Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
(conclusão)
Mas o que acontece na Grécia tem também outras implicações
Stefano Fassina, o anterior vice -ministro das finanças do governo italiano de Matteo Renzi, membro do Parlamento e um dos proeminentes membros do partido Democrática italiano presentemente no poder, escreveu um texto publicado no blogue de Yanis Varoufakis [60]: “Alexis Tsipras, Syriza e o povo grego têm o mérito histórico incontestável de ter tirado fora o véu de retórica europeísta e objectividade técnica, que procura encobrir toda a dinâmica na zona euro”. E acrescentam: “Nós precisamos de admitir que na gaiola neoliberal do euro, a esquerda perde a sua função histórica e está morta enquanto força empenhada na dignidade e na importância política do trabalho e da cidadania social como um veículo eficaz da democracia.” Conclui: “Para uma desintegração controlada da moeda única nós devemos construir uma larga aliança constituída por largas frentes de libertação nacional”. Estas são palavras fortes.
Mas, esta perspectiva é, no presente, completamente justificada. A zona euro revelou certamente ser uma máquina de guerra ao serviço de uma ideologia, o neoliberalismo, e de interesses opacos, os da finança, e de uma oligarquia sem fronteiras. A perspectiva oferecida por Stefano Fassina é a única que até agora nos está disponível, significando, constituindo uma “aliança de frentes de libertação nacionais ” dos países da zona euro para obrigar o tirano a vergar, dobrar e desmantelar a zona euro. Deve ser entendido então que a recuperação da soberania poderia ser definida como uma prioridade máxima. Sem soberania não há nenhuma mudança possível. É por esta razão que a luta pela soberania deve incluir alianças largas com forças não apenas à esquerda mas igualmente da direita democrática.
A responsabilidade alemã
Muito frequentemente aponta-se para a responsabilidade da Alemanha. De facto, a Alemanha insiste em amarrar e reduzir este acordo a uma condicionalidade restrita, quando as circunstâncias impostas aos planos precedentes da ajuda têm conduzido desde 2010 a uma queda de 25% no PIB e a uma explosão no desemprego. Similarmente, a Alemanha quer impor em Atenas uma reforma importante do sistema de pensões, quando estas mesmas pensões estão ainda a desempenhar o papel de amortecedor na crise, e isto num país onde as transferências entre gerações estão a substituir os subsídios de desemprego, que se tornaram muito escassos. Isto conduzirá a empobrecer um pouco mais a população e a aprofundar a recessão. Finalmente, a Alemanha quer impor amplas privatizações. É claro que as últimas permitiriam às empresas alemãs, que estão longe de se comportarem como um coro de crianças quando se trata de Grécia (o ramo grego de Siemens está no centro de um escândalo enorme do impostos), a continuarem com o seu cabaz de compras a querer comprar empresas a preços de saldo. Pode-se ver que a incompetência vai de mãos dadas com a mais cínica corrupção.
A responsabilidade de Alemanha é evidente. De facto, a única esperança – se a Grécia permanecer na zona euro – seria a de anular uma grande parte, entre 33% e 50%, da dívida grega. Mas o governo alemão não quer ouvir nada sobre este assunto actualmente, no mesmo momento em que se está a tornar conhecido que arrecadou grandes lucros com a crise grega, como é reconhecido por um instituto alemão especializado [61]. Contudo, há aqui algo como uma obstinação assassina do governo alemão para com o povo grego, obstinação esta que está a ir para além das “regras ” de uma gestão muito conservadora, ou de interesses especiais. De facto, o governo alemão quer punir o povo grego por ter colocado no poder um partido da esquerda radical. Nisto, há uma vontade claramente política a funcionar, e não económica. Mas o governo alemão quer igualmente dar um exemplo para fora da Grécia, enquanto centra a sua atenção sobre a Itália e a França, como o sublinhou o ministro das finanças Yanis Varoufakis [62], a fim de mostrar que são eles quem manda na União Europeia. Actualmente isto foi já previsto por Jörg Bibow num seu texto de 2013 onde descreve as contradições entre a França e a Alemanha sobre o problema do futuro do Euro [63].
Mas pode-se considerar que um tal movimento é certamente mais alarmante. Deve ser considerado que mesmo Romano Prodi, um anterior Primeiro-ministro italiano e antigo Comissário europeu está actualmente muito preocupado pela viragem da política alemã [64]. Mas a Alemanha está a actuar desta forma porque não tem nenhuma outra escolha. Para actuar diferentemente poderia ser equivalente a aceitar o que Romano Prodi está a propor implicitamente, em especial uma organização federal da zona euro. Contudo, isto não é possível para a Alemanha. Se não se quer que a zona euro seja a camisa de forças que tem estado a ser, aliando a depressão económica às regras austeritárias, seria necessário certamente que os países do norte da zona euro transferissem entre 280 e 320 mil milhões de euros por ano, durante pelo menos dez anos, para os países da Europa do Sul.
