SINAIS DE FOGO – A FABULOSA VIDA DE ADELAIDE – por Soares Novais

sinais de fogo

 

Foto de Manuel Roberto
Foto de Manuel Roberto

A Adelaide Teixeira e eu conhecemo-nos quando o país ainda era a preto e branco. E ficamos amigos para sempre, mesmo que raramente nos cruzemos. Creio mesmo que a última vez que nos vimos foi à saída de Biblioteca de Almeida Garrett, onde participamos numa homenagem a Óscar Lopes e já lá vão um bom par de anos. Agora, reencontro-a em o “Porto Olhos nos Olhos”.

“Porto Olhos nos Olhos”, que pode ser acompanhado no Facebook, é um projecto da jornalista Mariana Correia Pinto e do fotojornalista Manuel Roberto que nos faz regressar ao melhor Jornalismo, pois ali há histórias com gente dentro.

Adelaide é amarantina e acaba de ser homenageada na terra abençoada que nos legou Amadeu de Sousa Cardoso e Teixeira de Pascoaes e onde Alexandre O’Neill tinha grandes e fecundas raízes.

Actriz de Cinema, trabalhou com Mestre Manoel de Oliveira e alguns dos realizadores que nos ajudam a olhar o mundo livres do lixo tóxico dominante. Tal como outros, a actriz, esta actriz, só pode fazer “este” Cinema. E o preço que paga para “ser livre e feliz” é alto. Muito alto. Por isso, a sua história da vida preenche os “Sinais de Fogo” de hoje.

Assim, o escriba curva-se perante o seu exemplo e homenageia todos aqueles que teimam em resistir. Cultural e socialmente.

