Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A exposição Universal de Milão 2015
Pensamento único, postos de turismo e cozinhas do mundo
Philippe Berthier, L’EXPOSITION UNIVERSELLE DE MILAN 2015 – Pensée unique, maisons du tourisme et cuisines du monde
Revista Metamag, 1 de Setembro de 2015
A Expo Mundial é este ano realizada na Europa, em Milão e está aberta até Outubro de 2015. Ela sucede as outras 46 Expo’s que se realizaram desde 1851. Anteriormente, tratava-se de celebrar o progresso industrial. A abertura a um número crescente de países, sem potencial de inovação conduz necessariamente à criação de pavilhões do tipo ” organismos de turismo”. O tema deste ano “Alimentar o Planeta, Energia para o Futuro”, combinado com o pensamento único transformou este desvio em tendência geral.
Uma tal exposição deveria comemorar o sucesso de plantas geneticamente modificadas na sua resistência à seca ou à recuperação da papaia de Havai. A segunda parte do tema deveria discutir os biocombustíveis de segunda e terceira geração, ou seja, aqueles que se obtêm a partir da biomassa não alimentar (lignocelulósica ou algas). Para alimentar o mundo, seria necessário discutir as questões de conservação de alimentos, nenhum traço de tetrapack ou esterilização de alimentos por radiação
No mundo da ecologia oficial, é doravante proibido evocar tudo isto. Os Estados Unidos dizem-se prontos a participar na alimentação de um planeta de 9 mil milhões de habitantes pela investigação e a livre empresa, sem estar a detalhar muito sobre o tema. Belgas, Holandeses e Israelitas tiveram êxito em se exprimirem em termos de inovação neste quadro estreito do pensamento único: cultura hidropónica, criação de insectos, cultura de cogumelo, de arroz sem água.
Países como a Angola e o Gabão puseram em evidência os seus recursos em terras aráveis, o Omã mostra uma notável capacidade de adaptação ao meio. Mas muito geralmente o tema não foi tratado. Marrocos não evoca as suas reservas de fosfatos, mas sim a sua cozinha.
A Coreia elogia o seu método de fermentação… em potes de terra. O visitante vê-se levado a uma sala de vasos… cobertos de ecrãs planos. Os expositores fazem destes um largo uso, não somente como dispositivo mas sobretudo para emitirem uma mensagem. O pavilhão da França resulta do politicamente correcto: é necessário menos atirar menos coisas fora, é necessário produzir melhor e é necessário comer em família à horas fixas, o que parece aliás parece bem natural. Fala-se ainda de joaninhas. Visivelmente a agricultura biológica não tem muitos instrumentos.
A exposição desenrola-se de parte e de outra de uma aleaa coberta de 1,5 quilómetros de comprimento . Tendo em conta o tema, muito pavilhões são construídos em madeira. Mesmo os países mais pobres têm direito à pavilhões estereotipados em ripas horizontais. A arquitectura dos pavilhões francês, russo e chinês são um sucesso; ao lado estes de últimos, os Neerlandeses demonstram o seu cinismo colocando uma tenda na frente de um restaurante com efeito de estufa. Com efeito, a parte traseira de cada pavilhão termina com um restaurante onde o visitante após um caleidoscópio de imagens, pode provar pratos do país. Por conseguinte, acabou-se o culto do Progresso que Régis Debray detectava ainda na exposição de Sevilha. De Londres 1851 à Milão 2015, o que se tinha começado como parque científico terminou em feira dos sabores.
Philippe Berthier, revista Metamag, L’EXPOSITION UNIVERSELLE DE MILAN 2015 Pensée unique, maisons du tourisme et cuisines du monde. Texto disponível em:
Exposition universelle, Milan, jusqu’au 31 octobre 2015





