CARTA DE ÉVORA – FRAGMENTOS… SOBRE O AMOR – por JOAQUIM PALMINHA SILVA

carta de évora

            Todas as célebres histórias de amor, pelo menos desde a Idade Média, tiveram sempre um fim desgraçado e sangrento… Pense-se em Tristão e Isolda, Heloísa e Abelardo, D. Pedro e Inês de Castro, Fausto e Margarida, Hamlet e Ofélia, Paulo e Virgínia, Werther e Carlota, para só citar algumas das mais conhecidas. Se passarmos à Ópera teremos os dramas de Alfredo e Violeta, Elsa e Lohengrin, Radames e Aida, e assim de seguida… – Sem esquecer o drama paradigmático de Romeu e Julieta!

            Mas porque será que a narrativa mais repetida é sempre a de um amor infeliz e seu catastrófico fim? – Há um oculto desejo humano de despeito, infame e inconfessado, de ver punidos pela desgraça todos os que experimentaram a abrasadora paixão do amor, porque ela é mais rara do que acreditamos e não é experimentada pela maioria. Abateu-se, pois, sobre estes pares amorosos o infame ciúme dos vulgares, da maioria…

*

            O amor mais perfeito e mais forte (se tal é possível) é sempre incentivo de soberba e vínculo de servidão.

*

            Ainda hoje é corrente o “mito” de que os grandes artistas e pensadores não teriam atingido os seus rasgos geniais sem a presença de uma companheira e musa inspiradora.

            No entanto, a história cultural do Ocidente contradiz e desmente este “mito”. Na vida de Platão, de Paracelso, Rabelais, Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo, de Kant, de Schopenhauer e Kierkegaard, entre outros, não existem vestígios biográficos de musas inspiradoras, esposas ou amantes. Entre nós, não teve musa inspiradora o Pe. António Vieira, e Alexandre Herculano, quando casou depois dos 50 anos, já tinha escrito a parte mais substancial da sua obra maior.

            O poeta Fernando Pessoa (1888-1935), não casou, não teve filhos, não é mesmo garantido com alguma convicção de tenha praticado o acto de que pode resultar o nascimento de filhos. O suposto namoro de Fernando Pessoa com Ofélia é um acidente de percurso, sem nenhuma influência na criatividade do poeta, como atestam todos os estudos até hoje publicados.

        Haverá quem ateste que muitos destes génios não tiveram musas inspiradoras porque seriam homossexuais, todavia a sua pretensa homossexualidade não está comprovada na maioria dos casos.

         Há escritores e pensadores que podem ter necessidade da presença inspiradora de uma mulher, como se fosse uma muleta para poderem caminhar, mas existem outros, igualmente geniais, que conseguem criar obras imortais mesmo na mais agressiva solidão.

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        Não sei se a virgindade da mulher é uma das condições para a perfeição da sua vida espiritual, se porventura ela é religiosa. Mas a História deixou-nos exemplos estranhos, inquietantes para os descrentes de todos os quadrantes…

        S. Catarina de Siena conseguiu reconduzir o Papa, Gregório XI, de Avinhão a Roma. Joana d’Arc conseguiu destruir o complexo de inferioridade do seu povo face aos ingleses. Isabel I de Inglaterra, ficou a dever o seu prestígio, segundo os historiadores do seu país, ao facto de não ter querido marido ou amante e, parece, repugnava-lhe a subserviência sexual.

     Nos meados do século XIX, a revolucionária francesa Louise Michel foi muito justamente intitulada a «virgem vermelha», destacada lutadora nas barricadas da Comuna de Paris (1871), exerceu durante décadas grande influência sobre o proletariado francês, e foi a alma inspiradora de libertários e da emancipação feminina.

            A virgem testemunha um domínio fora do comum sobre os instintos naturais do ser humano… Talvez por isso, na imaginação dos homens, quem é capaz de recusar e dominar a natureza seja mais capaz de vencer os desafios religiosos, patrióticos ou sociais.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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