A IMAGEM DO MENINO SÍRIO AFOGADO ECOA POR TODO O MUNDO – por JOE PARKINSON e DAVID GEORGE-COSH

refugiados - I

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Aylan - I

A imagem do menino sírio afogado ecoa por todo o mundo

 

JOE PARKINSON em Istambul  e DAVID GEORGE-COSH em  Toronto, Image of Drowned Syrian Boy Echoes Around World, Details emerge about 3-year-old from Syria who died off Turkish coast

Wall Street Journal, 3 de Setembro de 2015

 

Detalhes emergem  sobre o menino   sírio ,  de 3 anos de idade,  que morreu afogado  na costa turca.

As fotos de Aylan Kurdi, um menino sirio de 3 anos de idade  que se afogou  com a sua família  quando tentavam  fugir  de Kobane para a Europa,  espalharam-se   pelo mundo esta semana. Qual é a história  que está por detrás desta tragédia?

O seu  nome era Aylan. Este menino  tinha 3 anos, veio da Síria , um país devastado pela guerra .

A sua última viagem deveria terminar no santuário na Europa; em vez disso, perdeu a sua vida e com ela deu-se  um enorme  destaque à  situação desesperada das pessoas apanhadas na mais  grave crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial.

As imagens do corpo da criança sem vida numa praia turca  repercutiram-se   por   todo o mundo, mexendo com a indignação pública e embaraçando   líderes políticos tão distantes como o do Canadá, onde as autoridades  tinham  rejeitado uma concessão de  asilo relativamente aos pais  do menino.

A criança de bruços, fotografo em T-shirt e calções vermelhos, foi identificado como  Aylan Kurdi, um curdo sírio de Kobane, uma cidade perto da fronteira com a Turquia, onde se  tem testemunhado longos meses  de fortes combates entre o  Estado Islâmico e as forças curdas sírias.

O menino  afogou-se quando o barco de 15 pés que o  transportava   da estância balnear turca de Bodrum para a ilha grega de Kos virou pouco antes do amanhecer de quarta-feira, matando 12 passageiros. O irmão de Aylan de 5 anos de idade, Galip, e sua mãe, Rehan, estão também entre os mortos. O seu  pai, Abdullah, foi o único membro da família a sobreviver.

Aylan - IV

Primeiras páginas de diversos jornais  de 3 de Setembro  a mostrar  o menino turco que morreu afogado  Da esquerda para a direita: de cima para baixo:  El Pais, Trouw, The Guardian, La Stampa, De Morgen, The Times.

Photo Goes Viral

 

Na quinta-feira, um perturbado Mr. Kurdi, de  40 anos, disse aos  repórteres que estava a  levar os corpos de volta para Kobane para o enterro e que gostaria de   ficar lá.

“De agora em diante, irei também  viver (em Kobane). Quero ser enterrado com a minha família”, disse ele já fora da morgue  na cidade vizinha de Mugla.

Mr. Kurdi trouxe a sua  família  para a Turquia há três anos,  depois de  ter fugido  dos combates, primeiro em Damasco, onde trabalhou como barbeiro, depois em Aleppo, então  Kobane. Na sua página no Facebook mostra fotos da família em Istambul a atravessar o  Bósforo e a dar comida aos pombos  ao lado do famoso Yeni Cami, ou nova mesquita.

A partir da sua cama de hospital na quarta-feira, o Sr. Kurdi disse a uma rádio síria que tinha trabalhado nas obras  e em vários sítios na Turquia por 50 liras turcas (cerca de US $ 17) por dia, mas isto não é o  suficiente para se viver aqui. Disse ainda  que dependia de sua irmã, Tima Kurdi, que vive no Canadá para ajudar a pagar a renda de casa .

A irmã do senhor Kurdi, falando quinta-feira de  um subúrbio de Vancouver, disse   que o seu pai, ainda na Síria, tinha sugerido que Abdullah viesse para  a Europa para tratar dos seus dentes  que estavam muito  danificados e procurar encontrar uma forma  de ajudar a sua família a deixar a Turquia. Esta afirmou  que tinha enviado ao irmão  há três semanas atrás cerca de  € 1,000 ($ 1,100) para ajudar a pagar a viagem.

Pouco tempo depois,  disse que o seu irmão lhe tinha telefonado e que este lhe disse   que queria trazer toda a família para a Europa, uma vez que a sua mulher não seria capaz de criar os dois meninos sozinha em  Istambul.

O pai do menino  Aylan Kurdi , de 3 anos de idade, cujo corpo foi  encontrado morto numa praia turca, falou com repórteres depois das terríveis  imagens do seu  filho  morto terem sido  publicadas por todo o mundo . Foto: Associated Press

“Se nós partimos, então partimos  todos ” _terá sido o que o pai do menino disse à sua irmã . Ela disse  que falou com a   mulher  do senhor Kurdi na semana passada, e que esta  lhe disse que  tinha medo  da água e que não sabia nadar.

“Eu respondi-lhe : ‘Eu não posso forçar  à ida. Se  não quer ir, não vá “, disse-lhe a irmã do senhor Kurdi  . “Eu penso que eles  decidiram que queriam ir todos  juntos.”

Na morgue, o Sr. Kurdi descreveu o que aconteceu depois de terem partido  da praia deserta, a coberto da escuridão.

” Entrámos no barco e estivemos  no mar durante quatro minutos e depois o capitão viu então que as ondas  eram tão  altas  que   começou a reorientar  o barco quando  fomos    imediatamente atingidos pelas ondas . O capitão do barco  entrou em pânico,  saltou para o mar e fugiu, salvando-se . Eu  assumi o comando do barco e comecei a guiá-lo  mas  as ondas eram tão altas   que o  barco virou.  Depois, peguei na minha mulher e levei-a nos meus  braços e  percebi que eles estavam todos mortos “.

