Tal como outros grandes países asiáticos, a China é um continente cinematográfico com uma história prolixa e variada, intensamente marcada pelas clivagens político-sociais do “império do meio” anteriores e posteriores à fundação da República Popular. Integrado na Festa do Cinema Chinês (na qual se inclui também uma mostra de cinema contemporâneo apresentada no Cinema Ideal), este Ciclo visa antes de mais proporcionar a quem a desconheça um primeiro contacto com as várias etapas dessa história. Depois do grande Ciclo histórico aqui organizado há quase três décadas (o ciclo de Cinema Chinês de 1987, em que foram exibidos 37 filmes), e depois de outros contactos pontuais, trata-se assim do primeiro regresso deste cinema, encarado no seu conjunto, à Cinemateca. A mostra está dividida em duas componentes intercaladas, cada uma delas com uma dezena de títulos: um panorama histórico com filmes realizados entre 1933 e 1997; uma retrospetiva parcial do grande realizador Xie Jin (1923-2008). Quanto ao panorama histórico, o princípio é exemplificar quatro grandes etapas da cinematografia chinesa mediante um pequeno número de obras representativas de cada uma delas: o cinema de Xangai anterior a 1949 (os filmes nascidos no contexto cosmopolita das Concessões, fortemente influenciados pelo cinema ocidental); o cinema chinês pós-1949 e anterior à Revolução Cultural (o início de um outro classicismo, em que entra no cinema a grande China, em que é evidente a influência do cinema soviético e em que se procura a difícil articulação com formas artísticas e culturais autóctones); a chamada “quinta-geração” (que estava ainda em plena afirmação aquando do nosso Ciclo anterior e que renovou substancialmente a própria conceção do ato cinematográfico na China); o período de transição entre a “quinta” e a “sexta geração” (com alguns exemplos que fazem a ponte com o núcleo central desta última, da qual um dos nomes mais marcantes, Jia Zhangke, está representado na mostra paralela de cinema contemporâneo). Quanto à retrospetiva dedicada a Xie Jin, trata-se de evocar um dos maiores realizadores que atravessaram grande parte desta história, que filmou entre meados da década de cinquenta e a viragem do século (o seu último filme data de 2001, sendo muito assinalável o facto de ter filmado, e de ter tido reconhecimento, antes e depois da Revolução Cultural), e cuja grandeza em vários géneros é inquestionável. Xie Jin foi antes de tudo um genuíno autor à maneira clássica, que, como os grandes realizadores americanos, foi expoente em géneros diferentes (comédia, filme histórico, melodrama…). Nas suas entrevistas perpassou a consciência aguda das contradições do contexto em que trabalhou (o artificialismo de muito cinema soviético da altura ou as dificuldades dos atores da ópera chinesa com o realismo ontológico do filme, por exemplo) mas soube escolher os seus mestres (no caso soviético, Mikhail Romm…) e levou o cinema chinês a um fulgor contido, sem estereótipos, que corresponde a um dos seus óbvios cumes. No conjunto da mostra, 11 dos 20 filmes incluídos são exibidos pela primeira vez na Cinemateca. Todos os filmes são apresentados em cópias digitais.