Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Revisão Flávio Nunes
Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – uma análise social diária da crise grega
Sexta-30 de Janeiro de 2015
6. Caderno de notas de um etnólogo – Bonecas gregas
Era necessário esperar. A barreira anatómica da sociedade grega estava a partir de então aberta pelas políticas do colonialismo pela dívida e a ser assim até atingir a sua ruptura tecidular e o deplorável impossível deu-se então. Eis pois como a Chancelaria foi apanhada desprevenida, sobretudo quanto à nova coligação governamental entre SYRIZA e ANEL, e não “como previsto”, entre o partido de Tsípras e o partido-instrumento, dito do “ Rio”. Uma maneira de eternizar o memorandum e também o controlo de Berlim sobre os negócios gregos. Falhado.
Nova geopolítica
Este descontentamento é manifesto também em Bruxelas e mesmo em Paris, para além das cortesias de fachada. Certa imprensa francesa não esconde de resto as suas apreensões: “O novo governo grego de Aléxis Tsípras, que, ainda mal tinha acabado de ser nomeado e já tinha recebido o embaixador russo, não esconde a sua oposição um endurecimento das sanções e afirma, pela voz do novo responsável da diplomacia grega, Níkos Kotziás, querer “prevenir uma fractura” entre a UE e a Rússia. “A nova posição do governo grego não vai facilitar o debate (…), ” e é por isso que não sei onde vamos chegar, terá comentado o seu homólogo alemão, Frank-Walter Steinmeier “Berlim avisou também Atenas contra qualquer tentação de trocar o seu Não-veto sobre novas sanções à Rússia contra concessões sobre outros processos como a dívida. Mas outros países tal como a Áustria, a República Checa e a Eslováquia, cujos chefes de governo estiveram reunidos na quinta-feira, em Viena, exprimiram num comunicado comum “o seu cepticismo” sobre a aplicação de novas sanções. “A prioridade deve ser a da criação de um diálogo sustentado, afirmou o chanceler austríaco, Werner Faymann” (“Liberation, 30 de Janeiro).
O novo rosto da Grécia
Visões da geopolítica a circular na Internet, Janeiro 2015
Esta reviravolta, ou antes, este reajustamento da política grega era previsível. Desde a Rússia, havia sinais a acenderem-se já. O novo responsável da diplomacia grega, Níkos Kotziás, acaba de ser convidado oficialmente pelo seu homólogo russo para uma visita a Moscovo, e de acordo com a Reuters (29 de Janeiro): “O ministro russo das Finanças, Anton Silouanov, declarou na quinta-feira que a Rússia encararia atribuir uma ajuda financeira à Grécia se esta lhe fizesse um tal pedido. “Podemos imaginar que se um pedido for apresentado ao governo russo, estudá-lo-emos com muita atenção, levando em conta o conjunto dos factores das nossas relações bilaterais”, disse ele à cadeia CNBC”. “Hoje, a Grécia é um país europeu que, como cada país da União, deve ter o direito de expressar a sua opinião e de evocar os seus interesses sobre todos os assuntos, incluindo a politica a praticar para com a Rússia . Não aceitaremos por conseguinte que a política russa da Europa seja decidida fora das instituições da União europeia. Mas será que existe mesmo uma política europeia relativamente à Rússia, por parte da União europeia? Não estou certo disso. Da mesma forma que não existe política russa por parte da Alemanha, que, desde Guillaume II até hoje passando por Bismarck e Hitler, é um país que esteve quer em guerra, quer na situação de forte desconfiança com a Rússia. O que não queremos é que a UE fundamente a sua política sobre o interesse de países que têm uma relação histórica emocional para com a Rússia. Mas também não fecharemos os olhos sobre a desestabilização que se joga nas fronteiras da Rússia e da Ucrânia. A UE deve por conseguinte pensar numa estratégia nova”, considerou o chefe da diplomacia grega Nikos Kotziás numa entrevista concedida ao jornal L’Humanité.
