BISCATES – Os querubins da PAF – por Carlos de Matos Gomes

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Os especialistas de acção psicológica da PAF selecionaram duas ideias fortes para esta fase da sua campanha de manipulação da opinião pública:

– António Costa é um golpista – ascendeu ao poder através de um golpe para derrubar o bonzinho do Seguro.

– António Costa é um sôfrego pelo poder – quer o poder a todo o custo e por isso se aliou a comunistas e bloquistas.

Neste tempo de raiva, em que tomaram consciência de que o seu tempo chegou ao fim, há que atirar porcaria para o ventilador. Nuno Melo pelo CDS e Paulo Rangel PSD foram destacados para esse papel, à frente de um elenco de opinadores que parece saído de um casting da Casa dos Segredos feito no vespeiro do Observador.

Nas suas pregações, a luta política deixou de ser uma disputa entre propostas para ganhar a adesão consciente de uma maioria de cidadãos que legitime o exercício do poder, para se apresentar como uma salmodia de meninos de Deus que prometem a salvação do mundo a troco de orações, castidade e abstinência e muita tradição. Apresentam-se como querubins, ou virgens ofendidas a tocarem trombetas contra os anjos do mal. Fazem da substituição de um governo uma paródia do Apocalipse. É o seu apocalipse, claro. A sua descida aos infernos. Uma arrelia.

Os partidos políticos são organizações com uma dinâmica interna que lhe advêm das vontades e das motivações dos indivíduos que neles militam. Uma das características destas organizações é assentarem numa liderança e não numa chefia, ou num comando. Para Melo, Rangel e outros seguidores, o Partido Socialista devia ser uma organização paramilitar, com Seguro como comandante-chefe e com mandato irrevogável, já agora!

Nos partidos políticos, ao contrário das organizações fechadas, a competição pela liderança é tão natural que está prevista e regulada nos estatutos. Melo, Rangel e amigas como Fátima Bonifácio, ou João Avilez querem convencer os seus clientes que as eleições internas para secretário-geral do PS foram um golpe. A velha técnica de apontar um argueiro no olho alheio para esconder as suas verdadeiras golpadas, a de Relvas e Marco António Costa para Passos Coelho substituir Ferreira Leite e a de Portas para derrubar Manuel Monteiro.

Mas Rangel, Melo e comparsas de púlpitos opinativos também dão um triste espetáculo de si próprios. «A ambição está na base de todas as conquistas», escreviam os pensadores gregos. É a compulsão por lutar por alguma coisa que valha a pena. Se a ambição de Costa é pecaminosa, o que os moverá na política? É por caridade, ou divertimento que eles, Passos Coelho, Paulo Portas, Marco António Costa, Relvas e tantos outros fazem política? Todos seguiram o exemplo de Cavaco Silva e chegaram à política numa viagem para rodar o automóvel?

Se Rangel e Melo tivessem lido Maquiavel não fariam as tristes figuras de exporem a ignorância de conceitos elementares que marcaram o momento em que a política entrou na modernidade, em que passou a ser pensada através dos factos, da verdade efectiva das coisas e se libertou das análises religiosas ou morais da idade média. Reconheceriam que a decisão de António Costa de lutar pela liderança do seu partido foi apenas o ato, a Virtù, “de um homem disposto a agir no sentido de fundar um governo.” Um homem que recebeu da Fortuna (da circunstância) não mais do que a ocasião para conquistar o poder. O poder, ao contrário do que afirmam não é de origem divina. Não há ungidos do senhor com direito a governar e proscritos que se devem limitar a existir e a quem, quando muito, é reconhecido o direito de vociferar.

De Sá Carneiro a Paulo Portas, os partidos de Rangel e de Melo têm exemplos para todos os gostos de estratégias de conquista e manutenção do poder. De dirigentes que, como escreveu Maquiavel, “enfrentaram grandes dificuldades, e superaram perigos. Homens que, depois de vencerem esses perigos, passaram a ser venerados…”

Rangel, Melo e os seus auxiliares de manipulação pregam uma realidade contrária à natureza das coisas. A ambição do poder nasce da própria natureza humana. Rangel e Melo mistificam a realidade, fazem-se passar por virtuosos quando apenas estão a tentar manter um domínio. Convinha que soubessem que, para o conseguirem, “devem merecer, se não o amor, pelo menos o respeito dos governados”. As figuras tristes são com eles e com a sua trupe de apedrejadores públicos. O insulto de considerarem que não merecemos mais do que umas aldrabices inconsistentes, feitas à pressa e gritadas alto para parecerem coisa séria é com todos nós. Falo por mim, que não gosto de quem me atira pedras à cabeça embrulhadas em falsas moralidades. Repugnam-me as imagens das execuções dos talibans e dos jiadistas.

Espero que venha aí leite e mel? Não, não espero, espero apenas que venha um tempo de decência, de normalidade, de bom senso, de reconstrução depois da devastação…tempos difíceis, claro, como os que vivem aqueles que sofreram os efeitos de uma tempestade e têm de recomeçar a vida…

7 Comments

  1. Gente de baixa extração Moral que,tanta tinta faz correr e tanto dinheiro “gasta”,e enchem a boca com a palavra Povo. Tenham vergonha,vão trabalhar,para isso lhes pagamos,e não é pouco.

  2. Tiro certeiro no alvo.Penso contudo que a Portugal à Fome não estará interessada em governar, depois das trafulhices que apresentou nas contas.Tudo isto é Bluff.
    G.N.

