De Norte a Sul do país, e curiosamente sobretudo na faixa imaginária que designamos por interior, desenvolvem-se todos os anos, aproveitando o “querido mês de Agosto”, feiras medievais que macaqueiam presumíveis manifestações da Idade Média e onde não faltam torneios, exibição de reis, rainhas e princesas, sem esquecer a gastronomia (outra das manias em voga e que entretém televisões, revistas, suplementos de jornais e outros meios). Mas até o litoral não escapa a esta insistente proposta: basta pensar em Óbidos e em tudo o que tem castelos, incluindo o de S. Jorge, em Lisboa, com tanto de publicidade com crianças, vestidas de cavaleiros, a pelejarem num exemplo claramente anti-pedagógico no que respeita à crítica do gosto integralmente funcional, ou seja, em função de determinado evento como produto histórico.
Ora, como se sabe, as sociedades modernas diferem todas dos tipos tradicionais de ordem social que dominaram o mundo, o que as distingue das sociedades pré-modernas. Daí que, quanto a mim, a defesa da tradição ancestral para reivindicar um acto que escapa, à partida, do que se considera racional, conduz inevitavelmente a uma visão estática e inerte da cultura, até porque, quer se queira quer não, a mudança social influi sempre no desenvolvimento cultural. E aqui cabe um papel importante à evolução das mentalidades e à formação ética da comunidade.
Deste modo a tradição faz-se, fazendo, o que significa que os actos acumulados pela sedimentação se tornam irrepetíveis, são sempre novos porque outros, por mais que se pretenda institucionalizar a mesma tradição, às vezes com três ou quatro anos de implementação forçada pelos criadores de eventos. E, neste aspecto, quanto mais circunscrita e fechada for a tradição, menos possibilidade tem de evoluir ou de se renovar, apoiando-se quase sempre, com orgulho e obstinação acríticos, na aceitação passiva de um país (ou de uma região) que ainda não deu o salto para a frente e que continua a ter no passado os seus pontos de referência (labirintos da saudade e quejandos).
E é a esta visão do mundo que anda associada a autêntica mania da recuperação, dita histórica, da época medieval, inventando cortejos, modelos monárquicos obsoletos, tudo em nome da tradição, esquecendo-se que os objectos e os actos sociais se criam para satisfazer as necessidades de uma determinada organização da sociedade e que a esta ficam irremediavelmente ligados. Repropor hoje um arremedo das ceias medievais ou a exaltação anacrónica da organização monárquica não me parece uma boa maneira de fazer cultura, sobretudo porque são acções fora do contexto em que então se produziram, para além das despesas que comportam para os municípios, sempre com orçamentos limitados, como é sabido.