Eduardo Galeano. O espírito do fogo. Atenas, Janeiro de 2015
Sobre uma superfície ateniense do momento, descobre-se em paralelo este estímulo a conhecer a obra do escritor e jornalista uruguaio Eduardo Hughes Galeano: “Problemáticas contemporâneas. O espírito do fogo”. Manifestamente, o espírito do fogo na geopolítica do novo governo grego, incluindo o que tem a ver com as relações para com os Estados Unidos. Desde Washington, também há sinais a acenderem-se. Barack Obama, que conversou por telefone com o novo Primeiro-ministro grego Alexis Tsípras, felicitou-o da sua vitória nas legislativas da antevéspera e prometeu-lhe que iria cooperar na retoma da economia grega. “O presidente disse que os Estados Unidos, como amigos e aliados antigos, tinham pressa em cooperar estreitamente com o novo governo grego para ajudar a Grécia a reencontrar o caminho da prosperidade a longo prazo”, diz a Casa Branca num comunicado. Os leitores assíduos deste blog recordar-se-ão talvez da viagem aos Estados Unidos de Alexis Tsípras, em Janeiro de 2013, convidado por um centro de reflexão, think-tank, bastante próximo das teses do Presidente dos Estados Unidos, acontecimento este que passou quase despercebido, na França em todo caso. “Esta primeira viagem de Tsípras a Washington, foi uma ocasião para encontrar certos representantes do governo, membros do Congresso, analistas políticos, grupos americanos de origem grega bem como o público (…) como o disse um Americano com quem Tsipras conversou em privado, “ estamos de acordo entre cerca de 40% a 60% sobre o que disse. Digamos, 50-50. Tsípras (…) sempre defendeu que as medidas de austeridade que a Europa quis impor à Grécia não trarão o crescimento. Numerosos são aqueles que em Washington se dizem de acordo sobre esta posição. Se a Europa tivesse tido um plano de retoma à maneira de Barack Obama e uma política monetária como a de Bernanke, a Grécia não se teria tornado o calcanhar de Aquiles da Europa. Em vez disso, a falta de apoio orçamental e monetário conduziu à recessão económica, ao desemprego, ao medo e ao desespero dos Gregos”, notavam já na época, William J. Antholis e Domenico Lombardi num artigo extremamente esclarecedor , publicado sobre o sítio do Brookings Institution.
Visões da vitória de SYRIZA. Imprensa grega, Janeiro de 2015.
De acordo com o que ouço à minha volta, esta mudança, em todo o caso, nas orientações da política estrangeira da Grécia é largamente plebiscitada pela doca comum. Melhor ainda, as medidas meta-memorandum já anunciadas e mesmo por vezes já adoptadas, são muito populares. “Respiramos, nós não nos sentimos estrangulados como dantes, pomo-nos a sonhar, a fazer projetos, a voltar a tocar e a ouvir mesmo as nossas canções sob um outro tom. Estamos já em vias de voltar a viver um pouco”, dizia-me recentemente o meu primo Costas. Nestes últimos dias, o nosso novo governo anunciou a sua vontade de parar com o processo de privatização do porto do Pireu, da companhia nacional de electricidade (DEI) bem como dos aeroportos. É então o conjunto do programa de privatizações à Troikana que é parado. O Estado acaba de recuperar 30% das acções do aeroporto de Atenas que os governos do memorando tinham oferecido ao TAIPED, o dito “ Fundo da valorização dos bens públicos na Grécia”. Muito provavelmente, o TAIPED não existirá dentro de algumas semanas. O que implicitamente parece lamentar a reportagem do Le Monde contrariamente ao meu outro vizinho Yórgos. “Nunca tinha votado à esquerda. Toda a minha família estava colocada do lado da Nova Democracia. Mas quando Samaras se pôs a liquidar os bens do país, as nossas empresas, as nossas praias vendidas mesmo aos estrangeiros, sob ordem da Troika, tudo isto me revoltou. Uma praia perto da minha aldeia no Peloponeso estava na lista do TAIPED. Esta representa toda a nossa infância, a nossa pátria concreta, as nossas lembranças. Por conseguinte toda a família, para não dizer toda a aldeia votou SYRIZA”.