  3. De facto há Serafins a quem a idade não perdoa. O ódio é tanto que ficam cegos.Perante as evidências em vez de tornem alka seltzer vomitam incongruências. Costa é um golpista, e Costa só faz o que faz porque está a salvar o seu futuro,político. O resto é conversa de Serafins.

  4. JV está desactualizado. A cassete da “salvação do futuro político” já está ultrapassadíssima. Foi das primeiras patetices congeminadas pela central de propaganda da “coligação” (quiçá uns marquetingueiros quaisquer, do tipo dos contratados para transformar o Passos em múmia paralítica durante a campanha eleitoral) e repetidos até à exaustão pelos vários títeres que vão dando cara e voz às ditas, não se importando de fazer figura de estúpidos perante qualquer cidadão que pense e de ignorantes (aí, estão a desempenhar o seu próprio papel).
    Agora, o que está a dar é “a ambição cega pelo poder”, citada por CMG e por ele mais do que suficientemente desmascarada.
    Pelo meio, houve (entre outras) a patetice de que “o Presidente da AR sempre foi do partido mais votado” (desmentida pelo jornal “Público” – houve dois: um do CDS e outro do PSD, quando o PS era o partido com mais deputados -), proposto por esse partido (o mesmo jornal lembra seis ocasiões em que surgiram várias propostas). Ao mesmo tempo, apareceu a “tradição” de que “quem ganha as eleições governa”, sendo que a nossa Constituição não menciona tal “obrigatoriedade” (nem pouco mais ou menos). Pelo que é óbvio que os “coligacionistas” consideram que cerca de meia dúzia de países europeus, alguns da UE, são ditaduras (comunistas?!), pois têm governos de coligação de diversos partidos, nem por isso coincidentes nos seus programas, e primeiros-ministros que não são do partido mais votado (num deles, o PM até é do terceiro partido, em número de votos). Aqui, é de citar um jovem deputado do PSD (creio que apresentado como jurista!), que manifestou a maior perplexidade, num canal televisivo, quando foi informado de que as eleições legislativas não servem para eleger um primeiro-ministro, mas o Parlamento, perante o qual os Governos são responsáveis, pois emanam dele: “Está-me a dar uma novidade! Nunca tal tinha ouvido!”, exclamou, mais ou menos (cito de cor) a criatura, até num mal ensaiado tom chocarreiro, agitando contentinha a extraordinária dimensão da sua ignorância sobre a nossa Lei Fundamental, ao abrigo da qual fora eleita, pelos vistos não sabendo bem para quê…
    E por aí fora… É só ler os periódicos, ou ouvir o que é dito em televisões e rádios, para perceber qual a “mensagem básica” que os papagaios reproduzem. JV fala de nebulosos males da idade. O deputado referido é jovem. Será a idade (a sua juventude inexperiente e incônscia) que não perdoa, ou a inteligência, quando exista, que é obliterada pelo susto da perda de tachos de quem, ao que parece, tem amigos com nomes acabados em “im”?
    E quem foi dos primeiros a usar a dica do ódio, a propósito do terror provocado por lhe tirarem o pote? Nem mais nem menos que um tal Nuno Melo, em “artigo” acolhido pelo “DN”. Aliás, os “media” têm-se mostrado particularmente acolhedores destes vendedores de banha da cobra, multiplicando as suas colaborações e opiniões, apesar de a pétrea imutabilidade do patuá as tornar assaz chatas. Obcecados pelo ódio parecem estar os sujeitos que vão repetindo as tais patacoadas, tão apoplécticos que nem sabem inventar uma só frasezinha que seja sua e não fabricada pelo marquetingueiro de serviço, mais parecendo daqueles vendedores de dietas miraculosas e afins, a quem impigem uns “cursos” de lavagem ao cérebro que os faz acreditar que são todos muito felizes e acabam ricos, repetindo religiosamente o palavreado que lhes enfiaram na cuca.
    Quanto às “evidências”, uma das evidências (puramente factuais!) das eleições de 4 de Outubro é que 50% dos cidadãos que votaram não querem que os “coligados” que lhes esvaziaram os bolsos durante quatro anos prossigam a roubalheira, acompanhada por sucessivas mentiras, promessas não cumpridas e outras aleivosias. E explicito a “factualidade” porque não aprecio particularmente o conceito comum de “evidência” que, as mais das vezes, traduz um convencimento, um mero lugar-comum, algo que nunca foi questionado, porque o “evidencioso” não tem ferramentas intelectuais que lhe incutam e facilitem essa necessidade de interrogar o que lhe é servido pelas mais diversas vias. Um bom exemplo é o célebre “arco da governação”, uma imbecilidade anti-democrática transformada em “evidência”, acriticamente usada também por muitos jornalistas “prestigiados”, que o malandro do António Costa – precisamente! – desmistificou perante um auditório mui vasto (dela já eu e outros vimos falando há muitos anos, a audiência é que era restrita), incomodando todos os bem-instalados na confortável pasmaceira que um monturo de etéreas “evidências” proporciona.

  5. Meu caro Matos Gomes , para além da honra que tenho em dizer que fui tal como tu , aluno do nosso CNA,foi uma honra e uma enorme alegria ter visto a esquerda no Governo deste país….. Foi para mim já com os meus 70 anos,outro 25 de Abril…..Um abraço companheiro.

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