No meio da algaraviada com que os patrões dos meios de comunicação e propaganda, e seus respetivos diretores, procuram entontecer os seus clientes, escapam por vezes algumas pérolas contra a corrente do “não há alternativa” que nos querem impingir. Esta saiu no Público de 19 de Setembro, numa quase clandestina entrevista ao filósofo grego Christos Yannaras, antes das eleições na Grécia, como se vê, e com a intenção de antecipar lições aos bons portugueses que se preparam para votar, presume-se.
Christos Yannaras é colunista no diário Kathimerini, o principal jornal conservador da Grécia. Não há acasos nestas escolhas de meios de comunicação para passar a mensagem pretendida. Foi certamente na convicção de que Christos Yannaras faria a interpretação esperada pelos apoiantes do PAF, de que, em Portugal, só um governo com o programa da troika e obediente à União Europeia pode sair das eleições de 4 de outubro, que o foram ouvir. Sucedeu que o grego desafinou do que era previsível e desejável que dissesse aos eleitores portugueses. Às vezes acontece ir por lã e vir tosquiado. Aconteceu ao Público.
O colunista conservador resumiu o resultado da política da União Europeia para com a Grécia, desanimando as hostes dos PAF e desfazendo o seu programa de austeridade: “Somos infelizes, não temos a dignidade necessária para sermos cidadãos”.
Sobre o modo como a União Europeia tratou o primeiro ministro grego Alexis Tsipras, que Passos e Portas utilizaram como a encarnação do diabo radical: “Foi a primeira vez que um político no governo no quadro da União Europeia sofreu deste modo tanta agressividade. Um escândalo.” Defendeu a dignidade dos gregos.
A propósito da atitude dos governos de Portugal e da Espanha, de alinhamento com a Alemanha, de exigência do cumprimento das regras, ou da expulsão, ou de saída sem contemplações nem especial prejuízo para a União Europeia, respondeu Christos Yannaras, contrariando Cavaco Silva, que afirmou que se a Grécia saísse do euro ainda ficavam 18 países: “Outros países poderiam ter reagido perante esta situação que quer dizer que cada povo não tem o direito de decidir qual será o seu governo. É um totalitarismo terrível. Depois da queda a União Soviética vivemos agora um totalitarismo capitalista que não tem limites.” O homem não é neoliberal!
Quanto à actual ideia de Europa em vigor na União Europeia, na troika e no governo português: “O que significa a Europa, a cultura da Europa? A Europa não é apenas uma possibilidade de produção. São as suas universidades, as culturas diferentes de cada país – o uniformismo não pode representar a Europa.” Abaixo o pensamento único que Passos Coelho e Portas entoam com o fervor de lusitos a cantar o hino da Mocidade Portuguesa.
Sobre o totalitarismo da economia erigido em doutrina oficial em Portugal por Cavaco Silva e Vitor Gaspar (o desaparecido do FMI): “Quando a economia se autonomiza em relação à sociedade, quando a política se autonomiza, isto significa que a sociedade não pode ir mais além. É uma crise de vida ou de morte. E isso leva ao desaparecimento do nosso paradigma actual e quando digo paradigma actual refiro-me aquele formado pela filosofia das luzes, a primazia absoluta dos direitos do indivíduo.” Estranha linguagem! Filosofia das luzes, para a élite do PAF, deve ser a das acções da EDP.
A propósito das lutas pela liberdade de pensar para além dos contabilistas: “Há um dever, uma necessidade, de testemunhar a realidade, de perceber que os nossos problemas, a nossa crise da Europa não é uma crise económica, é uma crise de sentido da vida. Um filósofo pode testemunhar que a vida não acaba na economia. Há outras possibilidades.” Talvez Christos Yannaras tenha ouvido falar na universidade de Verão da JSD.
A entrevista foi publicada na véspera das eleições na Grécia. Ajuda a perceber como Portugal chegou à actual situação, com a conjugação do pior de dois mundos: externamente, uma economia dirigida segundo os princípios de Schäuble, reduzida a folhas de papel pautado dum Livro Razão, a extratos de conta, conjugada com uma política mesquinha e aldrabada por um Durão Barroso que só tem um pensamento: como tratar da sua vidinha; internamente, uma economia conduzida por contabilistas de banqueiros como Cavaco Silva e Vítor Gaspar e uma política assente na visão de Passos Coelho ganha na Tecnoforma e na de Miguel Relvas, como facilitador de negócios.
Ao contrário do que afirmam os tenores da PAF como Camilo Lourenço e da forma como Crato dirige a educação, a filosofia, a história, as humanidades ajudam a perceber o mundo e a construir um melhor e mais humano. Eles percebem o perigo do saber para além da tabuada.
Gostei de ler este texto ! apreciei imenso o apontamento humorístico de ” filosofia das luzes” ser para os líderes da coligação de direita “a das acções da EDP”.
E o Salazar que sabia isso tão bem. Falo da ultima frase.
Gostei de ler este texto ! apreciei imenso o apontamento humorístico de ” filosofia das luzes” ser para os líderes da coligação de direita “a das acções da EDP”.
Brilhante!
Eu li “Minotauro Global” de Varoufakis e seria bom que toda a gente que anda a acusá-lo de se situar na extrema-esquerda também lesse…
Veremos o que faz “o melhor povo do mundo” em 4/10/2015…
Boa tarde