“Na minha vida aconteceu tudo muito tarde. Tudo. Comecei a fazer teatro amador aos 14 anos e continuei a fazer por mais alguns anos. Mas depois entrei na idade de namorar e interessava-me muito mais isso do que os palcos. Na verdade, o teatro era o meu pretexto para os namoricos. O encenador da companhia onde andava era amigo do meu pai e conseguiu convencê-lo a deixar-me ir para o teatro. Comprometeu-se a ir sempre buscar-me e levar-me a casa. Mas eu arranjava sempre maneira de fugir um bocado e fazia chantagem. Dizia-lhe que tinha encontros com amigas e que se ele dissesse ao meu pai ele nunca mais me deixaria ir mais aos ensaios. Andei assim uns anos. Foi uma forma de ter mais liberdade. Sou a mais velha e abri caminho para as minhas irmãs, mas ainda assim elas ficaram tão para trás… Sou a que está mais à frente em termos de atitude. E mais atrás em termos económicos. Sou a pobrezinha da família. As minhas irmãs tinham outros objectivos e souberam fazer-se à vida. A mim nunca foi o dinheiro que me moveu. Nunca. Foi sempre a paixão pela vida, pelas pessoas e pelos projectos. Só quando estou a chegar ao fim do mês e tenho de pagar a renda é que me lembro desse lado. Pelos vintes arranjei um bom rapaz, casei-me e tive filhos. Três. Mas nunca tive espírito para mulher casada e dona de casa que toma conta dos filhos. Acho que fui uma mãe péssima — apesar de os meus filhos dizerem que não. Eles eram — e são — uma parte importante de mim e estarão para toda a vida no meu coração. Mas havia outras coisas importantes. Despachava muitas vezes os meninos para a minha mãe e ia para a luta política. Quando digo que tudo aconteceu muito tarde na minha vida é porque acho que o meu nascimento aconteceu mesmo no 25 de Abril de 1974. Tinha 30 anos. Antes do 25 de Abril o meu envolvimento dava-se sobretudo através do meu namorado da altura, comunista. Passava-me informação e dizia-me para a destruir depois. Lia livros proibidos às escondidas. Ao longo do tempo, fui percebendo que sempre fui um pouco revoltada. Descendo de uma família humilde, como já disse, e tinha ambições. Ambições culturais. E era tudo muito difícil. O meu crescimento deu-se à custa de um esforço gigantesco. Quando veio o 25 de Abril e deixou de haver essa barreira estúpida, tudo mudou. As hierarquias — tão feias e injustas — diluíram-se. Era como se vivesse numa cave escura e, de repente, me tivessem aberto uma janela do tamanho do mundo. Ficou tudo iluminado, as caras ficaram bonitas. Lembro-me que no 1º de Maio de 74 estava na Avenida dos Aliados, rodeada de pessoas, e só me apetecia abraçar aquela gente toda. Todos os olhos brilhavam, todas as pessoas sorriam. Tinha os braços tão minúsculos que não podia abraçar aquela multidão. Senti-me a nascer. E percebi que tinha consciência de muito mais coisas do que achava que tinha. A partir daquele dia nunca mais fui a mesma. Descasei-me do pai das minhas crianças. Sabia que não era aquilo que queria, só não sabia como o fazer sem o magoar. Mas cada passo que dava na minha evolução cultural era mais uma pedra que punha no muro que existia entre nós. Portanto, quando nos separamos, regressei ao teatro. Com 36 anos. O primeiro trabalho profissional que fiz foi no CENA, que deu origem ao teatro de Braga. Quando a Júlia Correia, actriz que estava a fazer a peça, foi fazer a tese e teve de deixar o espectáculo, fui substituí-la. Fizemos uma tournée pelo Norte de Portugal. Foi o primeiro dinheiro que ganhei a fazer teatro. Depois apareceu o Realejo, que já não existe mas era maravilhoso. Trabalhei depois com o Art’Imagem, no TEP e no Teatro Nacional de São João. Nos anos 90, participei num filme da Margarida Gil. E logo depois fui fazer um casting para um filme do Manoel de Oliveira. No teatrinho de Belomonte, com o Mário Moutinho e o João Paulo Seara Cardoso. Fui escolhida. Não tinha experiência nenhuma. O primeiro filme que fiz com o Manoel foi o ‘Viagem ao Princípio do Mundo’. Com o Marcello Mastroianni. Nos outros cinco que fiz com o Manoel já fui directamente escolhida por ele. Foi um privilégio fabuloso. As pessoas que amam muito o dinheiro ficariam como fiquei, se ganhassem o EuroMilhões. Saiu-me ali a sorte grande. Mas o filme que me apaixonou foi mesmo o ‘Pintor e a Cidade’. Fez-me regredir à infância. Eu nasci em Amarante, mesmo pegadinha ao Amadeu de Souza Cardoso que pinta cores que me fazem chorar. O meu pai veio para o Porto, onde morava uma tia nossa rica — quando comparado connosco, claro. Depois veio a minha mãe, com duas crianças. Eu com menos de quatro anos e a minha irmã mais