A PROPÓSITO DE FRANCISCO ASSIS, A PROPÓSITO DE ANGELA MERKEL, (NÃO É A NOVA MADRE TERESA DE CALCUTÁ), A PROPÓSITO DE ALGUNS TEXTOS DE REFLEXÃO QUE IREMOS PUBLICAR – por JÚLIO MARQUES MOTA – I

júlio marques mota

Tentámos mostrar qual é a encruzilhada terrível em que se situa Portugal, por decisão do ocupante de Belém a partir dos artigos de Jean-Jacques Sapir, de Ambrose Evans-Pritchard, onde neles se fala da morte da Democracia em Portugal, a partir dos artigos de Philippe Legrain, onde é anedótica a candura com que este fala dos imigrantes, agora por Merkel impostos como refugiados, e de Varoufakis onde neste se fala das tempestades que Schäuble pode estar a gerar, a que acrescentámos depois, em jeito de síntese, as declarações de Macron, um homem até há muito pouco tempo colado a Schäuble. Servir a Troika e continuar a destruir este país, esta é pois o objectivo que está por detrás da decisão tomada pelo ocupante de Belém ao procurar fazer o que os mercados financeiros pretendem que ele faça, ignorar a Democracia, fazendo a opção que acalma Bruxelas e que melhor serve a Alemanha. Deste ocupante não seria de esperar outra coisa mas, porém, não se esperava um discurso que nos faz lembrar obrigatoriamente os tempos negros do fascismo. Mas de fascismos ainda não nos esgotámos. Se politicamente continuarmos a bloquear tudo o que se contrapõe às pretensões da imperial Alemanha ainda corremos o risco de um próximo ocupante de Belém ser o homem que outrora escreveu a Marcelo Caetano o seguinte texto:

“Senhor Presidente do Conselho,

Excelência

Venho agradecer a Vossa Excelência a amabilidade que teve para comigo ao enviar-me, por intermédio da Senhora D. Jenny, alguns livros de Vossa autoria e por Vossa Excelência rubricados.

Eu, como simples aluno do primeiro ano liceal, acho que é demasiado valiosa para mim a oferta de Vossa Excelência, pois o dever do aluno e filiado [sic] da M.P. é tentar melhorar-se e educar-se a si próprio por sucessivas victórias da vontade.

E para certificar a afirmação feita bastam os versos de Fernando Pessoa:

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.

E Senhor Presidente, para terminar esta pequena e modesta carta, desejo a Vossa Excelência muitos anos de vida, para bem da Nação Portuguesa e de todos nós.

Com o mais profundo respeito e a mais sentida gratidão, subscreve-se o vosso humilde servo,

XXXXXX ( adivinhem quem terá escrito este texto?

Lisboa, 7 de Abril de 1960”

[Fonte: Torre do Tombo – Arquivo Salazar]

Portugal está pois apertado pela Troika interna, Passos Coelho, Paulo Portas, Cavaco Silva, Portugal está pois apertado pela Troika externa, BCE, Comissão Europeia, FMI, Portugal eventualmente suspenso da capacidade da Coligação à esquerda conseguir impor a sua investidura no poder, o que face às poderosas forças de direita coligadas, externas e internas, tem agora que enfrentar os candidatos a Troika interna do futuro, encabeçados por um homem inteligente, muito mesmo, muito ambicioso, muito mesmo, tão ambicioso quanto inteligente igualmente, Francisco Assis.

