É da natureza da besta
A propósito da “descoberta”, nos Estados Unidos, que alguns veículos da VW apresentavam índices de emissões de poluentes superiores aos indicados nas fichas técnicas.
Pode ser verdade. Parece que é verdade. Mas pode ser uma verdade que só se tornou pública porque só agora interessou a alguém que assim fosse. Pode ser pura luta entre marcas. Entre investidores. Entre fabricantes de motores, com a intenção de reduzir a cota de mercado dos diesel… Uma luta de gangues… O que a revelação não tem, de certeza, é nada a ver com as boas intenções apregoadas de defender o ambiente, a saúde do género humano, limitar o efeito de estufa (e logo nos EUA!).
Não tenho nenhuma simpatia pelos dirigentes da VW, ou de qualquer outra marca de automóveis, acredito que sejam gente capaz de tudo, mas custa-me a crer que os aparelhos de medir as emissões dos centros de inspecção e de verificação de conformidade da nação tecnologicamente mais avançada do planeta nunca tivessem detetado nenhuma discrepância com normas que as suas autoridades impuseram! Malditos aparelhos! Que inspectores distraídos! E querem chegar a Marte? É claro que os americanos se têm enganado muitas vezes, no Iraque, no Afeganistão, na Síria, na Ucrânia, mas a medir escapes de automóveis? E não haverá um concorrente em dificuldades, um administrador despeitado, um golpe de espionagem industrial por detrás?
À falta de explicação técnica convincente, trata-se de luta entre concorrentes. Capitalismo puro e duro. Lembra-me a luta que dois conhecidos restaurantes de Lisboa travaram, há uns anos, para os lados da Avenida de Berna, em que um, de forma subreptícia, acusou o outro de vender gatos por coelhos à caçador, com chumbos e tudo. Felizmente estão os dois de boa saúde, os restaurantes, claro.
Mas a dita descoberta levanta as saias ao que está por debaixo delas: a feia nudez do capitalismo. Nunca foi muito bonito, mas nesta fase, envelhecido e debochado ainda se tornou mais repelente.
Houve um capitalismo apresentado como virtuoso, o de Max Weber, em “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” (1905). Referia o autor: “instinto do lucro, sede de ganho, de dinheiro, do maior ganho monetário possível, não têm absolutamente nada a ver com o capitalismo. Esta aspiração encontra-se e encontrou-se em criados, médicos, cocheiros, artistas, prostitutas, funcionários corruptos, soldados, salteadores, cruzados, jogadores, mendigos, em todos os tipos e condições de pessoas, desde que para isso houvesse ou haja possibilidades objectivas…Uma sede de ganho ilimitada de modo nenhum é idêntica a capitalismo, e ainda menos ao seu espírito. O capitalismo pode mesmo ser identificado… com um refrear racional deste impulso irracional”. Só por o protestantismo – o luteranismo, no caso – não ter santos na sua panóplia de crentes não existe o Santo Max Weber, ao lado de Francisco de Assis dos católicos romanos, por exemplo.
Pois: “O espírito do capitalismo deve ser entendido como uma ética de vida, uma orientação na qual o indivíduo vê a dedicação ao trabalho e a busca metódica da riqueza como um dever moral.” Ámen.
Uns anos mais tarde, em 1970, Milton Friedman publicaria no The New York Times Magazine o artigo «The Social Responsibility of Business is to Increase Profits», onde manda a ética protestante de Weber às urtigas, ao escrever que a atividade empresarial está condenada ao egoísmo ético, afirmando que a única responsabilidade social dos negócios é aumentar o lucro da empresa. É por esta cartilha que se devem reger os altos quadros da VW. Só tiveram o azar de ser apanhados, dentro do conceito igualmente capitalista e judicial de que não é criminoso quem comete um crime, mas quem é apanhado.
Milton Friedman receberia o prémio Nobel da economia em 1976. Em plena época de glória das ideias de Fredrich Hayek, o patrono dos neoliberais, professor da London School of Economics. Hayek, que recebeu o prémio de ciências económicas em memória de Nobel em 1974, defendeu o livre mercado como um sistema no qual os indivíduos são livres para tentar satisfazer seus objetivos à luz de seus próprios recursos e conhecimentos, sem nenhum plano imposto pela autoridade estatal. Para Hayek, esse sistema (se assim se pode chamar) possui uma lógica própria que gera uma ordem espontânea e constituída de dentro pelo próprio entrechoque anárquico das partes. Os gases dos VW fazem foram envolvidos no entrechoque anárquico das partes. Está visto.
