Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Caderno de notas de um etnólogo na Grécia, uma análise social diária da crise grega
15. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – O céu dos trabalhadores
Os Gregos olham atentamente para os seus jornais, como olham também e para o céu improvável. Voltam a ganhar o gosto pela política… e, finalmente, o desgosto por ela, por esta última geopolítica da dita Europa. O país negocia, o seu calendário político volta a ser, salvo pequenas diferenças, o dos encontros de tipo… europeu. O suspense atinge então o paroxismo … de Eurogrupo em Eurogrupo. “ Isto não é vida ”, dizem-se a este propósitos dois homens, em frente dos jornais diários que lêem com atenção e que o quiosque dali expõe num escaparate.

Quiosque. Atenas, Março 2015
O nosso governo do tempo de agora anuncia nesta terça-feira (10 de Março) que… a conta das reformas estará, enfim correta, tratando-se do Eurogrupo da véspera. Algumas medidas mais, mas sob a iniciativa da Grécia segundo nos diz Yanis Varoufákis, explica-se pelo governo, e sobretudo… sobretudo, a aceitação do programa SYRIZA enfim, para fazer face à crise humanitária.
De resto, num primeiro momento, durante a noite de segunda-feira (9 de Março), uma nova notícia tinha sido difundida pelos meios de comunicação social, relatando uma disputa verbal que se teria verificado entre Yanis Varoufákis e Wolfgang Schäuble, na noite do Eurogrupo. O ministro das Finanças alemão e do Eurogrupo unificado… através das vítimas dos genocídios económicos correntes e futuros, teria retorquido na frente (é suposto) do homólogo grego, que as medidas destinadas a lutar contra a crise humanitária são unilaterais porque não quantificadas e que, consequentemente, deveriam ser suspensas (semanário, “To Pontíki).
Yanis Varoufákis então teria replicado que estas medidas estão, bem pelo contrário, no coração do programa de emergência na Grécia, e que não são dispendiosas. Esta notícia foi desmentida seguidamente, não obstante, o semanário “To Pontíki” a manter e, sobretudo, o mesmo Yanis Varoufákis, entrevistado pelas necessidades de um documentário que a primeira cadeia da televisão alemão ARD difundiu, explica que todos os empréstimos atribuídos à Grécia, resultam então do crime contra a humanidade, provocando naturalmente reacções em certos meios de comunicação social e em certos círculos políticos alemães.
Atenas, Março 2015
A muito triste e também muito incómoda verdade, é que Alexis Tsípras ir-se-á encontrar esta semana (de acordo com os meios de comunicação social gregos) com Jean-Claude Junker, precisamente para dialogar com ele … a respeito da política urgentemente humanitária na Grécia. Porque com efeito há fumo e há fogo; de acordo com um comunicado do Centro médico Solidário de Ellinikón (perto de Atenas), a Comissão Europeia acaba de ter um gesto sem precedentes, excluindo a Grécia dos relatórios relativos ao exame do Programa (“Annual Growth Survey” – AGS), permitindo ajustar as políticas contra a pobreza, efectuadas pelos Estados-Membros da União Europeia e a própria Comissão. A razão avançada oficialmente, é que “este relatório sobre a Grécia, será publicado mais tarde, porque será feito na sequência das conclusões então incluídas, do último Eurogrupo, entre 20 e 24 de Fevereiro de 2015”.
Este programa, designadamente este, refere-se à luta contra a pobreza (incluindo a que atinge as crianças) e as conclusões dos relatórios em questão permitem aos Estados-Membros e à Comissão Europeia seguirem em conjunto as suas acções, no que diz respeito à sua aplicação. Torna-se evidente, precisa então o comunicado do Centro médico Solidário de Ellinikón, que “a decisão de excluir a Grécia deste programa é simplesmente cruel, já que o nosso país conhece a mais grave crise humanitária desde a Segunda Guerra mundial”.
“Porquê então certos membros da Comissão Europeia estarem então a querer castigar a Grécia, enquanto o mínimo a fazer neste momento, seria explorar os canais através dos quais a população grega tão brutalmente atingida por cinco anos de austeridade, obterá, enfim, a ajuda humanitária tornada tão necessária?” “Recordamos à Comissão Europeia que mais de 6 milhões dos nossos cidadãos estão praticamente a viver abaixo do limiar de pobreza. Pensará ela enfim ajudar estas pessoas mais do que andar a ajudar os bancos? Esta crise, está agora praticamente a roçar o genocídio. E não pode ser tratada… pela espectativa “das conclusões das negociações no Eurogrupo. É isto, portanto, o sentido da solidariedade por parte dos países da UE, os nossos parceiros?”