O senhor  Kurdi apresentou diferentes versões do que  aconteceu em seguida. Numa  entrevista, disse que nadou para  terra e andou a pé até chegar ao  hospital. Numa outra,  disse que foi salvo pela guarda costeira.

“Os meus filhos  eram as crianças  mais bonitas no mundo,” disse fora já da morgue. “Acordavam-me cedo todas as manhãs para brincar com eles. Agora, todos morreram. Agora tudo o que eu quero fazer é sentar-se ao lado da sepultura de minhas esposa e dos meus filhos.”

No  Canadá, a irmã do senhor  Kurdi disse que o  seu irmão lhe tinha enviado uma mensagem de texto cerca por volta das  3 horas da manhã pelo horário  turco na quarta-feira,  confirmando que tinham emigrado. Quando depois falou com ele,   este  estava em choque, dizendo-lhe como lutou em vão  para proteger os seus dois filhos ainda  vivos na água, cada um dobrado sob cada um dos seus  braços.

“Gritaram “paizinho,  por favor,  não morra,” disse ele que foi o que os seus filhos lhe disseram. Um a  um, verificou  que estavam mortos, fechou-lhes os  olhos e saiu, afirmou ele .

“Ele disse-me: “eu fiz tudo o que me foi possível para os  salvar , mas eu não os pude salvar , “” disse a irmã . “ O meu irmão disse-me, “os meus filhos  têm que ser o grito de alerta  para o mundo inteiro. “

Reacções sociais

O Sr. Kurdi disse que tinha pago a contrabandistas cerca de  €4.000 pela passagem com segurança para  a Grécia. As agências noticiosas turcas relataram na quinta-feira que a polícia tinha detido quatro sírios suspeitos de  participação em arranjar o barco.

Em todo o  mundo,  as agências de informação  publicaram uma variedade de iterações da imagem do menino, com  muitos dos editoriais a  expressarem indignação pelo sentimento de   inércia das  nações desenvolvidas para ajudar os refugiados.

O foco da campanha eleitoral nacional de Canadá deslocou-se na  quinta-feira para a  resposta do país à crise emigrante, com o  primeiro ministro Stephen Harper a defender  a reputação do seu governo nas questões dos   refugiados e a  prometer que iria  fazer mais.

Os meios de comunicação  social canadianos citaram  a irmã do senhor  Kurdi nas notícias  de  quarta-feira  como tendo dito   que a família de Aylan  tinha procurado autorização  para imigrar para o  Canadá, mas disse na  quinta-feira que o pedido de autorização  era para um outro irmão, Mohammad. Este pedido de autorização foi rejeitado  pelo  departamento de imigração porque “não cumpria  as exigências reguladoras para a prova do reconhecimento do estado de refugiado,” disse o departamento de imigração.

O presidente Recep Tayyip Erdogan da Turquia- que tem  1,7 milhões de refugiados dos  estimados   4 milhões de refugiados da Síria – criticou duramente  a  Europa pela sua incapacidade  em responder à vaga de migração  e aos conflitos que estão na sua base. .

Este  acusa  a União Europeia de andar a perder tempo em disputas sobre as quotas de  distribuição dos migrantes enquanto os países muito mais pobres, como a Turquia, Jordânia e Líbano  têm  milhões de refugiados da Síria, do Iraque e de outros países.

“As nações europeias  transformaram o Mediterrâneo  num túmulo  para os imigrantes partilharem  com a morte de cada um deles “, disse Erdogan. “Não são apenas os imigrantes que se estão  a afogar  no Mediterrâneo, é também a nossa humanidade.”

No Reino Unido, onde o governo está a enfrentar pedidos crescentes para oferecer mais locais  de asilo para os refugiados, uma petição online  em que se pede ao primeiro-ministro David Cameron para aceitar mais requerentes de asilo aumentou  mais de   300.000 assinaturas num só dia quando se estava ainda em  40.000.

Cameron disse que estava “profundamente comovido” com as imagens dos mortos  e  comprometeu-se a que a  Grã-Bretanha   iria assumir a  sua “responsabilidade moral”. O primeiro-ministro francês Manuel Valls disse as imagens mostraram a necessidade de uma acção urgente por parte da Europa.

Os programas matinais de  televisão  em toda a Europa já estavam a comparar o poder desta foto do menino com   o poder da imagem que teve a fotografia de Nick Ut, que ganhou em 1972 o Prémio Pulitzer, de uma menina vietnamita de 9 anos de idade, correndo nua, sofrendo a agonia das queimaduras resultantes de  um ataque de napalm.

Nilufer Demir, o fotógrafo da agência de notícias Dogan da Turquia que capturou as imagens de Aylan na praia, disse que o seu “sangue gelou” quando viu o corpo.

“A única coisa que eu podia fazer era fazer ouvir o seu  grito “, disse Demir, que tem andado a fotografar a  imigração desde 2003. “Espero que alguma coisa mude, a partir  de hoje..”

 

JOE PARKINSON em Istambul  e DAVID GEORGE-COSH em  Toronto,    Wall Street Journal, Image of Drowned Syrian Boy Echoes Around World-Details emerge about 3-year-old from Syria who died off Turkish coast, 3 de Setembro de 21105. Texto disponível em: http://www.wsj.com/articles/image-of-syrian-boy-washed-up-on-beach-hits-hard-1441282847

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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