O pensamento económico e filosófico de Hayek seguia a moralidade (ou a falta dela) da “Fábula das Abelhas” de Bernard de Mandeville (1714). Segundo ele, a base da moralidade de uma sociedade de mercado deve ser o “egoísmo ético”, ou seja, basta que cada indivíduo aja de forma egoísta para que o bem de todos seja atingido. Um exemplo: se um guloso comer todos os doces do jantar de Natal da família está contribuir para o bem de todos, que se livram de comer açucares, ovos e produtos maus para a saúde. Está a contribuir para o bem de todos! Uma colmeia de abelhas virtuosas, sem ganância nem outros vícios, onde reina a solidariedade e a cooperação, está fadada à ruína e extinção. No caso da tal família, todos morreriam mais cedo, sem dentes, com o fígado e o coração arruinados. São os vícios privados que acabam por gerar os benefícios públicos. A coerência não é o forte dos neoliberais. Já a explicação do êxito de casinos clandestinos e de casas de prostituição disfarçadas de centros de massagem e relax é mais fácil. O patrão ganha sempre.
Os gestores alemães da VW, como se vê, limitaram-se a ler a cartilha de Hayek (que era austríaco e falava a sua língua), apenas afastando ainda mais a ética e o egoísmo. Com tanto gás poluente que anda por aí, não seriam uns VW a mais a aquecer o planeta, terão pensado. Na realidade, eles estavam a apenas a enriquecer um pouco o combustível que faz mover o capitalismo: a ganância. Estavam a confirmar uma citação de T. J.Dunning, em «Trades-Unions and Strikes», Londres, 1860, feita por Karl Marx no primeiro volume de «O Capital»: «O capital não recusa nenhum lucro, mesmo que muito pequeno (…) Com um lucro adequado, o capital é muito ousado. A garantia de 10% assegurara a sua aplicação em toda a parte; 20% garantidos provocarão uma avidez impaciente; 50%, uma audácia positivamente temerária; 100% deixam-no pronto a calcar com os pés todas as leis humanas; 300%, e não há crime de que tenha escrúpulos, nem risco que não corra, mesmo o de o seu proprietário acabar na forca. Se o tumulto e a desordem forem lucrativos, encorajará livremente um e outra. O contrabando e o tráfico de escravos provam amplamente tudo o que aqui se diz.» Os gestores da VW estavam na banda dos 100%. O que assegurou uma muito confortável indeminização ao seu CEO.
O que Friedrich Hayek confirmou: “Os indivíduos gananciosos, ambiciosos e ávidos pelo lucro, se fizerem uso do mercado para ganhar dinheiro e tiverem sucesso, então estarão simplesmente respondendo melhor aos desejos dos consumidores, mesmo que isso seja uma consequência indireta e não planeada das suas ações.» É evidente que os consumidores não querem VW menos poluentes, querem VW fiáveis e com valor no mercado.
Ainda do pensamento de Hayek hoje dominante: “Quando um comerciante decide vender os seus produtos, não pensa no bem-estar das pessoas que lhe vão comprar os seus produtos, mas sim que vai ganhar dinheiro.” Foi o que aconteceu com o papel comercial do BES, por exemplo.
Para os neoliberais a intervenção do Estado e do governo é sempre um mal, porque o liberalismo é o melhor sistema que aproveita o egoísmo das pessoas. Citando Hayek: “é o egoísmo que ajuda a mover o mundo.” O empreendedor que comprou os direitos de fabrico de um medicamento contra a malária e lhe aumentou o preço de forma brutal é a prova disso.
Por fim, para ajudar a defesa dos administradores da VW, mais uma citação do seu patrono: “O que eu considero relativamente absurdo é quando dizem que o governo é necessário para conter ou amenizar a ganância ou o egoísmo das pessoas.” É evidente que quem deve dizer isso é o papa Francisco, ou o Dalai Lama do Tibete.


Atrevo-me a pensar que o famigerado Hayek gostaria de poder eliminar os tribunais e mandar ensinar a juventude pela cartilha dos “Alcapones”. Algum êxito parece ter tido?CLV