Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Uma análise social diária da crise grega – Gregos, enfim, independentes?

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão Fávio Nunes

 

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia
Uma análise social diária da crise grega

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Terça-feira dia 27 Janeiro de 2015 5.

 

5. Caderno de notas – Gregos, enfim, independentes?

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O ambiente ateniense já está muito menos tenso, aliviado mesmo. O vizinho Chrístos, enfim sorridente, tem olhos apenas para o sol que reapareceu, no entanto, sob a chuva. “O véu sombrio desaparece, vemo-nos já diferentemente, Samarás e a sua banda de vigaristas e de traidores já não estão no poder, uma má sorte, uma maldição, de que somos de imediato libertos. A nossa dignidade retomada”. O mesmo ambiente nos transportes, na rua e nos cafés se constata. O medo evapora-se, e o desconhecido flutuar é o que agora nos preenche.

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Em frente da sede de Syriza, depois da vitória, no dia 25 de Janeiro

 

Chrístos que já não tem trabalho, tal como a sua esposa, continuará a abastecer-se junto da mercearia solidária posta a funcionar pela municipalidade e ele praticará com tanto fervor e sucesso a pesca à linha, dado que a sua mãe habita numa localidade do litoral próximo. A realidade grega nada perdeu nas suas sangrias sociais e democráticas desde o 25 de Janeiro; contudo a simbologia já mudou de registo. O tempo dos resultados eleitorais está já atrás de nós. O novo governo está quase a ser formado, de facto, o novo paradigma grego passa a ter a nacionalidade obrigatoriamente já europeia. Porque a catástrofe conscientemente organizada da sociedade grega por certa ordem dos negócios e do mundo é, salvaguarda a devida proporção, também a que se conhece doutras sociedades, e isto mesmo no Sul da União Europeia, ou mesmo com a Alemanha incluída.

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Na noite das eleições. Radio 105,5. No dia 25 Janeiro

 

Estranho magnetismo, para não dizer oportunismo no ser, depois no parecer. Anónimos como epónimos descobrem-se e despertam-se então abruptamente do lado esquerdo do travesseiro existencial, “ a ouvi-los desde segunda-feira de manhã, eles teriam acreditado ver SYRIZA com mais de 90% dos sufrágios expressos. Deveríamos inventar um (…) gauchomètre nos tempos que correm (…)”, ironiza ao micro da rádio 105,5 na terça-feira 27 de Janeiro, Stamátis Kraounákis, compositor, cantor e artista muito conhecido na Grécia. Dever-se-ia mesmo utilizar este “gauchomètre” quanto a um certo mundo jornalístico, a exemplo de uma parte das redacções parisienses, que descobrem a mesma coisa abruptamente e, entre outras coisas , as virtudes de uma auditoria da dívida grega: “No imediato, SYRIZA pode lançar uma auditoria da dívida grega”. De resto está previsto num regulamento adoptado pela União europeia em maio de 2013: “Um Estado-Membro que é ” objeto de um programa de ajustamento macroeconómico realiza uma auditoria completa das suas finanças públicas a fim de , nomeadamente, avaliar as razões que provocaram a acumulação de níveis de dívida excessivos bem como de detectar toda e qualquer eventual irregularidade.”” Mas o governo de Antonis Samaras, o conservador no poder até Domingo, bem se tinha protegido para não o fazer .” Trata-se mesmo de uma passagem obrigatória, consideram vários economistas, entre os quais o belga Éric Toussaint. Depois de ter acompanhado o Equador na auditoria da sua dívida em 2007 e 2008, este membro do conselho científico de Attac na Bélgica foi conselheiro de SYRIZA estes últimos meses nestas matérias. “Uma auditoria mostrará que os bancos privados europeus aumentaram muito fortemente os seus créditos concedidos à Grécia entre o final de 2005 e 2009, sem estarem a ter em conta a capacidade real da Grécia em reembolsar”, escrevia ele na semana passada , numa tribuna publicada sobre Lemonde.fr. De acordo com um estudo de Attac publicado em Junho de 2013, 77% dos fundos desbloqueados nos últimos “planos de resgate ” da Grécia foram realmente desviados para o sector financeir como reembolso da dívida”, jornal “Liberation,” de 27 de Janeiro.

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O dogma da pobreza. Uma parede de Atenas, Janeiro 2015

 

Estes jornalistas, desde há muito tempo conquistados pelo neoliberalismo desenfreado, ignoram aparentemente os factos. Éric Toussaint membro do conselho científico de Attac na Bélgica estava já em Maio de 2011 presente em Atenas, aquando de uma reunião pública quase iniciadora de um Comité de auditoria internacional da dívida grega, reunião na qual eu próprio participei, como na maior parte dos acontecimentos da nossa desastrosa crise no terreno ; o que os leitores de greekcrsis já sabem. Então naquela época, numerosos quadros, membros e universitários SYRIZA (e não somente estes) lá estavam presentes, e a missão deste Comité tinha sido entravada por todos os governos “gregos” desde então. Por conseguinte, esta feliz e frutuosa implicação nas actividades para esclarecer as razões da dívida grega quanto a Éric Toussaint não data de ontem de manhã.

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Éric Toussaint, Atenas, Maio de 2011.

