AS NOSSAS ENTREVISTAS – AS RESPOSTAS DE EURICO FIGUEIREDO

entrevista1 Eurico de Figueiredo

1. Na sua perspectiva quais são os grandes problemas de Portugal na actualidade? Mencione-os, apenas!

Há problemas mundiais e europeus que no nosso tempo são determinantes. Não os vou referir, apesar de considerar que os nacionais são DECISIVAMENTE condicionados pelos primeiros.

Os mais graves, para o futuro, são o termos a mais baixa taxa de natalidade da Europa, e mesmo assim não dispomos de oportunidades de trabalho para os nossos jovens adultos. Como sinais de crise de civilização são os dois sintomas, para nós, mais preocupantes.

Temos a dívida pública que não para de aumentar (está em 130 % do PIB);

as parcerias publico-privadas são devastadoras para o erário público;

a descriminação social, pobreza, até infantil, estão em crescendo;

 o aparecimento de um novo surto de emigração, agora qualificada;

o abandono do interior do país;

o ataque aos direitos dos trabalhadores;

cortes nos salários da função pública, reformas e pensões;

venda ao desbarato das nossas melhores empresas públicas;

cortes na saúde, justiça e educação;

perseguição fiscal das pequenas empresas e pequenos produtores;

falência de empresas e de bancos, estes pagos pelos contribuintes;

um estado delinquente que não paga o que deve ou paga tarde e sem juros e terrorismo fiscal e nas multas;

chefias da função pública partidarizadas;

explosão das penhoras, muitas sem base legal;

corrupção generalizada, envolvendo altos cargos da governação, da hierarquia partidária, líderes de bancos e funcionários de topo!

É muita coisa. E não sei se esgotei as chagas…

 

2. Acha que, depois do que se passou com a Grécia, Portugal deve continuar na União Europeia?

Nos anos 60 eu era gaulista. Aquilo que imaginava ser útil para a Europa reduzia-se a um nível confederal (com compromissos tomados por unanimidade). Nos anos 80, tendo em conta a realidade de globalização evolui para um conceito federal, imaginando uma Europa capaz de impor regras à globalização e assim impedindo o imperialismo dos mercados de andar à solta…, consolidando o estado social, corrigindo assimetrias de desenvolvimento e constituindo-se em vanguarda na defesa do ambiente.

A verdade é que a evolução da construção europeia me decepcionou!

A UE em vez de impor regras à globalização, estimulou-a. E está, agora, a por em causa o estado social nos países do sul e a provocar maiores assimetrias de desenvolvimento. Mantendo-se, ainda bem, na vanguarda da defesa do ambiente.

 Em vez, todavia, de criar um estado federal com um orçamento importante como o dos EUA ou da Suíça (nesta última rondou 35% do orçamento de estado em 2014, comparada com 1% da UE); uma democracia de estados com um senado representando-os a todos em pé de igualdade; e uma democracia dos cidadãos com um parlamento com iniciativa legislativa. Antes de tomar medidas irresponsáveis. Inventou, sem criar um estado que a defendesse, uma moeda única. Impotente, nas actuais condições, para absorver os choques assimétricos de desenvolvimento… Num golpismo sistemático, sem a participação dos povos europeus! Mas quando perguntados, estes revelam não ter  pressa!

 Aí estamos agora.

Sem um escudo para poder desvalorizar, se tal fosse necessário, temos que nos atacar ao estado social e aos salários para continuarmos competitivos num contexto de euro forte, mas, e significativamente a partir de 2000, cada vez mais pobres… !

O “massacre” da Grécia, maior do que o que nós também suportamos, aí está para denunciar o impasse actual. E as novas medidas de empobrecimento que se procura impor-lhe são de uma inimaginável brutalidade! Quando o problema da Grécia foi ter cumprido as medidas que lhe foram impostas.

Só não compreendemos como é que os credores, que Tsipras chama de chantagistas, não sejam responsabilizados pelas misérias que impuseram à Grécia.

E CONTINUEM A NÃO O SER APESAR PELAS MALDADES QUE VÃO CONTINUAR A PROVOCAR.

Um estado, ou decide soberanamente, de que maneira irá pagar as suas dívidas, tomando, livremente, as medidas que achar necessárias para o possibilitar. Ou estas medidas são-lhe impostas pelos credores.

ACASO OS ESTADOS CUMPRAM LEALMENTE AS MEDIDAS EXIGIDAS PELOS CREDORES, NÃO COMPREENDEMOS COMO É POSSÍVEL QUE ESTES NÃO SEJAM RESPONSABILIZADOS PELO INSUCESSO DAS MESMAS!

