Os pregoeiros do modelo da democracia representativa – sem mandato imperativo – têm, agora, dificuldade em engolir do seu remédio.
Os herdeiros de Burke sempre afirmaram que, uma vez eleitos, os deputados – representantes do povo – representavam, como muito bem entendiam (embora significando como os seus partidos o entendiam) os eleitores, dos quais a eleição os libertava até à eleição seguinte.
Neste modelo de democracia representativo parlamentar governa quem consegue uma maioria favorável dos deputados – com ou sem submarinos ou queijo limiano. Ser o mais votado, só, não chega, se para a maioria forem precisos outros. Foi este o modelo que escolheram e durante anos incensaram. Agora que o resultado lhes desagrada parece querem ver-se livres do mesmo. Aguentem-se à bronca.
A concorrência de circunstâncias abriu uma oportunidade nova – como as pessoas também as sociedades, a política, são elas e a sua circunstância:
- a direita coligada ser a lista mais votada mas a soma dos votos ser curta e não alcançar a maioria, a precisar dum terceiro para governar;
- o PS vir em segundo, não ser o mais votado e, portanto, não poder tentar o habitual governo minoritário;
- o hooliganismo da governação dos últimos anos e a associada agressividade do “nós” contra “eles” criando, ao menos no tempo presente e próximo, animosidade e ressentimento de clube do PS para com o PaF e vice-versa;
- o sentimento de que a direita apostólica Pedro & Paulo não deixaria pedra sobre pedra;
- os ventos de mudança, dum novo ciclo, que começam a soprar, também pela Europa, e anunciam o início do fim do diktat único PPEniano;
- a compreensão pelo BE e PCP (facilitada pela política e ideologia agressivas dos governos P&P) de que os governos PSD+CDS e um governo PS (malgré tout) não são, necessariamente, farinha do mesmo saco e que, afinal, ter um ou outro não é, inteiramente, indiferente, para as pessoas e o país;
- a mensagem repetida pelos seus apoiantes e eleitores e, enfim, parece, entendida pelo BE e PCP de que a prioridade – a urgência – era impedir a continuação da acção destrutiva do governo da grande direita e devolver condições normais de vida a quem não faz parte da pequena minoria possidente ou clientelar;
- a noção que uma maioria negativa também é uma maioria e “ser contra” pode ser uma força alternativa.
E o mundo da (jurássica) esquerda mexeu.
Surpreendida pela, por uma vez, ousadia vinda da esquerda, a direita, em desespero, aposta nos dois cavalos que lhe sobram: os apelos à dissensão entre o adversário (hurra, descobriram que os deputados deviam votar em consciência e livremente, sem disciplina de voto partidária) e a fé a que, uma última vez, lhes não falte o compadrio do Querido Líder da Grande Loja do Estado Laranja sobre Azul.


Sem atrevimento sou capaz de adivinhar ser eu quem mais apreciou o teu texto de “Viajante”.Desde logo as minhas felicitações. Com efeito o que dá mais nas vistas é o desrespeito e o despeito manifestos que têm sido dados á vitória parlamentar daqueles parlamentares que, doutrina herdado do salazarismo, estavam destinados, tão-somente, a pintalgar de democracia a burla tramada em São Bento. Os quarenta anos dum esquerda sem fazer mossa já não deixavam previstos que alguma vez essa modalidade acabasse mas, a dar-se essa anomalia, deveriam contentar-se em receber felicitações dos seus adversários mas, jamais, sombras de quaisquer nomeações ou promoções. A reviravolta histórica que, quanto a mim, marca o fim da ditadura cunhalista merece ser assinalada. Vai ser necessário reforçar todas as frentes pois não se ganhou a guerra, ganhou-se, modestamente, uma batalha e a presença do Querido Lider Boliqueimado não pode deixar que haja tranquilidade bastante. Só não faz um golpe se não poder, isto é, tiver medo. Como sempre gostava de ver um pronunciamento militar que fosse o bastante para pôr fim às manifestações direitistas que são de índole inteiramente anticonstitucional. Abração do CLV