Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
(continuação)
Lançador de um alerta
“Estou aqui, diz-me, porque o que nos aconteceu está em vias de acontecer a outros . A Grécia é um campo de batalha sobre o qual uma guerra contra a democracia europeia, contra a democracia francesa, foi tentada e testada… Estou aqui porque a nossa primavera de Atenas foi esmagada, como o foi a Primavera de Praga. Certamente não pelos tanques, mas pelos bancos. Como Bertolt Brecht disse um dia “porque enviar assassinos quando podemos recorrer a contínuos? ” Porque fazer um golpe de Estado quando se pode enviar o presidente do Eurogrupo dizer, ao novo ministro das finanças de um governo acabado de ser eleito, três dias depois da tomada de posse, que tem a escolha entre o programa de austeridade anterior que mergulhou o seu país numa enorme depressão ou então o encerramento dos seus bancos nacionais. Porque enviar tropas quando com as visitas mensais da Troika podem controlar cada ministério governamental e escrever cada lei do país? “
Para Varoufakis, a Grécia é o laboratório desta estratégia do choque de que falava Naomi Klein e que será aplicada, se não for combatida, a toda a Europa. “Aos que dizem “ mais Europa” e falam a favor “de uma união política”, digo: desconfiem! A União soviética era também uma união política. A pergunta é: Que tipo de união política? Um reino democrático de prosperidade partilhada? Ou uma gaiola de ferro para os povos da Europa?”
Pode-se certamente discutir da sua estratégia de negociação excepto se considerarmos como ele o demonstrou repetidamente que não houve negociação e que fez a única coisa que podia fazer: chamar à opinião pública esclarecendo-a, informando-a, quebrando o segredo das deliberações esforçando-se por criar uma opinião pública europeia. “A nossa longa negociação de cinco meses foi um conflito entre o direito dos credores de governar um país devedor e o direito democrático dos cidadãos desta nação ser auto-governada. Nunca houve uma negociação entre a UE e a Grécia como Estado-Membro da UE” (ler um insider conta como a Europa estrangulou a Grécia).
Yanis Varoufakis
Pelos suas declarações e pelos seus escritos, Varoufakis lançou uma luz crua sobre o funcionamento da casa Europa. Se não teve êxito em fazer vergar “a Troika”, desmontou as suas engrenagens de poder como ninguém antes dele. Ilustrou bem a cena da dívida”, uma cena confusa onde se misturam os rostos impotentes dos governantes e o poder sem rosto da Troika, os credores vorazes, os funcionários de Bruxelas, instâncias anónimas, “os mercados” que são invocados como verdadeiras divindades. Colocou a nu as contradições entre o FMI e a União Europeia sob a influência alemã: um conflito entre o neoliberalismo anglo-saxónico (desregulação, intervenção do Estado, financeirização) e o ordolibéralisme alemão (império “da norma”, do pecado da dívida, o rigor orçamental correctivo…). Desmistificou a crença colectiva das elites burocráticas nos resultados das normas jurídicas contidas nos tratados europeus. O império “do número” e “da norma” que substitui às lições da história económica dos rituais de obediência e de sacrifícios. Uma gramática da repreensão e da punição que estrutura a linguagem das elites burocráticas e mediáticas. “Uma das grandes ironias desta negociação, é que não havia discussão macroeconómica no Eurogrupo. Tudo era baseado em regras, como se as regras fossem um dom de Deus e como se as regras se pudessem impor-se às regras da macroconomia. Insisti para falar em macroeconomia!”
Se Yanis Varoufakis põe em dificuldade os profissionais da política, é que ele é o primeiro líder político que compreendeu que a política europeia não pode sobreviver à opacidade das suas deliberações, e tirou daí todas as suas consequências. O modelo dos partidos nacionais representados em Bruxelas ficou obsoleto. O Eurogrupo é uma instituição sem existência legal, um grupo informal que pilota a zona euro sem controlo democrático. A instituição encarregada em fazer aplicar as sacrossantas regras ordo-liberais funciona sem regras.
No decorrer de uma reunião do eurogrupo , conta Varoufakis, Schäuble declarou: “As eleições não podem alterar seja o que for. Se cada vez que há uma eleição as regras se alterassem a zona euro não poderia funcionar. ” Retomando a palavra, Varoufakis responde-lhe: “Se é verdade que as eleições não podem alterar nada, deveríamos ser honestos e dizê-lo aos nossos cidadãos. Talvez se devessem então alterar os tratados europeus para aí colocar uma cláusula que suspende o processo democrático nos países obrigados a pedir emprestado junto da Troika. Mas, perguntou aos seus colegas ministros, a Europa estará de acordo com isso ? Os nossos povos votaram para se ter isto? ” Uma réplica digna do topógrafo de Kafka! Varoufakis seria o topógrafo de um império subjugado, governado pelos sortilégios e pelo pensamento mágico, encarregado também não de medir as distâncias reais num mundo real mas sim de especular num mundo subjugado onde a razão e a medida deixam de ter sentido . “Ponha-se em discussão um argumento que realmente se tenha trabalhado – para nos assegurarmos que é lógico e coerente – e temos em frente apenas olhares vazios . ” Uma mecânica particularmente desconcertante “para alguém que tem o hábito dos debates académicos”, confessa o economista.
Mais o tempo passará, mais seremos levados a considerar que Yanis Varoufakis não foi apenas o efémero ministro das finanças do primeiro governo Tsipras, mas um fantástico batedor da cena política europeia. É um herdeiro da tradição das Luzes convencido das virtudes da deliberação democrática e do debate racional. Este perturba os códigos da política europeia com uma forma inédita de negociar associando a opinião pública, pondo a tónica sobre a racionalidade na discussão. Economista por acidente, marxista heterodoxo, político contra vontade Varoufakis pertence à esta nova geração política dos lançadores de alerta que substituiu os militantes ambíguos da acção humanitária e do direito de ingerência. Os Julien Assange ou Edward Snowden’s, acusados como ele de alta traição, porque estão prontos para transgredir as regras do segredo em nome dos interesses mais elevados, os da democracia.
(continua)
Encontro com Yanis Varoufakis : «É tempo de abrir as caixas negras» – por CHRISTIAN SALMON I


