Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Revisão Flávio Nunes
Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – uma análise social diária da crise grega
Quarta-feira 18 de Março 2015
16. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia- Abril invisível
Em Atenas é o momento da ablução. Os monumentos da história contemporânea são limpos antes da estação turística. Abertura próxima. As nossas belezas do século XIX brilharão então, envolvidas como elas estão, de incertezas tão gritantes. Porque se não, é decididamente uma era de chantagem geopolítica que se abre e de que a opinião grega descobre então todas as dimensões, desde que o governo SYRIZA/ANEL foi formado.

Para Declan Costello, representante da Comissão europeia na Troika, fazer votar a lei humanitária em que se prevê o fornecimento de eletricidade aos lares mais pobres ou a distribuição de cupões de alimentação, é uma ação unilateral e que não seria coerente com os compromissos tomados, nomeadamente no Eurogrupo de 20 de Fevereiro, de acordo com a imprensa grega e estrangeira.
Quarta-feira 18 de Março, Alexis Tsípras apresentou ele mesmo este primeiro projeto de lei evidentemente levado ao Parlamento como sendo o primeiro texto de lei desde o memorando (2010), “ que não é redigido em inglês antes de ser dirigido aos ministros gregos por correio eletrónico. E é assim a primeira lei tão benéfica à sociedade e não destrutiva” declarou ele.


Na Praça da Constituição as pessoas percorrem com o olhar os jornais. Títulos alarmistas, de uma tonalidade muito grave, mas uma vez (mais) justificada. A chantagem europeísta é comentada largamente e imediatamente rejeitada pela população, o que é percetível por toda a parte. De resto, e pela primeira vez desde 2012, um artigo do diário (SYRIZA) “Avgí”, tem como título: “O Grexit é preferível a um terceiro memorando”.
Numa emissão rádio (Real-FM, de 18 de Março), o nosso triste aniversário do falecimento do grande poeta Odysséas Elýtis (em 1996), foi comemorado pela retransmissão de um documento áudio no qual a poeta do mar Égée e Premio Nobel de literatura, recordava como estava cheio de reservas face à pertença formal da Grécia na CEE da época. Momentos marcantes e que nunca mais voltam.



É então talvez o momento escolhido em que a Grécia encarnará o papel da borboleta do caos, e isso , não exclusivamente no Eurogrupo. Durante estes momentos com objetos e objetivos tão bem misturados, os Gregos esperam de olhos abertos, mas sobrecarregados.
Praça da Constituição, uma campanha de sensibilização face ao fenómeno da derrapagem dos automóveis foi acolhido sobretudo com escárnio pelos passeantes e transeuntes do dia. “O país derrapou desde o memorando, depois também derrapará muito em breve e eis pois que esta gente nos mostra automóveis” acrescentou uma mulher. Outros transeuntes aplaudiram mesmo.
Esta mesma semana no centro da cidade, um transeunte solidário ofereceu um par de sapatos a um que era um sem-abrigo. A cena foi mesmo imortalizada por um fotógrafo de passagem, que deu origem seguidamente a uma reportagem numa parte da imprensa sobre a crise humanitária na Grécia.

Ambiente tendência e tensa, de microacontecimento em microacontecimento, daí, aliás, toda a cólera da rua grega quando descobre as declarações austeritárias e já humanamente insultuosas por parte dos responsáveis lobistas, proferidas desde Berlim ou desde Bruxelas. Sem evidentemente estar a esquecer os daqui, estes ultras da hipérbole neoliberal de Atenas, a antiga classe política primeiro, e também os do famoso partido colaboracionista (com a Troika), dito Rio (“Potami” em grego).
E o último gracejo que circula em Atenas a seu propósito, foi reproduzido quarta-feira de manhã (18 de Março) pelos jornalistas da rádio SYRIZA (105,5 Sto Kókkino): “Na língua de Goethe, a embaixada alemã em Atenas diz-se Potamen”!
Mais seriamente, contudo, esta mesma rádio realmente não mediatizou verdadeiramente as últimas declarações do economista e deputado SYRIZA, Costas Lapavítsas, um economista muito próximo da ala esquerda do partido de Alexis Tsípras.