 

Observo também estas análises histéricas (no principal sentido que se dá na Grécia a esta palavra , “em falta de alguma coisa ”) desta mesma imprensa mainstream: “SYRIZA: a escolha de Anel como parceiro é a que envia o pior sinal aos mercados, de acordo com economistas. O partido anti-austeridade, SYRIZA, que ganhou com uma larga maioria ontem aquando das eleições legislativas, vai-se aliar aos Gregos independentes, opostos também à política ditada pela Troika” (“Les Echos” de 26 de Janeiro). Ou ainda, “Panos Kamménos, o incómodo de Alexis Tsipras. A aliança entre a esquerda radical do SYRIZA e a direita populista dos Gregos independentes (ANEL) faz ranger os dentes, na Europa assim como na Grécia. Numa lógica pragmática, Alexis Tsipras escolheu combinar-se com Panos Kamménos, um homem político que combateu vigorosamente as medidas de austeridade e “a Troika” (Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia, Banco Central Europeu)” “A aproximação entre os dois homens começou em Maio de 2012, após as eleições legislativas que não tinham permitido alcançar a maioria . O presidente do Syriza já tinha então indicado que estava pronto para aceitar o apoio ou o voto de tolerância de ANEL. Um deputado de Syriza, Dimitris Papadimoulis, tinha criticado com vivacidade esta intervenção: “O passado e as opiniões de Kammenos colocam-no à direita de Nova Democracia, tornando impossível uma colaboração pós- eleitoral. “” “Dois anos e meio volvidos, esta colaboração parece possível, ainda que o debate permaneça vivo no Syriza entre os partidários do realismo, que consideram que a prioridade é a questão económica, e os que julgam esta aliança contranatura”, nota “Le Monde” datado de 26 de Janeiro.

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Yórgos Katroúgalos, eurodeputado e ministro de SYRIZA, universitário constitucionalista de renome. Radio 105,5 no dia 26 Janeiro.

 

Sejamos sintéticos. A fractura política na Europa europeísta já não é mais forçosamente, entre a esquerda e a direita. Nem sempre e em todo o caso o “ANEL” é resolutamente um partido antimemorando que se reclama de um patriotismo que a esquerda grega partilha muito largamente em comum. Exatamente sobre este ponto preciso, outros partidos da esquerda na Europa não puderam ou desejaram estabelecer a ligação. Daí, certamente, uma explicação (a completar), quanto ao sucesso da Frente Nacional em França. Panos Kamménos, já ministro da Defesa, é o muito cómodo aliado de Alexis Tsípras, que os ideólogos analistas do Le Monde não querem admitir. A junção com o povo da direita é feita assim. Pela mesma ocasião, os militares e os polícias (onde as teses dos neonazis de Aurora Dourada encontram como se sabe um certo eco), serão tranquilizados. A última coisa, para as normas europeistas, Panos Kamménos, seria então bastante pró-russo!!! Por conseguinte a geopolítica a seguir. Por outro lado, esta junção já se tinha realizado. Como prova, e os leitores de greekcrisis sabem-no, em 2011, pessoalmente tinha participado com os meus amigos intelectuais, artistas e escritores em Atenas de acordo com uma ideia do escritor e poeta Fondas Laáis (compagnon de route de Míkis Theodorakis nos anos 1960), num movimento de cidadania resolutamente de esquerda e sobretudo anti memorando. Desde o início e sem hesitação, aceitamos com certa agitação, os que tinham feito a escolha do anti memorando de direita e do movimento de Panos Kamménos, precisamente com base num patriotismo largamente partilhado, para além das diferenças existentes. O nosso único e insuperável limite: nunca aceitar entre nós, os racistas assim como os neonazis da Aurora Dourada, quaisquer que sejam as suas posições no que diz respeito ao memorando.

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Atenas, o mercado no dia 26 Janeiro

 

Por conseguinte travaremos esta batalha finalmente europeia (dos povos da Europa), reforçados por um consenso nacional, tão largo quanto possível, o que entristece certamente a Nova Democracia de Samarás. O dominó europeu está em curso, assim como a nossa nova era. Esperemo-lo, em todo o caso. Alexis Tsípras visitou o chefe da Igreja grega para o informar da sua vontade de quebrar com a tradição e com a hipocrisia. Fez um juramento político estrito, aceitando ao mesmo tempo a bênção do chefe da Igreja em privado, já que Alexis Tsípras se declara ateu. Mais importante ainda, a primeira deslocação de Alexis Tsípras como Primeiro ministro. Rendeu homenagem aos 200 patriotas e comunistas fuzilados em Maio de 1944 pelas forças da Ocupação alemã em Kaisarianí, perto de Atenas. A mensagem é bem clara e isso tanto mais quanto diz respeito à Alemanha.

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Um “dia normal” na via ateniense. Dia 26 de Janeiro.

 

A vida retoma o seu curso normal em Atenas sem os apocalipses anunciados pelos vídeos de propaganda eleitoral da Nova Democracia. O governo está no seu posto (terça-feira 27 de Janeiro). O mais difícil está por fazer e a esperança domina. O ambiente ateniense já é mais calmo, comovente mesmo. Raros momentos na Europa e como o tempo húmido e frio está de regresso, nas nossas casas e nomeadamente na de Chrístos, o aquecimento está desligado desde 2011. Calor no coração! Gregos, enfim, independentes?

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