de que é dos trogloditas que descendemos, e que enquanto não nos livrarmos dessa herança maldita ainda não poderemos chamar a nós mesmos de Humanidade, e só nos caberá o “título” de Boçais, ou de Energúmenos, ou de Retardados. Ou então seremos pura e simplesmente um horroroso Sindicato de Assassinos.
    Lamentando isso tudo,
    Davy.

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