Sede de campanha eleitoral SYRIZA para as eleições. Local de novo para alugar . Atenas, Março, 2015
A crise humanitária está sempre aí; antes, como depois das eleições de Janeiro passado. Recentemente, fui a uma das salas do Centro médico Solidário de Ellinikón para entregar três pacotes de medicamentos que amigos do blog Greek Crisis… sem estarem à espera da Comissão Europeia, me tinham entretanto enviado do seu país, a França, num gesto muito bonito e comovente . Tenho a agradecer-lhes uma vez mais, em nome sobretudo dos habitantes da Grécia… sem cobertura Saúde (25% da população), e devido à … política de genocídio económico lento mas certo, situação contra a qual se debate o novo governo grego..
O dispensário estava então a abarrotar de gente … de olhares humanos vazios e mudos, era então um dia de Fevereiro, sob o sol de Ática. Recentemente ainda, em companhia do vizinho Chrístos, tivemos de avançar para perto de um novo … sem-abrigo do bairro que estava estendido sobre o passeio, em frente de uma loja fechada, para verificarmos a sua respiração e o seu estado… letárgico vital. Tínhamos pensado, por momentos, que o pobre talvez tivesse expirado. Do mesmo modo, no bairro, apercebo-me de certos reformados (mulheres e homens), os quais (ainda vestidos… à maneira aparente da nossa civilização), esgaravatam os caixotes de lixo logo que a noite cai, ou se não for nessa altura, fazem-no de manhã, pela princípio da amanhã, muito cedo. Grécia… planeta de Zeus!

Estado de sítio. Imprensa grega de 9 Março.
É então e ainda assim, que a Grécia sofre esta nova forma de estado de sítio, aquando de cada Eurogrupo, situacionismo estabelecido e que já nem mesmo sequer escapa mais à imprensa de matriz neoliberal.
Os Gregos, quanto a eles, esperam então bastante estoicamente, digo eu neste momento, porque pensam que este governo pelo menos negocia, o que nos acontece pela primeira vez, e isso não passa desapercebido. Ainda que, a política SYRIZA/ANEL não esteja (de momento?) à altura dos compromissos e das urgências.
Com efeito, a opinião grega pensa que talvez este estrangulamento… adicional do país, pelos carrascos do campo concentracionário europeísta , assim tão vantajoso para as elites alemãs que Wolfgang Schäuble representa como se sabe, estaria então ligado às ameaças que pesam doravante sobre os muito suculentos contratos… coloniais, dos quais as empresas alemãs são os principais beneficiários e ao mesmo título, famosos corruptores: subornos, escândalos políticos, evasão fiscal, violação das regras em matéria de ambiente, armazenamento ilegal de produtos químicos altamente tóxicos… importados na Grécia desde a Grande Alemanha sob falsos rótulos, e passo….
Assim neste momento, como o sublinha o sítio amigo Okeanews, dez anos depois da descoberta do escândalo, os juízes gregos, finalmente tomaram a decisão de enviar 64 suspeitos para tribunal relativamente a pagamentos de subornos praticados pelo gigante alemão SIEMENS. Entre os 64 suspeitos, 13 são cidadãos alemães, quadros da sociedade mãe. De acordo com a decisão dos juízes, SIEMENS teria pago um valor estimado de 70 milhões de euros para conseguir um contrato e para digitalizar a rede de telecomunicações pública grega da época, OTE. O contrato “Convenção 8002” tinha sido assinado em 1997. Entre os suspeitos, está o antigo homem forte de SIEMENS, Mihális Christoforákos, que infelizmente fugiu para a Alemanha e que as autoridades alemãs se tinham recusado a extraditá-lo para a Grécia, a pedido das autoridades gregas, (na sequência do artigo em Okeanews).
MíkisTheodorákisno exílio : 1947-1948. Espectáculo comemorativo em Atenas, Março 2015
De repente, a Grécia de SYRIZA/ANEL… tem melhor memória que os memorandistas patenteados, desde Papandréou e até Samarás. E para não esquecer o passado, ou o desastroso presente, Manólis Glézos, concedendo uma entrevista ao diário cipriota “Simeriní”, afirma sem rodeios: “O que a Alemanha não conseguiu fazer na época pelas armas, ou seja, criar uma Europa alemã, está a fazê-lo hoje em dia com o seu poder económico e a ajuda dos EUA e os outros vencedores da 2.ª guerra mundial – soviéticos excluídos, naturalmente, nem seria necessário dizê-lo. A guerra fria deu aos EUA e à sua criação, a NATO, a possibilidade de impor a sua vontade na Europa. E o fruto desta vontade, é a Alemanha actual. ”, (ver em Okeanews o artigo completo).