Não havendo condições para avançar para uma Federação Europeia, e parece que não há, podemos ser obrigados a sair do euro de maneira controlada.

 

3. O actual quadro partidário é capaz de assumir e procurar resolver os problemas que referiu?

Escrevíamos, com Fernando Condesso, em artigo do Público de 13 de Fevereiro deste ano, “DA NECESSIDADE DE UM NOVO PARTIDO” que temos uma classe política desprestigiada, com “abstenção, votos em branco e nulos a subir a cada nova eleição, sendo de concluir que vivemos uma crise de regime ”.

“Desde 1976 até à actualidade as mais importantes transferências de voto fazem-se do PSD para o PS e vice-versa; transferências que chegaram a atingir mais de um milhão e quinhentos mil votos! O que significa que a nata da democracia portuguesa anda à procura, sem sucesso, de um porto seguro”.

E mais: ”Não pode, todavia, um novo partido ser igual aos outros. Os portugueses querem garantias de que veiculará diferenças credíveis”.

E quais são as garantias:” a decepção em relação aos dois partidos há 40 anos mais votados, que conduziram à crise de representatividade da democracia, cura-se com mais democracia.

Fortalecendo-se a ligação dos eleitos aos eleitores e proporcionando-lhes uma maior participação: com a modificação da lei eleitoral e do regime dos referendos, facilitando estes últimos (sem obrigação de passarem pela AR e AM);(…) generalizando os tão bem sucedidos, no nosso país, orçamentos participativos a nível  municipal .

Urge desenvolvê-la para combater politicamente a actual oligarquia dos partidos (partidocracia) que, em comunhão com os grandes grupos económicos, tem sido a principal fonte de compadrio, corrupção e tráfico de influência”.

Um novo partido deve fazer gala de desenvolver aspectos de democracia participativa, independentemente do enquadramento legislativo. O LIVRE tem sido exemplar neste domínio, mas falha na análise da situação global do país.

Defendemos também que um novo partido deve ter em conta as opções da esmagadora maioria dos portugueses. Defensores de políticas social-democratas, opõem-se à venda ao desbarato de sectores chave da economia, defendem serviços públicos em áreas essenciais, energia, comunicações e águas, o que permite definir políticas como patrióticas.

Os portugueses têm o pressentimento de que gente graúda é gente corrupta: a luta contra a corrupção é urgente, para dar confiança aos portugueses.

A democracia participativa também serve este objectivo: responsabilizando-se políticos; responsabilizando os eleitores pelas políticas escolhidas.

O reforço da transparência do estado facilita a denúncia dos corruptos!

As carreiras na função pública, até ao topo, baseadas em concursos públicos, devem ser assumidas como fazendo parte do pacote de luta contra a corrupção e contra a partidocracia que a facilita!

Assim como a despenalização dos corruptores que denunciem os corruptos!

DEMOCRACIA PARTICIPATIVA, ASSUNÇÃO PATRIÓTICA DO ESTADO SOCIAL E DOS SERVIÇOS PÚBLICOS ESSENCIAIS (ENERGIA, COMUNICAÇÕES E AGUAS), LUTA CONTRA A CORRUPÇÃO, SÃO OS INGREDIENTES QUE JUSTIFICAM A CRIAÇÃO DE UM NOVO PARTIDO, QUE A NÍVEL EUROPEU LUTE PELA DEMOCRATIZAÇÃO DAS INSTITUIÇÕES EUROPEIAS, E DEFENDA A REGULAMENTAÇÃO DOS MERCADOS NO ÂMBITO DA GLOBALIZAÇÃO!

Mas este partido não existe.

O PDR FOI (E É) UMA DECEPÇÃO. A falta de democracia interna, imposta por um LÍDER LOUCO mas popular, tipo Mussolini, fazem- me temer o pior!

 

      Quinta dos Lódos

       SJ da Pesqueira.

1 Comment

  1. A imaginação dos idealistas produz paraísos mas nunca apresenta uma solução. Aterroriza-os terem um engano e, assim, perderem um lugar na galeria dos entendidos.. Sem uma alteração profunda nas regras do jogo democrático nada feito. A Democracia vinda da Magna Carta já no seu tempo não andava bem. A Democracia da Revolução dita Francesa durou tanto quanto as rosas de Malherbe. Resta esta mistela constitucional que – a objectividade fala por si – não consegue dar uma solução aceitável, bem pelo contrário.. Desceu-se tanto que até se fez um IV Reich!!!! O tal partido que faz falta nunca pretendeu dar vida nova a uma Democracia constitucionalmente apta para as exigências dos nossos dias.CLV

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