Nota introdutória ao texto de Paul Craig Roberts e ao de Christine publicado por Okeanews – por Júlio Marques Mota

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Meus caros

Há dias levantei a seguinte questão a um amigo meu: não conheço nenhum analista sério que tenha criticado duramente Alexis Tsipras. Questão tanto mais relevante quanto o acordo assinado em 12-13 de Julho é uma verdadeira capitulação, questão tanto mais importante porque com esta capitulação ficou bem claro que os homens que estão à frente da União Europeia e da Troika são humanamente do pior que há. E a confirmá-lo por quem tem a obrigação de os conhecer bem, estão as declarações de um antigo adviser-chief de Obama, em declarações publicadas em português no blog A Viagem dos Argonautas. Este meu amigo respondeu-me que ele tinha apenas que cumprir o assinado, que não havia outra hipótese. Mas esta afirmação significa que todo o acordo feito sob extorsão é válido, o que é inadmissível, mesmo à face dos tratados, porque estes estariam feridos de legalidade democrática quando o seu cumprimento exige que se desrespeite o homem, o cidadão, o eleitor, assim como os políticos que fazem destes valores a sua bandeira. Inadmissível a resposta que me foi dada, é o que penso.

A Europa por tantos idealistas sonhada terá sido assassinada nessa noite, e contrariamente aos crimes financeiros em que nunca há nenhum criminoso, aqui sabe-se quem é o criminoso, Schäuble e os seus comparsas, e sabe-se também que se trata de um crime por interposta vítima: a vítima fisicamente foi Alexis Tsipras, a vítima moral é toda a Europa.

Tsipras ainda tentou envolver aqueles que lhe poderiam fornecer alguma réstia de esperança, a França e a Itália, mas estes países estão já sob a pata alemã e nada feito. Assinaram a condenação da Grécia, pura e simplesmente assim. Sozinho, portanto face a um continente e com a economia grega já completamente asfixiada.

No entanto Tsipras deve ao mundo uma explicação do que aconteceu e essa explicação está ainda por ser dada. Todos os gregos, todos os europeus por quem ele lutou merecem essa explicação. Deve dá-la, portanto. Se a não der, restam-nos conjecturas. Pela minha parte, houve medo do vazio num jogo da galinha, desenrolado a um nível mortífero e tendo o mundo como espectadores, onde o mecânico do carro de Schäuble terá sido exactamente Mario Draghi. Mario Draghi aqui não se pode reclamar dos Tratados, exactamente porque não há tratado que lhe permita fazer o que fez, asfixiar a economia grega, como Schäuble também não se pode reclamar dos Tratados para expulsar a Grécia: por isso quis que ela saísse por si mesma, ofereceram-lhe essa possibilidade, a de ela querer e poder sair. Sabiam que neste contexto Tsipras violaria o mandado eleitoral e seria politicamente um homem morto a seguir, se é que o não seria também fisicamente. Como nos incêndios em Portugal, haveria então sempre um louco para fazer o serviço e inimputável, portanto.

Por tudo isso, Tsipras deve uma explicação ao mundo. E quem está neste caso de acordo com esta posição é também Paul Craig Roberts, antigo subsecretário de Estado da Administração Reagan, no documento que aqui apresentamos como texto nº 1. Se a não der, o   que é grave, restam-nos outras conjecturas, para além da minha explicada acima, leituras como a Daniel Oliveira, segundo a qual Syriza ocupa o lugar do Pasok ou então leituras como a do texto publicado por Okeanews com o título Um prego espetado no caixão da esquerda, aqui apresentado como texto nº 2. No caso da leitura de Daniel de Oliveira, lembro que o anterior líder do Pasok foi bem pago para estar calado, com 40.000 dólares mensais nos Estados Unidos.

O segundo texto, a leitura de Christine sobre a realidade grega, Um prego espetado no caixão da esquerda, publicada por Okeanews, é um texto amargo que tem para mim o defeito de não colocar no centro da sua análise um problema central a quase toda a esquerda na Europa: não é possível permanecer no euro e recusar a austeridade. Este é o grande engano de Tsipras e do Syriza, engano que os levou ao poder, engano que se mantém no texto do referendo, engano esse a partir do qual múltiplas conjecturas são possíveis. Mas é um texto que deve imperativamente ser lido e com muita atenção, mesmo que seja dolorosa a sua leitura

Mas uma coisa é certa: nas circunstâncias actuais não é possível sair da crise estando dentro do euro e essa é a dura lição que os alemães nos deram e que os gregos estão duramente a aprender. Obrigado mais uma vez aos gregos.

Toda esta política de austeridade já velha de 6 anos pelo menos faz-me lembrar uma reunião em Berlim, precisamente numa tarde, a 20 de Fevereiro de 1933, exactamente dez anos antes de eu passar a ser gente. Nessa reunião participaram Hitler, Goering, na qualidade de Presidente do Reichstag, Hjalmar Schacht, Presidente do Banco Central alemão, e figuras de proa da vida económica como   Scnitzler, o nº 2 de IG Farben, Krupp von Bohlen, patrão de Krupp, Albert Vogler, presidente de Vereinigte Stahlwerke, nº 2 da siderurgia mundial, entre muitos outros, que se reuniram na villa de Goering para ouvir Hitler falar da sua política. Mas se os homens de negócios que tinham esperado ouvir falar de economia, ficaram então desiludidos. Em vez disso, o tema central de Hitler foi o ponto de viragem importante da Alemanha ocorrido em 1918, marcado pela derrota e pela revolução deste ano. Segundo ele, a experiencia desses últimos 14 anos tinham mostrado “ que a empresa privada não era viável na era da Democracia. Os negócios assentavam basicamente sobre os princípios da personalidade e do leadership individual A democracia e o liberalismo conduziam inevitavelmente à social-democracia e ao comunismo. Depois de 14 anos de degenerescência era chegada a hora de acabar com as divisões fatais no seio do corpo político alemão. Hitler mostrou-se implacável com os seus inimigos de esquerda. Era pois tempo de “esmagar completamente o outro campo”. Se os nazis ganhassem a maioria absoluta no Parlamento, o ataque seria feito sob cobertura constitucional. Se as eleições não lhe dessem então os 33 lugares necessários a “luta seria feita por outros meios”.

