Vivemos numa sociedade onde a informação e cultura têm um tratamento predominantemente visual. O poder evocativo de uma imagem não é o mesmo para todos. Mas o facto é que a imagem do menino sírio, Aylan Kurdi, corpo morto numa praia, foi reproduzida nas primeiras páginas de inúmeros jornais, um pouco por todo o mundo. Questionava-se “depois disto tudo fica igual?”
No livro “A Câmara Clara”, Roland Barthes diz que a imagem pode ser o objecto de três práticas: fazer, experimentar, olhar.
O Operatoré o fotógrafo; o Spectador somos todos nós; o Spectrum é o alvo; o referente; aquilo ou aquele que é fotografado.
Apenas uma fotografia diferente tem o poder de mexer com o Spectador. À atracção que essa foto faz sentir, Barthes classifica de animação, em contraponto ao monótono, à banalidade. Como Spectator, Barthes refere que, nas imagens, apenas se interessa por aquilo que emociona, o que fere.
O acaso explicará a presença do pormenor: o Punctum. Mas que não é colocado intencionalmente pelo fotógrafo. Está presente na imagem por acaso e é encontrado pelo Spectator: “O punctum de uma fotografia é esse acaso que nela me fere (mas também mortifica, me apunhala).”
Roland Barthes diz-nos ainda:“Aquilo que a fotografia reproduz até ao infinito só aconteceu uma vez: ela repete mecanicamente o que nunca mais poderá repetir-se existencialmente.”
Todos nós enquanto espectadores reagimos assim. Esperemos que o Spectrum, os “alvos” – os refugiados sírios – possam beneficiar do impacto que esta foto teve.