A Alemanha teria que contribuir provavelmente com esta soma até à quantia de pelo menos 80%. Isto significa que teria que transferir anualmente 8% a 12% do seu PIB, segundo as hipóteses e as estimativas consideradas (65]. Deve-se dizer claramente que tal transferência não é possível. Todos aqueles que entraram num grande lamento sobre o federalismo [66] na zona euro com soluços na sua voz ou com poses marciais não fizeram a soma, ou não sabem somar muito bem.
Pode-se, e pode-se mesmo criticar a atitude alemã para com a Grécia porque esta atinge mesmo o nível de uma vingança política contra o governo legal e legitimamente eleito [67]. Mas para exigir de um país que este transfira voluntariamente uma tal proporção (a cifra mais elevada, a de 12%, foi computorizada pelo economista chefe de Natixis [68]) da riqueza que produz anualmente não é nada realista. Pela terceira vez num século, a Alemanha está a destruir realmente a Europa mas desta vez não é pelo seu projecto mas pela sua incapacidade em exercer de uma forma sensível a sua hegemonia.
É possível que todo o projecto da UEM tenha sido político desde o princípio. A possibilidade de que era mesmo uma cobertura para uma agenda federalista escondida nunca foi notada [69]. Mas, este projecto transformou-se em algo que passou a ser temido pela população de vários países da zona euro. Com efeito nós estamos ainda a décadas de distância de um futuro federalista, e podemos mesmo nunca o alcançar quando se está numa situação económica terrível [70]. A viragem para uma governação não-Democrática, pelo menos, é igualmente notória. Por não ter compreendido o que condenou a experiência de Syriza, mesmo se parece que o terá compreendido no final de Junho, Varoufakis terá chegado a esta conclusão ou pelo menos terá aceite que isto poderia transformar-se no resultado das suas acções. É chegada a hora de desmantelar a UEM e, se possível, fazê-lo numa forma cooperativa. Neste ponto, a ideia de moedas paralelas ou de um sistema bancário paralelo podiam ser ferramentas transitórias úteis para um desmantelamento geral da zona euro, mas certamente isto não seria uma situação estável.
As moedas paralelas poderiam igualmente desempenhar um papel no contexto de uma situação de pós euro, onde o próprio Euro poderia ressuscitar como uma moeda paralela para o comércio com os países não pertencentes à zona euro. Mas esta é uma outra história, uma história bem diferente.
[60] See Fassina S., « For an alliance of national liberation fronts », article published on the blog of Yanis Varoufakis by Stefano Fassina, Member of Parliament (PD), on 27 July 2015, http://yanisvaroufakis.eu/2015/07/27/for-an-alliance-of-national-liberation-fronts-by-stefano-fassina-mp/
[61] « Greek Debt Disaster: Even If Greece Defaults, German Taxpayers Will Come Out Forward, Says German Assume Tank » in Observer,http://www.observerchronicle.com/politics/greek-debt-crisis-even-if-Greece-defauts-German-taxpayers-will-come-out-ahead-says-german-think-tank/58504/
[62] http://www.omfif.org/media/1122791/omfif-telephone-conversation-between-yanis-varoufakis-norman-lamont-and-david-marsh-16-july-2015.pdf
[63] Bibow J., « On the Franco-German Contradiction and the Ultimate Euro Battleground », Working Paper n°762, the Levy Economics Institute of Bard College, Annandale-on-Hudson, April 2013.
[64] Prodi R., « L’Europa fermi l’inaccettabile blitz tedesco », Il Mesaggero, 8 août 2015,http://www.ilmessaggero.it/PRIMOPIANO/ESTERI/europa_fermi_inaccettabile_blitz_tedesco/notizie/1507018.shtml
[65] Sapir J., “Le coût du fédéralisme dans la zone Euro”, note posted on Russeurope on November 10th, 2012 URL: http://russeurope.hypotheses.org/453
[66] Aglietta M., Zone Euro : éclatement ou fédération, Michalon, Paris, 2012
[67] As done by Nicole Gohlke and Janine Wissler, two Bundestag MP belonging to Die Linke in Jacobin, https://www.jacobinmag.com/2015/07/germany-greece-austerity-grexit/
[68] Artus, P., « La solidarité avec les autres pays de la zone euro est-elle incompatible avec la
stratégie fondamentale de l’Allemagne :rester compétitive au niveau mondial ? La réponse est oui », Natixis Flash-Economie, n°508, July 17th, 2012.
[69] Sapir J., Faut-il sortir de l’euro ?, Le Seuil, Paris, 2012
[70] O’Rourke K.H., « Wither the Euro ? », Finance & Development March 2014, pp. 14-17.
Ver o original em: http://russeurope.hypotheses.org/4289
plano B de Varoufakis e o debate sobre o Euro – por JACQUES SAPIR II

