UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (99)

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O REGRESSO

Estão, as Cartas do Porto, de regresso, depois de uns dias de “férias”.

Como é meu hábito, desde há alguns anos, passei este tempo quase todo na minha cidade. Aqui tenho tudo!

Tenho excelentes passeios para fazer. Tenho excelentes praias para onde ir. Tenho excelentes restaurantes onde me deliciar com a maravilhosa gastronomia que a minha região possui.  Que o digam os turistas que, cada vez em maior número, vêm até cá. Para além disto tudo, tenho a minha casa e as minhas coisas e a minha rua e os meus hábitos e a minha felicidade.

E por cá andei, feito turista (ah, como eu gosto de fazer de turista na minha cidade), a calcorrear as ruas que, dia-a-dia me parecem diferentes, cada vez mais bonitas, cada vez mais alegres, e com as gentes cada vez mais felizes.

Na Rua das Flores

Na Rua das Flores

O Porto é, realmente, uma cidade maravilhosa. Vale a pena cá viver, vale a pena cá estar, vale a pena visitar.

Mas também saí da cidade. Fui até Campo Maior, e dessa minha saída falarei numa das próximas edições destas crónicas.

Hoje, falo-vos de uma figura ímpar da nossa cidade e que, por cá, muito pouca gente conhece:

 

ANA HATHERLY

ANA HATHERLY

ANA HATHERLY

Natural do Porto, onde nasceu a 8 de Maio de 1929, Ana Hatherly, foi uma professora, romancista, ensaísta, tradutora, apaixonada pela caligrafia, artista plástica e poetisa, e infelizmente pouco falada no Porto, a não ser nos meios académicos.
Escreveu 23 livros de poesia, sendo que o último, “A Neo-Penélope”, foi publicado em 2007 e outros tantos ensaios, Edições críticas e romances, e a sua última publicação, “Obrigatório não ver”, data de 2009.
Professora catedrática da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde co-fundou o Instituto de Estudos Portugueses, era diplomada em Cinema, licenciada em Filologia Germânica, e doutorada em Estudos Hispânicos.
Leccionou na Escola de Cinema do Conservatório Nacional, e no AR.CO, em Lisboa.
Desenvolveu uma carreira como artista plástica, iniciada na década de 1960, com um extenso número de exposições individuais e colectivas, em Portugal e no estrangeiro.
Foi membro da Direcção da Associação Portuguesa de Escritores.
Fundou as revistas “Claro-Escuro” e “Incidências”.
Foi membro do grupo da poesia experimental, nas décadas de 60 e 70, e dedicou-se à investigação e divulgação da literatura portuguesa barroca. Tendo sido a grande renovadora dos estudos do Barroco no nosso País, fez publicar na revista “CLARO-ESCURO” textos essenciais sobre aquele período da nossa Literatura.
Foi Prémio da Crítica 2003 pelo livro O Pavão Negro
Em 1978 foi agraciada pela Academia Brasileira de Filologia do Rio de Janeiro, com a Medalha Oskar Nobiling; em 1998 obteve o Grande Prémio de Ensaio Literário da Associação Portuguesa de Escritores; em 1999 o Prémio de Poesia do P.E.N. Clube Português; em 2003 o Prémio de Poesia Evelyne Encelot, em França, e o Prémio Hannibal Lucic, na Croácia.
A 10 de Junho de 2009, foi feita Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.
Toda a sua vida foi pautada por uma energia e generosidade espantosas. Faleceu em Lisboa neste último dia 5 de Agosto.
Chamavam-lhe “A Pintora da Palavra”, e deambulou pela poesia concreta e experimental, sendo no entanto mais reconhecida como artista plástica.
Está em curso, sem data de inauguração prevista, a preparação de uma exposição sobre Hatherly, para a Galeria Municipal, no Porto
Sobre Ana Hatherly, muito mais se poderia dizer, mas aqui não será o local apropriado. Ana Hatherly foi de uma enorme importância para o nosso País, e é de um enorme orgulho para a nossa cidade.

Como homenagem, um excelente poema

Esta Gente / Essa Gente

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente

NENHUMA!

A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente

Ana Hatherly, in “Um Calculador de Improbabilidades”

 

FEIRA DO LIVRO

Não convém esquecer, a Feira do Livro do Porto, abre amanhã, nos jardins do Palácio de Cristal.

Este ano, a feira presta homenagem a Agustina Bessa-Luís.

Dia 5 de Setembro, às 17,00 horas, o nome da escritora será atribuído a uma das Tílias dos jardins do Palácio de Cristal, cujo aforismo “O amor é o invisível no habitual” ficará registado numa placa que simbolicamente assinalará a iniciativa.

A obra de Agustina será tema de um dos debates da feira, de uma Quinta de Leitura e de uma exposição, entre outras actividades, nas quais participarão várias personalidades da Literatura e da Cultura, tais como Isabel Ponce Leão, Mónica Baldaque e Zita Seabra.

 

 

About José Fernando Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

7 comments

  1. Pingback: UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (99) | joanvergall

  2. Rachel Gutiérrez

    Obrigada, José Magalhães, por me fazer conhecer uma poeta tão inteligente, competente e eloquente,
    Felizes estamos os seus leitores com sua volta para junto da gente.
    abraço grande contente

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  3. Maria de sa

    Parabéns ! Quer Ana Harthley como Agustina Bessa Luís merecem a homenagem -Só o Porto se dignou galardoar estas dus figuras relevantes na nossa História . Desculpe a minha ousadia.Postei no meu face o poema que aqui está orgulhosamente . O Porto ,hoje,é uma cidade exuberante .Conheci o Porto ,ainda jovem ,onde tenho família perdida na floresta do tempo .Apesar de nunca mais ter viajado de comboio pelo Douro ,recordo ,com certo enlevo ,as viagens ,os picniques e as férias .É um exlibris de que os portuguses devem amar de paixáo .Por isso,eu compreendo a sua paixão por esse espaço à beira do Douro,navegado em turismo -longe está o tempo de uma certa proximidade desse rio de que me enamorei e guardei na memória com muito afecto. Obrigada pela partilha . Maria do outro lado do mar .

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  4. raul simões pinto

    Excelente perspectiva da “cidade-turística”.Por vezes, sinto-me estrangeiro na minha própria cidade…Merecida Homenagem a duas Grandes Mulheres do Porto!Parabéns!

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