A nova Grécia. “Quotidien des Rédacteurs”, Janeiro de 2015
O titulo principal no diário “Avgí” de 28 Janeiro
O grande título do jornal Diário de SYRIZA “Avgí” de 28 de Janeiro é eloquente e bastante simbólico: “Novo governo: Pessoas não gastas e a dignidade nacional”. O tom está pois anunciado. Da mesma maneira que uma certa ligação com o movimento dos Indignados. É exactamente a análise sugerida aquando de um encontro entre universitários e jornalistas, organizado em Atenas num bar famoso dos tempos tanto de outrora como de agora, a 28 de Janeiro. Na ordem de trabalho, uma primeira análise dos resultados eleitorais. De facto, o avanço de SYRIZA alcançado já antes de Verão, adquirido desde Maio de 2014 e também depois, nunca a Nova democracia teve qualquer êxito em inverter esta relação de forças agora alcançada. Um eleitor sobre quatro decidiu-se então a uma semana das eleições, e esta decisão final contribuiu largamente para a vitória do partido de Alexis Tsípras. Sobretudo notou-se uma progressão espectacular do voto SYRIZA nos campos e entre as pessoas idosas (um terço), o que não foi o caso em 2012. O historiador Antonis Liakos sublinhou isto: “A Esquerda governa mas não é dona da situação. Deve adoptar uma atitude voluntariosa e não defensiva para assim conseguir levar a sociedade sobre uma nova órbita. A esquerda deve intervir no debate político central na Europa, para iniciar um programa global quanto às reformas. Os neoliberais produziram as sociedades para um terço da população e a crise. A Esquerda tem necessidade de inventar outras formas na política”.
Num café-bar a analisar os resultados eleitorais. Atenas, 28 Janeiro
Observei então este público do bar e a nossa tão bonita época, lembrando-me por exemplo que o historiador Antonis Liakos, expressando que tempo de ontem face ao de amanhã, tinha estado muito próximo do Primeiro-ministro do PASOK de molho Goldman Sachs, Simítis! Transmutações feitas por cima e também pela parte de baixo da sociedade. Sobre o terreno prático dos restantes assalariados, a mudança é já perceptível. Numa empresa de Atenas quase de extrema-direita, os patrões fizeram circular um documento personalizado a cada um dos assalariados, recordam-lhes, o quanto custam então as cargas do trabalho. Trabalho inútil. Com a forma moral dada pelo anúncio do governo em aumentar ( na verdade, em restabelecer) o salário mínimo a 751 euros, certos assalariados desta empresa (muito lucrativa apesar de/ou graças à crise), por fim, ousaram reclamar aumentos de salário. A resposta far-se-á certamente esperar, não obstante, a boa questão ter sido, enfim, posta, o que parecia extremamente impensável durante o governo do lúgubre Samaras. Num bairro de Atenas, uma loja fechada na sequência aos assassinatos económicos da austeridade, e uma outra muito perto do local onde estava sediado a Nova Democracia, fechada igualmente, são testemunhos da última imagem política e económica da Grécia. Era tempo para além da tragédia.
Loja fechada e sede do partido da Nova Democracia . Atenas, Janeiro 2015
Momentos inéditos numa Europa edificante. Salvo que, exceptuando certas situações, as novas seriam quase todas elas bem cómicas. Todo um mar (enorme) de gente da Esquerda a sentir-se pouco à vontade na sua tarefa de cidadão que apoia doravante o governo em exercício. Do nunca visto. Durante tantas décadas de existência na oposição, e aí está como numa segunda-feira, dia 26 de Janeiro, todos estes nascidos contestatários deverão então apoiar ( de perto ou de longe) o governo de Alexis Tsípras. Este governo SYRIZA, qualificado “de acidente que não acontecerá ”, de acordo com uma frase muitas vezes repetida por Antonis Samaras durante a campanha eleitoral e que permanecerá, creio eu, nos anais da vida política grega É de resto bastante curioso seguir os jornalistas (e às vezes amigos), a trabalharem para os meios de comunicação social do governo, o diário Avgí ou a rádio 105,5 por exemplo. Salvo que os momentos são bem graves. A primeira ruptura, de resto bastante lógica, acaba de ser constatada oficialmente (sexta-feira 30 de Janeiro), entre o presidente Merkelocromo do Eurogrupo Jeroen Dijsselbloem, e Yanis Varoufákis, ministro das Finanças. A Grécia rejeita oficialmente a Troika, recusa o seu programa “de ajuda” que expira a 28 de Fevereiro, e não deseja “receber” a referida próxima parte da ajuda, uma parcela de cerca de 7 mil milhões de euros, porque de acordo com Varoufákis, “este programa está baseado num plano nefasto e que somente as instituições formais da UE serão doravante reconhecidas como interlocutores do governo grego” (cito de memória). Assim, não reconhecemos nem o Memorando nem a Troika.
