Os acontecimentos sucedem-se e entrelaçam-se fazendo uma teia que não se consegue romper, criam conexões entre si, como um rizoma, são complexos e multidimensionais; servem-se de realidades que se entrecruzam, e conforme a pressão exterior podem criar linhas de fuga fazendo surgir outras realidades ou podem criar nódulos rizomáticos que esperam por uma outra realidade.
Tudo tem, tal como uma moeda, o verso e o reverso, tudo tem dimensão, tudo se pode interligar criando sempre novos acontecimentos.
Por vezes só sabemos um dos lados da moeda, a que se deixou conhecer, a outra pode ter criado uma linha de fuga ou um nódulo rizomático.
De um dos lado da moeda já se levantaram algumas vozes bradando contra a ajuda aos refugiados, não temos para “os nossos, mas vamos ajudar aquela gente”.
A moeda rolou e vemos centenas de pessoas, numa iniciativa pública, a colaborar na recolha de bens para mandar para os campos de refugiados. Tudo o que é doado está em bom estado porque a dignidade também está nestes “bens”.
A solidariedade faz parte de nós: Timor foi um acontecimento que não podemos esquecer, há que contá-lo aos mais novos numa relação intergeracional e intercultural, porque o mundo somos todos nós.
O movimento contínuo dos acontecimentos mostra-nos, hoje, sírios a fugir, aos borbotões, às golfadas, de uma guerra.
Muitos portugueses tiveram que fugir de uma guerra colonial em África, da fome e da pobreza. Criaram-se linhas de fuga que originaram o derrubar barreiras.
Foram para a Suíça, para França, para a Suécia, para os Estados Unidos…
E como sempre tem acontecido na História a integração de alguns foi a exclusão (França), os pobres, os que nada tinham, os que arriscaram a vida quando passaram as fronteiras, a pé, clandestinamente, viveram em bairros de lata, fizeram o que os Outros não queriam fazer. Movidos pela pressão exterior conseguiram o reconhecimento da população maioritária.
Os que fugiam à guerra eram, na generalidade, pessoas com alguns recursos económicos e académicos. Foram recebidos com dignidade e, algumas vezes, com admiração. Fugir a uma guerra não é fácil, o estatuto de desertor é ser julgado por um crime que lesa o Estado
Os refugiados da Síria mostram bem que o sofrimento de guerra não distingue os pobres dos ricos. Todos eles lutam, por uma causa colectiva, contra a guerra no seu país.
Gentes de todas as profissões, de condições económicas diferentes, escolhem o que lhes poderá salvar a vida. Buscam o silêncio das armas, a liberdade tão apregoada da Europa.
Mil braçadas, mil mortes no Oceano, mil crianças a morrerem pelo caminho, mil mulheres a terem os seus filhos durante a fuga, mil doentes sem medicamentos, mil crianças privadas da sua infância e dos seus direitos.
Mil, mil imagens que testemunham a maldade humana.
Durante a ditadura salazarista, em Portugal, nas madrugadas de dias sombrios, muitas famílias, com as suas malas de cartão, ficavam na rua, à porta dos serviços de emigração. Tinham esperança de conseguir um documento que lhes permitisse passar a fronteira com a Espanha.
Estes emigrantes, mesmo em tempos de ditadura, tiveram a solidariedade de alguns moradores.
Liberdade, solidariedade e fraternidade são as causas de uma bandeira que não se rompe, que continua a agitar-se ao vento “como bola colorida entre as mãos de uma criança”.