Foi em 1276 – habemus papam – por Carlos Loures

Há muitas maneiras de ser europeísta.

Por exemplo, podemos sentir o nosso  continente como uma grande empresa, um espaço onde nascem ideias brilhantes para grandes negócios e gente para executar as tarefas mais ou menos especializadas que os projectos exigem; grosso modo, no Norte e no Centro concebem-se  os planos e no Sul encontra-se a mão de obra para os executar. Para facilitar o negócio, nada como pôr todo o continente sob a direcção dos mais aptos, criar uma moeda única… Ou seja, reproduzir aqui o modelo dos Estados Unidos, amalgamando tradições, culturas, idiomas.

Podemos também ser europeístas, concebendo a Europa como um conjunto de nações, um vasto mosaico de culturas que contribuiu positivamente para o avanço das artes e das ciências. Onde nasceram monstros como Hitler, palhaços sinistros como Mussolini, ogres impiedosos como Franco, mas onde surgiram génios como Thomas Mann e Bertolt Brecht, isto para falar só de tempos mais recentes. Nós, por aqui, demos o nosso contributo para esse esplendor. E não demos só os pobres tripulantes das naves que eram lançadas pelos mares desconhecidos. Fomos capazes de reunir os cientistas e os técnicos vindos de todo o continente, que planificaram e deram suporte ao empreendimento. A maior riqueza da Europa era a diversidade. Mas creio que as nacionalidades são inapagáveis e, mais tarde ou mais cedo, ressurgirão.

Foi por estes dias de Setembro, em 12 de Setembro de 1276, foi coroado papa Pedro Julião, um lisboeta que nasceu perto da minha Rua do Desassossego. No princípio do Século XIII, Lisboa era uma cidade diferente daquela que conhecemos – dois grandes sismos, em 1531 e em 1755, mudaram-lhe significativamente a face A actual Baixa era um emaranhado de ruelas estreitas. Pedro Julião nasceu em Lisboa, pensa-se que nas imediações da actual Rua de São Julião em data desconhecida, entre 1205 e 1220. Era filho do médico Julião Rebelo e fez os seus estudos na chamada escola catedralícia que funcionava na Sé de Lisboa. Frequentou a Universidade de Paris (há teses segundo as quais terá sido Montpellier), tendo sido aluno de mestres com São Alberto Magno e tido condiscípulos como São Tomás de Aquino e São Boaventura. Estudou medicina e teologia, com particular incidência na aprendizagem de dialéctica, lógica, física, e da metafísica de Aristóteles. Um europeu que percorreu os labirintos do saber.

De 1246 a 1252 leccionou medicina na Universidade de Siena. Aí produziu parte da sua obra, da qual se destaca Summulae Logicae – obra de referência, à época, sobre a lógica aristotélica, usada como manual durante três séculos nas universidades europeias – tendo tido 260 edições em vários idiomas, incluindo o grego e o hebraico. No campo científico, escreveu De óculo – tratado de oftalmologia, que também teve ampla difusão no mundo universitário da época. Quando Miguel Ângelo, ao trabalhar na decoração da Capela Sistina, contraiu uma grave enfermidade nos olhos, foi salvo por uma receita de Pedro Julião. O seu ‘Thesaurus Pauperum’ (Tesouro dos pobres), no qual prescreve receitas curativas para diversas doenças, tem mais de uma centena de edições e foi traduzido para 12 línguas. Comentários ao pseudo-Dionísio e Scientia libri de anima., são importantes obras de teologia. Encontra-se por publicar a obra De tuenda valetudine, manuscrita em Paris, dedicada a Branca, filha de Afonso IX de Castela, que casou com Luís VIII de França.

Pedro Julião foi nomeado Arcebispo de Braga pelo Papa Gregório X em 1273, papa que em 1271 o nomeia seu médico principal (arquiathros). Estava-se num período conturbado, de fortes tensões políticas e religiosas. Após a morte de Adriano V, em conclave realizado em Viterbo a18 de Agosto de 1276, Pedro Julião foi eleito e coroado papa em Setembro de 1276, adoptando o nome de João XXI. No seu breve pontificado, de um pouco mais de oito meses, mandou castigar, em tribunal criado para o efeito, os que haviam molestado os cardeais presentes no conclave que o elegera. Tentou reconciliar as grandes nações europeias, mas sem sucesso significativo. Teve uma boa relação com grandes intelectuais da época, tendo recebido em audiência, entre outros o grande Dante Alighieri.

Mais empenhado nas questões intelectuais do que nas tarefas pontifícias, delegou no cardeal Orsini os assuntos correntes da Sé Apostólica. Sentindo-se doente retirou-se para Viterbo onde veio a morrer vítima de um desmoronamento das paredes dos seus aposentos. As circunstâncias pouco claras em que o acidente ocorreu, têm dado lugar a especulações e àquilo a que hoje se chama «teoria da conspiração» – aventando-se a hipótese de ter sido assassinado por ser um papa incómodo. Coisa que terá acontecido mais recentemente a outros papas…

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