Hitler não deixou os seus interlocutores levantar a mínima questão. Ele não estava ali para negociar, estava ali para explicar o que ele queria fazer. O novo chanceler da Alemanha queria rebentar com a democracia parlamentar e esperava dar cabo da esquerda alemã e para tal não hesitaria em recorrer à força. Foi-lhes dito que as empresas alemães eram um ponto de apoio importante no combate contra a esquerda e para isso deveriam contribuir financeiramente para essa luta e de forma apropriada. O sacrifício para estas, explicou depois Goering, seria tanto mais fácil de suportar quanto as próximas eleições, as que levaram Hitler ao poder, seriam as últimas nos próximos dez anos ou mesmo nos próximos 100 anos. Em resposta, o representante do patronato alemão, Krupp von Bohlen, declarou que todas as pessoas presentes concordavam quanto à urgência de resolver o mais rapidamente possível a questão política. O patronato subscrevia plenamente o objectivo de instaurar um governo no interesse do povo alemão. Somente com um Estado forte e independente é que a economia e os negócios se poderiam desenvolver e prosperar. O que Hitler e o seu governo prometeram era o fim da democracia parlamentar e a destruição da esquerda alemã. E era esse o programa que o grande capital se dispunha a financiar. À luz das intenções de Hitler naquela noite de 20 de Fevereiro a violência exercida pela Machtergreifung não deveria pois surpreender ninguém. Krupp e os seus colegas acordaram voluntariamente em fornecer o apoio financeiro para a destruição do pluralismo político na Alemanha. E na verdade, no final de 1934, o objectivo estava alcançado: estava-se já perante uma desmobilização popular massiva. O movimento operário estava destruído.

Em termos materiais, as consequências da desmobilização manifestavam-se por uma mudança radical nas relações de força nos locais de trabalho. Na verdade o novo regime congelou as remunerações ao nível que tinham atingido no verão de 33. E confiou todos os ajustamentos futuros nas mãos dos administradores regionais do trabalho, cujos poderes eram regidos pela lei da regulamentação nacional do trabalho, sendo os níveis de salários praticados em 1933 inferiores aos praticados em 1929. Com o congelamento dos salários e a destruição dos sindicatos acompanhados por uma certa cartelização na economia as perspectivas de lucros passaram a ser agradáveis ao poder patronal. No futuro, os salários poderiam passar a ser determinados pelos objectivos de produtividade fixados pelo patronato, em vez de o ser pela negociação colectiva que se eliminava assim.

Em sentido restrito, a instauração do regime hitleriano realizou claramente o que tinha sido prometido naquelas tarde de 20 de Fevereiro . E para os dirigentes das empresas, cujo campo de acção nacional ou local era restrito, o após Fevereiro de 33 foi manifestamente uma idade de ouro da “normalidade” autoritária.

E as analogias em termos económicos com a Troika no campo do trabalho parecem-me evidentes, com a perseguição feita aos desempregados, aos reformados, aos doentes, aos sindicatos, aos trabalhadores, etc, etc,, tal como de resto há muitas analogias entre Mario Draghi e o sinistro Hjalmar Schacht, Presidente do Banco Central alemão nos tempos de Hitler. Uma nova idade de ouro para o capital alemão quer Berlim agora instalar[1] e é essa a lição que Atenas mostra à evidência. Por isso não é crível a leitura de que   Tsipras seja o homem de momento do capital, canalizando e depois amordaçando a força popular, ou alternativamente, que seja o revolucionário irresponsável. Mas é necessário que a sua capitulação seja explicada, que seja explicada a chantagem que sobre ele foi feita. Todos os democratas, na Grécia e no mundo, merecem que ele nos dê essa explicação.[2] Apesar de tudo, o texto de Catherine publicado por Okeanews merece uma leitura muito atenta.

E o que se vai passar em Setembro confirmará ou não o texto de Catherine. Esperemos que não o confirme, ou antes, esperemos que o desminta.

 

Faro, 1 de Setembro de 2015

Júlio Marques Mota

 

[1] Para uma boa ilustração do que afirmamos tomemos como exemplo o caso da capitulação da Grécia em 12-13 de Julho. No caso grego, “The Press Project” ataca de novo sobre as privatizações gregas: aquando do procedimento de aprovação do plano de ajuda à Grécia pelo Parlamento holandês, o presidente do Eurogrupo Jeroen Dijsselbloem depositou um documento que comporta 55 acções de privatizações que o governo grego deve realizar nos próximos dois meses. Asteras, o antigo aeroporto de Atenas Hellinikon, Kassiopi, o Port do Pireu, o Port de Salónica, aeroportos, marinas bem como cláusulas estranhas reencontra-se “nas letras miudinhas ” do acordo.

Por exemplo, para além da concessação por 50 anos dos 14 aeroportos regionais mais turísticos à sociedade alemã Fraport (de propriedade do Estado Alemão via o Land Hesse e pela cidade de Frankfurt), o governo grego compromete-se igualmente sobre outras privatizações forçadas, como a cessão de Astir à Jarmyn, daqui até ao fim do ano.

[2] As referências a 1933 são retiradas de Wages of Destruction: the making and breaking of the nazi economy, Adam Tooze, 2006.

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