Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Uma análise social diária da crise grega

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota Revisão de Flávio Nunes

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Uma análise social diária da crise grega

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Sábado, 24 de Janeiro de 2015

 

2. Caderno de notas de um etnólogo – Poesia eleitoral

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Momentos raros de uma poesia efémera. A própria etimologia da palavra “poesia” significa “criação”, e esta criação por uma vez para os da escala social e de rendimentos “ de baixo”  não é senão a concretização  de uma realização em curso  e neste caso à frente dos nossos  olhos, como da  chuva ateniense. Pequenos gestos, sorrisos, discussões, da mesma maneira que o silêncio alguns, converge para dar forma ao resultado de amanhã.

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Numa permanência eleitoral, SYRIZA. Atenas, 24 de Janeiro

 

Nas permanências eleitorais SYRIZA o ambiente é já tranquilizante. Toda e qualquer discussão doravante acaba sempre por evocar a probabilidade da vitória SYRIZA, certamente adquirida, mas para lá disso, é sobretudo a questão da maioria no Parlamento. Vai ser necessário esperar o fim do efémero popular, dito de outra maneira-dizer, do domingo à noite. E fora das permanências eleitorais, as discussões prosseguem-se nos cafés. Facto novo, os No.Syriza praticamente não se exprimem mais. É o caso de um homem idoso; seguia as nossas discussões de cabeça baixa. Eleições por conseguinte na Grécia e em 2015. Sem nenhuma animosidade. Tal é também a grande dimensão da fortíssima desfeita que sofrem os extremistas de Samarás. Querer assim jogar com o espectro do medo e da Guerra civil e de tantas atrocidades do passado, tudo isto tem um preço. Sobretudo quando os atrocidades do economismo financeiro e do tempo presente nunca mais parecem acabar . 2015, não é 1949 (fim da Guerra civil).. As referências abertamente afirmadas pelo campo Samaras tratando-se de alguns… ideais da Grécia dos Coronéis finalmente têm acelerado a derrota da Nova democracia. Através deste argumentário da direita, as últimas munições e, de resto, as mais fortuitas foram desperdiçadas, e é já o fim. Lemos por acaso algumas (quase) críticas abusivas denunciando a negligência do código em termos de vestuário e… então subalterno dos Syrizistas, como pudemos seguir com desgosto o caminho tomado por certa imprensa dita… de referência, entre jogos de palavras e outros trocadilhos duvidosos, sobre a ortografia dos nomes e dos prenomes de certos candidatos propostos pelo partido de Alexis Tsípras.

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O café e a chuva . Atenas, 24 de Janeiro

 

A Nova Democracia carrega já com o luto da sua derrota e os seus candidatos ter-se-ão assim mobilizado muito pouco … os recursos de papel habituais, trabalho sem dúvida inglório, o que era particularmente previsível. Vimos pouco muito destes folhetos postos nas portas. Nas caixas do correio ou nos para-brisas dos carros molhados, que mais ninguém quererá ler em todo caso. No partido de Samarás, preparam-se sobretudo com palavras com muito pouca sequência ou, por outras lavras, depois de ejectadas. Nem tudo será (ainda) perdido pelo campo da Troika, sobretudo se SYRIZA não obtiver a maioria ao Parlamento. Numa padaria ateniense esta manhã, todos se diziam certamente prontos para penalizar Samaras – Venizélos, todavia “a nova” escolha de alguns poderiam incidir sobre o partido dito Rio (To Potami). Houve até uma situação em que a discussão foi bem animada. “Ei Maria, não vais votar por este lacaio do sistema Theodorakis; para mudança, , há apenas a escolha de SYRIZA”. Stávros Theodorákis, líder do partido dito “ Rio”, cuja fotografia aparece hoje no “ Le Monde”, não passa de um jornalista especulador e bom-vivant, beneficiando do melhor apoio dos magnatas da imprensa e dos meios de comunicação social e isto desde há muito tempo. O que Maria, ela mesma infelizmente cansada por um outro estilo de vida de há já mais de trinta anos, não compreende… à semelhança dos leitores do Mundo, deixados do seu lado na ignorância, sabe bem das circunstâncias exactas em que nasceu este partido , em águas (politicamente) bem salobras.

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Raro desdobrável de um candidato Nova Democracia . Atenas, Janeiro 2015

 

As oligarquias de Atenas, e primeiramente os mestres-loucos que desde Berlim, por exemplo, têm tudo feito desde o tempo da nossa nova era da Troika, para controlar e assim enviesar os resultados eleitorais canalizando o mais possível o descontentamento popular. Houve primeiramente (2011-2012) o pequeno partido o LAOS extrema direita incorporado no governo e apoiado pela Direita da Nova Democracia e “pela esquerda socialista”, do PASOK sob o direcção do Primeiro-ministro e banqueiro Papadémos, instalado neste posto por Berlim e por Paris na época (Merkel et Sarkozy). Seguidamente, é o partido dito “da Esquerda democrática” de Kouvélis, que tomou o lugar do defunto LAOS na coligação do memorando, na sequência das eleições de 2012. Como por azar,… os Kouvelistas já tinham deixado SYRIZA em 2010, algumas semanas apenas após a chegada da Troika na Grécia. É este mesmo papel que é ( quase abertamente) afirmado pela marionete Stávros Theodorákis, porque o seu partido foi directamente moldado, algures entre Berlim, Bruxelas e os salões atenienses. Nem mais, nem menos. E. por fim, para informar os leitores de greekcrisis, diria que todos os esforços da Nova Democracia (e da Troika), pressões da última hora, entre esta noite e o dia de amanhã (25 de Janeiro), visariam mais reforçar o melhor possível o partido Rio para assim impedir SYRIZA de ir até à vitória total, que de fazer ganhar alguns votos agora impossíveis ao partido de Samarás.

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Atenas, no momento, 25 de Janeiro de 2015

 

Paciência por conseguinte ainda durante algumas horas mais . Samaras vive agora o seu crepúsculo político. Este sábado à noite, um amigo testemunho ocular dos factos, informou-me que na sede eleitoral da Nova Democracia e à sua volta na praça da Constituição, não havia ninguém, contrariamente à sede de campanha de SYRIZA situada perto da Academia. Tudo então converge para assim dar forma ao resultado de amanhã. Momento do voto, belo e efémero. Poesia eleitoral. Venceremos.

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Atenas, Janeiro 2015

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