A GALIZA COMO TAREFA – impérios e periferia – Ernesto V. Souza

Torre de Guimarei, Castelao, aguarela, 1924

Torre de Guimarei, Castelao, aguarela, 1924

Viajar é bom, percorrer espaços diferentes e distantes, e observar ritmos, cores, costumes, paisagens e a obra e monumento diverso e prolongado dos humanos. Não chega uma vida para ver tanta cousa no mais pequeno lugar, como para querer ver tudo naqueles espaços habitados desde épocas remotíssimas e ocupando também centralidades, às vezes evidentes, outras apagadas pelo próprio percorrer da história.

Fascinam-me, talvez por ser galego de nação, estes espaços um dia periféricos do Império romano, mas centrais neles mesmos e sempre encruzilhadas de mercados, portos e faróis, marcando paragem e pontos de passagem para outros territórios comerciais, geográficos, políticos e culturais. A Gallaecia, a Bretanha, a Britânia, a Bética e a Mauritânia, a Panónia, a Dácia, a Arménia e as ilhas do mar Aragonês: Baleares, a Sicília, Malta, Chipre.

Resulta interessante destacar como no desmembramento do Império romano (e de qualquer outro), não sobreviveram as grandes metrópoles provinciais e conventuais artificiais senão as que dalgum jeito tinham entidade anterior e função local. E como se mantiveram desde a perspectiva de unidades políticas e territoriais passadas e futuras.

É mesmo interessante, entender também nesse contexto e perspectiva que o cristianismo foi também um ajuste de contas e uma revolução de classes que liquidou a estrutura de poder intocável das grandes famílias romanas (que detinham o controle político, o comércio internacional, a administração e o exércitos e tinham enormes quantidades de escravos) e a substituiu por uma outra classe emergente de forte implantação local e com o caráter mais autonómico e menos globalizado (reforçado, originado talvez pelo fenómeno do cristianismo mas sem dúvida definidor da própria organização institucional e geográfica da cristandade).

É desta combinação de poder local e igreja que reaparecem, organizados ou não, os primeiros espaços políticos após o Império. Curioso como a partir do século III são áreas da periferia que tomam protagonismos que se perpetuarão e ainda emergem como sombras ou narrativas divergentes às histórias oficiais dos estados nações.

Esses mundos perdidos em relação que ainda se albiscam nas memóires e contos de Chateaubriand, Renan ou L’Isle-Adam, em  Il Gattopardo de Lampedusa, nos mundos míticos e alternativos de Walter Scott, Lang, Dunsany ou Tolkien, nos contos de fidalgos de Otero Pedrayo, Valle-Inclán, Cabanillas, Pondal, Cunqueiro, na última narrativa do Eça de Queirós, Júlio Dinis, ou do Aquilino Ribeiro. Autores que tão bem compartilham essas saudades mágicas de tempos idos, como contempladas de velhas torres derrocadas mais antigas que os reinos, pelos quais acreditavam ser os derradeiros fidalgos nessas periferias conscientes.

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