Num momento destes, em que o governo que tomou posse se mostra ser um insulto ao povo português, e se dúvidas há, vejam-se, por exemplo, as declarações “divinas” do actual ministro da Administração Interna, João Calvão da Silva, ilustre catedrático da Universidade de Coimbra que o povo de Albufeira envergonha e de que a Universidade deveria igualmente sentir-se envergonhada, neste mesmo momento, eis que se pretende obstruir a que essa maioria que votou contra as políticas de austeridade se torne realidade, procurando-se entretanto criar uma divisão no interior do PS e enfraquecer brutalmente o seu Secretário-Geral. Fazê-lo significa, quer se queira quer não, que a actual coligação pode continuar a reinar e neste caso significa que pode continuar a destruir o país. Simplesmente, uma coisa é certa: mesmo que a coligação à esquerda seja má, hipótese de Francisco Assis mas não a minha, uma má ordem que esta institucionalizaria seria sempre melhor que a continuação da desordem económica e social promovida pela actual coligação. Vem nos manuais, é assim, uma má ordem é sempre melhor que a ausência de qualquer ordem, a menos que essa desordem, que corresponde à ordem pretendida pela Troika, seja a vocação de Francisco Assis, a de a assumir mais tarde como primeiro ministro, como um verdadeiro Quisling. Forçada, esta hipótese? Não creio. Se aceitarmos que a Alemanha está a conseguir pela força da arma da dívida e da austeridade o poder sobre a Europa que Hitler não conseguiu e   que Joseph Goebbels num artigo publicado na  revista “DAS Reich”, em 25 de Fevereiro de 1945 previu que seria alcançado no ano 2000  (uma diferença de 15 anos!) não é então forçado considerar que esta manobra de Assis se insere numa prática à Quisling.  Deixem-me não ser educado ao menos uma vez face a demagogias deste teor,  eu que passei muita fome na minha adolescência,  fome que hoje sinto em muitas caras com que me cruzo na rua, a lembrar até uma amiga minha que encontrei à saída do supermercado muito contente, porque o salmão estava em promoção e levava duas postas para os seus filhos. E para si, perguntei incrédulo? Ah, eu não gosto, foi a resposta que ouvi. Necessidades, pensei, mas calei. Necessidades que sinto em gente que não tem sequer dinheiro para comprar o Nasomet, o Vibrocil, o Aérius, os antibióticos para curar uma simples gripe. A este senhor que pelos vistos só vive da política, sugiro-lhe que compre um bilhete numa viagem de metro ou de autocarro em Lisboa, à hora em que as pessoas entram ou saem dos seus empregos e que tenha os ouvidos bem atentos para os lamentos quase silenciosos do povo. Perceberia, se tivesse ouvidos para eles, o drama surdo que vai na alma de cada um dos portugueses que não pertença à classe média alta e perceberia também que todos nós temos direito à esperança, à esperança que poderia nascer com esta coligação à esquerda. E com tudo isto, depois de tudo isto, não nos venha dizer que um programa mesmo que mínimo de estimulo á economia e que é o máximo que a coligação de esquerda poderá fazer  não seja “ nada de novo e [nem] verdadeiramente relevante pode trazer ao país”. Diga isso aos jovens deste país, diga isto a gerações de licenciados e com mestrados, que já têm mais de dez anos de trabalho precário, onde se ganha a tempo parcial (5 horas/dia) menos do que o subsídio de desemprego, diga isso aos desempregados em fim de linha, diga isso aos reformados que alimentam filhos e netos, diga isso aos desempregados de longa duração que só encontrarão, quando encontrarem, trabalhos precários, onde um após outro emprego os seus salários nominais, vão descendo, descendo… diga isso nas fábricas, nos hospitais, nas escolas, nas ruas… ou até nas prisões mesmo. Faça um outro exercício bem diferente, vá a uma prisão sobrelotada, fale com os guardas prisionais, inteire-se das suas condições de vida e de trabalho e, sobretudo, procure saber as razões pelas quais os prisioneiros lá estão e descobrirá, se o não sabe ainda, o senhor que é um político, que com as políticas de austeridade em Portugal, semelhantes em muito às aplicadas pelos seus amigos Macron e Renzi, que se está a fazer da sociedade portuguesa uma pequena selva, onde as pessoas reagem, e cada vez mais, não pela lógica, não pelo respeito para com os outros, reagem cada vez mais na base dos seus instintos primários. E digam-me então que é ser mal-educado apontá-lo como um potencial Quisling português!

O contrário, o que Assis e os seus colegas críticos de António Costa defendem, como dizem os gregos seria, quanto à mudança desejada, que “é já um bocado cedo e está  sobretudo com muito atraso” ou seja, o que pretendem Assis e os seus amigos, afinal, é que deixemos as coisas como elas agora estão, porque não se mudaram desde há muito tempo como deveria ser feito, porque não se podem agora mudar também, porque as circunstâncias não estão maduras para tal.

Mas as coisas mudam, mudam muito, sobretudo ao nível das tensões sociais que são a fogueira onde estes senhores irão arder. Não será por acaso que o próprio Der Spiegel já vem com a seguinte ilustração:

Angela Merkel - der spiegel

A Europa está em pânico, esta Europa que tem a senhora Merkel como chanceler, tem agora necessidade de a transformar em santa através duma das revistas de maior prestígio internacional, der Spiegel e vir-nos falar em impedir uma guerra nos Balcãs!

Ora os nossos Assis, candidatos à formação de uma ala crítica no PS a António Costa ou eventualmente candidatos à formação de um outro partido nas verdadeiras tradições do PS, bem poderiam assumir enquanto grupo, para nos mantermos em paralelo com a tragédia grega, o nome Potami de Portugal, homónimo do Potami da Grécia, partido este criado a partir de Bruxelas para servir a Troika. Com um discurso bem calibrado, bem polido, podemos perceber que se trata de verdadeiros Leopardos, em que é preciso que alguma coisa mude para que tudo possa ficar na mesma, quando Assis afirma[1]:

 “ Sou frontal e absolutamente contra a ideia de constituição de um qualquer Governo assente numa hipotética maioria de esquerda” (…)

“se o PS fizer um acordo com BE e PCP “renuncia à sua dimensão de partido transformador e reformista”. Os partidos de esquerda com que António Costa tem negociado (“a extrema-esquerda”, como lhe chama Assis) são defensores, segundo o eurodeputado, de “soluções” que terão como “inevitável consequência a albanização” de Portugal.”

“Insistirão os mais fanáticos defensores de uma frente de esquerda que há vantagens em ignorar todas as divergências [entre PS, BE e PCP], em nome da possibilidade do afastamento da direita do poder” (…)

“um acordo de ocasião nada de novo e verdadeiramente relevante pode trazer ao país”

(continua)

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[1] Declarações publicadas pelo jornal Expresso.

1 Comment

  1. Detesto Marcelo, irritam-me as suas pantominices e, não “moro” no seu espaço político-partidário. Porém, parece-me completamente descabido divulgar com intuitos políticos uma carta escrita por um puto de 9-10 anos, ainda por cima filho de uma figura proeminente do regime anterior e, ao que julgo saber afilhado de Marcelo Caetano….

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