nova ao colo ainda. Migraram para o Porto, como quase todas as pessoas que moravam nas pequenas cidades naquela altura. Estávamos em 1946 ou 47. No pós-guerra. Viemos para casa dessa tia que eu detestava. A minha mãe veio numa camionete da RodoNorte e deve ter saído na Travessa Passos Manuel. Atravessámos a cidade toda. Quando, nos anos 70, vi ‘O Pintor e a cidade’ foi como ver o Porto da minha infância. Já conhecia todas aquelas paisagens. Tinha-as na cabeça. Desde os anos 70 que amava o Manoel. Mal sonhava que trinta anos depois estaria a participar nos seus filmes. Quando ele estava a trabalhar ficava tão concentrado que nem valia a pena falar com ele. Mas tinha momentos completamente opostos. Lembro-me perfeitamente que, numa altura, estava a ser lançada uma biografia dele e havia uma fila enorme de pessoas a pedirem para ele assinar os livros. A dada altura, aquilo estava a incomodar-me muito. Achava que ele devia descansar. Já estava quase a terminar a fila e a dona Isabel, mulher dele, perguntou-me se eu já tinha o livro assinado. Disse-lhe que não e que não era a altura. Ela insistiu. Obrigou-me a ir. Fui a última. Se ele me desse um raspanete teria toda a razão. Mas não. Ele sorriu para mim como se eu fosse a primeira a quem assinava o livro. E escreveu: ‘Para a minha boa amiga e grande actriz Adelaide Teixeira com um grande beijo.’ Fiquei tão comovida. Antes de mais porque não sou grande actriz coisa nenhuma. Mas ele gostou muito do meu trabalho desde o primeiro filme. O Bénard da Costa fez uma notícia da ‘Viagem ao Princípio do Mundo’ onde identificava todos os actores e personagens. E a senhora camponesa, que era a minha personagem, não estava identificada. Ele achava que era uma pessoa da terra mesmo. É o melhor elogio que se pode ter. O teatro foi o meu princípio, mas o que gosto mais de fazer é cinema. Tem a ver com a minha maneira de ser. No cinema temos um guião para estudar, temos de memorizar, fazer pesquisa. O trabalho até chegar ao personagem é o que mais gosto. Isso existe tanto no teatro como no cinema. Mas no cinema há menos repetição. Tenho pavor da rotina. Sou noctívaga. Gosto de comer quando tenho fome, de dormir quando tenho sono. Sou muito indisciplinada. Avessa às regras. Só sou perfeccionista com o meu trabalho. De resto sou desleixada. Ser actriz em Portugal é, financeiramente, dramático. Quem não tem uma retaguarda familiar forte tem muita dificuldade. Como nasci numa família humilde habituei-me a ter falta de muita coisa desde sempre e, talvez por isso, me sinta mais protegida. Há muita coisa que gostava de fazer e não faço. Quantas vezes tenho de pedir dinheiro emprestado para pagar a renda! A intermitência é o mais complicado. Eu farto-me de trabalhar. Mas o financiamento para a cultura é quase inexistente. Nunca pertenci a nenhum partido, mas isso nunca me impediu de me envolver e de lutar pelas causas em que acredito. Sempre votei PCP, porque era o único partido de esquerda que havia — o Bloco é muito recente. Mesmo quando o Bloco já existia ainda votava PCP. Quando a Catarina Martins foi para o Bloco envolvi-me no movimento de apoio. E depois veio a campanha do José Soeiro. Que momento tão bonito. Fiquei completamente apaixonada por aquela gente toda. Amo o José Soeiro. Conheci gente extraordinária, entre eles o João Veloso que passou a ser um dos meus melhores amigos. Senti aquela luta como minha porque me identificava. Depois fui convidada para a campanha da Marisa Matias. Quando fui a Coimbra receber o prémio de melhor actriz secundária pelo filme ‘A Bicicleta’ agradeci aos meus amigos. São eles o maior património que tenho. Como a Marisa é de Coimbra disse que a amava e que as pessoas de Coimbra, a terra dela, deviam orgulhar-se do trabalho fantástico que ela fazia. Ela entrou no Parlamento Europeu com lágrimas nos olhos. O que ainda me falta fazer? Tudo. Tudo o que vier e que me faça apaixonar. Nunca tive objectivos definidos. Vivo o dia-a-dia e preciso de paz e sossego. Não quero passar à frente de nada nem de ninguém. É também por isso que tenho estes problemas económicos. Mas também não quero estar sempre a trabalhar. Preciso de alimentar a alma para conseguir ser melhor pessoa. E melhor actriz. De estar com os meus amigos. Preciso de mundo. Pago essa factura económica. Mas sou livre. E feliz.”

2 Comments

  1. É fabulosa, a maneira como nos vêm, os olhos dos nossos Amigos(as) !!!!! Novais!!! Diz-me, que é feito de ti ??? Deixaste-me com lagriminha no canto do olho … MUITO OBRIGADA !!!!!!!!!

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