O CRESCIMENTO ECONÓMICO EM PORTUGAL E A REDUZIDA CONTRIBUIÇÃO DAS EXPORTAÇÕES E DA PROCURA EXTERNA LIQUIDA PARA ELE, por EUGÉNIO ROSA

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O CRESCIMENTO ECONÓMICO EM PORTUGAL E A REDUZIDA CONTRIBUIÇÃO DAS EXPORTAÇÕES E DA PROCURA EXTERNA LIQUIDA PARA ELE

Um dos mitos que Passos Coelho e Portas têm utilizado na campanha eleitoral, que depois é repetido pelos seus defensores nos media, numa gigantesca operação de manipulação da opinião pública, é que o crescimento económico em Portugal só é possível se se basear nas exportações, e não na procura interna que pressupõe uma repartição mais justa dos rendimentos. Portanto, para eles, a recuperação económica e a salvação do país está nas exportações, e o “milagre das exportações” está a ser realizado pelo governo PSD/CDS. Por isso, interessa analisar esse mito, confrontando-o com a realidade traduzida nos dados oficiais divulgados pelo INE, para o desconstruir e mostrar a mentira que encerra.

O CRESCIMENTO ECONÓMICO EM PORTUGAL IMPULSIONADO PELA PROCURA EXTERNA LIQUIDA TEM SIDO NEGATIVO, SÓ A PROCURA INTERNA É QUE TEM FEITO O PAIS CRESCER

Para provar que o crescimento económico é só possível em Portugal com base num crescimento sustentável e saudável da procura interna, e não da procura externa liquida, e muito menos das exportações, observe-se o “peso” da procura interna e da externa líquida (exportações menos importações) no período 1995-2015, segundo os dados do INE do quadro 1:

Quadro 1 – Procura interna e externa, e crescimento económico em Portugal- INE

crescimento económico - I

O crescimento económico, medido pelo aumento do PIB em volume, ou seja, a preços constantes, é impulsionado pela procura tanto interna como externa liquida (diferença entre as exportações e importações). E como revelam os dados do INE, excetuando o ano de 2013, e num valor residual (apenas 343 milhões € o que corresponde apenas a 0,2% da procura total deste ano), portanto mesmo nos anos da “troika” e do governo do PSD/CDS e do seu “milagre” das exportações, a procura externa liquida sempre deu um contributo negativo para o crescimento económico em Portugal. O que tem acontecido infelizmente em Portugal é que a procura interna considerada “excessiva” pelo governo PSD/CDS tem servido, pelo menos uma parte dela, para promover o crescimento económico de outros países, nomeadamente da Espanha, Alemanha, etc., cujas exportações têm inundado o mercado português, não contribuindo para o crescimento económico do nosso país nem para a criação de emprego. No período compreendido entre 1995 e 2º Trim.2015, cerca de 234.063 milhões € de procura interna portuguesa (consumo mais investimento) serviu, não para promover o crescimento económico e o emprego em Portugal, mas sim o crescimento económico e o emprego de outros países. Mesmo no período do governo Passos Coelho/Portas, que não cansam de gabar do “milagre” das exportações, 11.949 milhões € de procura interna portuguesa serviu para promover a procura interna de outros países e o seu crescimento económico, e não o crescimento e a criação de emprego em Portugal. E as empresas que mais contribuam para as importações são as do quadro seguinte retirado da publicação do INE “Estatísticas do Comercio Internacional 2012”, pág. 63.

crescimento económico - II

Muitos produtos importados por algumas destas empresas, como as de distribuição (Pingo Doce, Continente, LIDL), podiam ser produzidos em Portugal. Efetivamente, como consequência da politica dos grandes grupos económicos, pouco interessados em promover o desenvolvimento do país, e da destruição da agricultura e pescas, e da desindustrialização do país causada pela politica seguida pelos sucessivos governos e, nomeadamente pelo atual, a mando da Comissão Europeia e da “troika”, e por falta de apoio às empresas de bens transacionáveis que produzem para o mercado interno, a produção nacional tem-se revelado insuficiente, quer em qualidade quer em preços, para satisfazer o consumo nacional, o que tem determinado que, apesar do crescimento das exportações, elas têm-se revelado insuficientes para pelo menos compensar o gasto pelo país com importações, e muito menos para dar qualquer contributo para o crescimento económico.

Entre 2010 e 2014, a procura interna, como consequência dos cortes feitos nos rendimentos dos portugueses e no investimento, reduziu-se em 25.192 milhões €. Apesar disso, foi esta procura interna assim reduzida que impediu que o país caísse numa recessão económica ainda mais profunda. A procura externa líquida tem-se revelado totalmente incapaz de dar qualquer contributo para a recuperação económica do país. Mesmo este ano, os últimos dados disponibilizados pelo INE referentes ao 1º e 2º Trimestres de 2015, revelam uma contribuição negativa crescente da procura externa liquida. As exportações apenas têm servido para reduzir o peso negativo da procura externa liquida para o crescimento económico de Portugal

Pensar que são as exportações que vão servir de alavanca principal, no caso português, para a recuperação da economia e para o desenvolvimento, é um mito que é negado pelos próprios dados oficiais do INE, o qual só pode servir para alimentar uma ilusão e o atraso na recuperação e no crescimento da economia portuguesa. A recuperação económica em Portugal passa necessariamente por uma reanimação da procura interna, o que pressupõe uma nova politica de rendimentos e uma reforma democrática do sistema fiscal português, bem como o apoio reforçado fundamentalmente às empresas de bens transacionáveis que produzem para o mercado interno para substituir importações, e não apenas para as exportações, como o governo PSD/CDS pretende fazer, de que é prova a forma como tencionava utilizar os fundos comunitários no período 2015-2020 (Portugal 2020).

Eugénio Rosa, Economista, edr2@netcabo.pt , 12-9-2015

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