A ruptura entre Yanis Varoufákis e Jeroen Dijsselbloem. Atenas, 30 Janeiro de 2015
Jeroen Dijsselbloem do seu lado posicionou-se duramente “ contra qualquer tentação de medida unilateral”. Como se a guerra da dívida, e pela dívida, como pela instalação dos governos marionetes não tivesse sido uma decisão unilateral por parte do financierismo mundializante e das elites políticas e económicas da Alemanha e dos países seguidistas da hibris, da ganância. Duas versões morais do baixo mundo dos humanos então se afrontam. Entraríamos, por fim, na história (…) nada que seja pelo nosso voto. É muito raro, tanto quanto as nossas democracias ocidentais se tornaram elas próprias nestas simulações constantes, organizadas pelas oligarcas mundanos e mundiais, através “da engenharia social”. Yanis Varoufákis, que se exprimia aquando da conferência de imprensa comum com o representante do europeísmo imperial de Angela Merkel, expressou claramente que os eleitores gregos tinham mandatado o novo governo na base seguinte: “Esta plataforma eleitoral fez-nos ganhar a confiança do povo grego. A nossa primeira iniciativa governamental não será a de rejeitar a lógica de pôr em causa o programa pedindo a sua extensão”, afirmou.
Atenas, Janeiro de 2015
Esta Europa não tem mais nenhum sentido. As máscaras caem. Todo e qualquer compromisso a fazer, far-se-á a partir de agora com base no respeito da dignidade e da sobrevivência das pessoas e das nações. É somente assim e não diferentemente que certos móveis poderão talvez ainda ser salvos. Do lado alemão adivinham-se os próximos gestos prováveis. Fazer sair a Grécia da zona euro (os tratados não o prevêem de momento), para “salvar” a Espanha, ou mais exatamente para se salvarem de uma muito provável vitória de “Podemos” dentro de alguns meses. François Hollande convida urgentemente Alexis Tsípras a Paris, na minha opinião para fazer prevalecer a sua política (alemã) numa outra embalagem, enquanto as duas primeiras deslocações oficiais ao estrangeiro já anunciadas de Alexis Tsípras terão como destinos, Nicósia e Roma. A Grécia, os Estados Unidos, a Rússia e o núcleo então desmedidamente duro da referida União europeia. As embaixadas em questão (sobretudo dos países centrais do império europeísta) deveriam traduzir urgentemente duas obras bastante recentes, escritas pelo nosso ministro dos Negócios estrangeiros Nikos Kotziás: “Grécia – Colónia da dívida, Império europeu e predominância alemão” e “Patriotismo e Esquerda”. Excertos: “O patriotismo não deve ser abandonado aos nacionalistas conservadores. Toda a política estrangeira deve ser exercida de acordo com os interesses nacionais, dito de outra maneira, em considerar a primazia dos direitos sociais e democráticos dos povos”. Na Grécia, começamos a sentir, de novo o direito a sorrir.” Última coisa; não esquecem Tucídides: “Aqui começa a guerra dos Atenienses e dos do Peloponeso, ajudados respetivamente pelos seus aliados. Durante as hostilidades, as relações entre eles processaram-se através do arauto e a luta uma vez desencadeada nunca mais parou. Os acontecimentos são contados por ordem cronológica, por verões e por invernos”. Então, primavera dos povos?
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