Realmente, estamos em guerra. Uma guerra nova, ponte estreita imposta entre os conflitos do século precedente e os do nosso século e, sobretudo, com o que está em gestação. Contra os países, contra a Democracia e a soberania, contra os direitos e mais, contra os trabalhadores e os outros desempregados… decididamente subalternos. As elites quereriam bem exterminá-los e ao que parece mais rapidamente do que o previsto, e torna-se então evidente para todos os que… (se) conservam em estado de pensar, e consequentemente, de se revoltarem .
O despedimento de Eleni. Supermercado AB, Atenas, 10 Março.
Os exemplos não faltam. Eleni é ao mesmo tempo uma vítima e uma rebelde nesta guerra, guerra de geometria muito variável. Facto muito raro, nas prateleiras do supermercado AB, pertencendo essencialmente à casa belga Delhaize, os folhetos sobre o despedimento de Eleni eram postos na terça-feira de manhã (10 de Março) sobre as prateleiras, dando conta de que Eleni foi como que uma empregada e seguidamente despedida pela direcção, depois de 15 anos de trabalho a meio tempo! Despedida porquê? Porque tinha reclamado a aplicação da legislação sobre a pausa de dez minutos; suprimida pela direcção.
De acordo com o texto informativo, que os clientes liam então num silêncio sepulcral, “a empresa AB, recicla como se diz os seus assalariados com o objectivo de reduzir os seus custos, no que se refere a salários, contribuições e prémios, impondo nos locais de trabalho condições típicas de trabalho forçado , reduzindo os direitos dos assalariados, impondo ritmos insuportáveis, o terror e humilhações. Mais precisamente, os assalariados mais antigos eram os especialmente visados porque têm mais direitos que os trabalhadores mais recentemente admitidos. Os antigos assalariados, por conseguinte, são empurrados para pedirem a demissão com o objectivo de os substituirem. Com efeito, estes são substituídos pelos mais novos, sem direitos (o memorando passou por aqui) e muito mal pagos, já que os seus magros salários são financiados pelos programas ditos de ajuda da UE, enquanto o ANPE financia então as contribuições do empregador. Na realidade, estes empregados oferecem praticamente TRABALHO GRATUITO, e isto muito cinicamente porque tudo isto é feito em nome… da luta contra o desemprego. Além disso, a empresa AB-Delhaize tem o atrevimento de oferecer um reembolso de 10% aos clientes que preferem a partir de agora fazer as suas compras ao Domingo , no momento em que os direitos dos trabalhadores são escarnecidos e os seus salários são consideravelmente reduzidos. Belo mundo então… este, o dos patrões !”
Folhetos à entrada do super-mercado AB. Atenas, 10 de Março.
Eleni, processou a empresa AB , enquanto os sindicatos ou sobretudo os colectivos, anunciam uma quinzena de acções durante este mês de Março de 2015. Outros pequenos folhetos sob os caddys, anunciavam tanto a cor de tempo que fazia: “Horários ditos flexíveis e trabalho não pago. Aqui está o verdadeiro terrorismo” e “o memorando não é pois uma imagem de televisão ”.
Muito precisamente, Wolfgang Schäuble exige do governo grego que este volte atrás sobre as suas intenções políticas, aceitando e engolindo todas as cobras… do memorando assinado pelos governos precedentes (este último,… já riscara as convenções nacionais e colectivas, já destruíra os direitos dos assalariados e imposto o trabalho dominical, designadamente).
Na terça-feira 10 de Março no entanto, o ministro do Trabalho e da Solidariedade social, Panos Skourlétis (SYRIZA), anunciou o regresso próximo das convenções colectivas, bem como a anulação das leis do memorando. Estas últimas, de acordo com o ministro, são mesmo contrárias aos regulamentos europeus, é mesmo para se dizer!
Para Yórgos Katroúgalos, o ministro da Reforma administrativa: “O que muda, é que não sofremos mais”, entrevista atribuída ao jornal “Liberation”.
No país dos numerosos seres adéspotas (animais sem dono), Eleni, não lê o francês, e no entanto, ela olha como pode para os nossos jornais, como olha ainda para o seu céu improvável. Geopolítica da referida a Europa, a dos países… e a dos trabalhadores.
Animais sem dono mas…tratados. Atenas, 10 Março.










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