18. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia- Insólita distopia I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão Flávio Nunes

 

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia- uma análise social diária da crise grega

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Sexta-feira, 3 de Abril de 2015

18. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia- Insólita distopia

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A Primavera, enfim, está a chegar, sem grande esperança aparentemente, a Grécia está sempre pioneira das mesmas amarras. No Pireu, é a calma quase plana. Os raros espaços dedicados à espera de barcos, de ar livre mas abrigados são pelos tempos da estagnação principalmente consagrados aos sem-abrigo, tão solidamente amarrados ao naufrágio social grego. Insularidade e isolacionismo são assim impostos!

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Zéa, perto do Pireu, Março de 2015

O número de viagens das embarcações rápidas e dos outros navios com destino às ilhas próximas, Égine, Póros, Hydra, são reduzidas, à espera sem dúvida deste fim de semana (Páscoa católica) e sobretudo do seguinte (Páscoa ortodoxa). Da morte à ressurreição e também do seu contrário, é conforme se queira.
As discussões fazem-se raras porque aqueles que discutem habitualmente estão já cansados. O país protege-se por detrás do seu silêncio reencontrado, exposto como ele está esta chuva de notícias, cada vez mais contraditórias e mais incertas que nunca, desde praticamente o início do tempo sob a Troika, a exemplo da privatização (completa) do porto do Pireu quatro vezes desmentida e cinco vezes retomada à força, notícia que visivelmente já não preocupa as pessoas.
Perto do Pireu (…) o principal, o porto de Zéa é dedicado aos desportos náuticos. Há, maioritariamente jovens, história de beber um café em frente aos iates uns dos outros, dos ricos, em diagonal e, contudo, na proximidade do quadro invejável da riqueza forçamento flutuante para alguns.

 

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Le port de Zéa, Pireu, Março de 2015

 

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Zéa, perto do Pireu, vestígios de porto antigo, Março de 2015

 

Durante o longínquo período clássico (séculos V e IV antes de Cristo ), o sítio comportava três portos naturais, Zéa, Munychie e Kantharos (o actual porto do Pireu) que serão fortificados sob Temístocles. O porto de Zéa era apenas um porto militar e compreendia estaleiros navais, os vestígios dos camarotes feitos para os triéres são ainda visíveis, salvo que mais ninguém pensa contemplar estes restos. Os restos da nossa contemporaneidade têm, parece-nos, estado abrigados, protegidos.
Os mais jovens contemplam então o seu vazio na frente da riqueza dos outros, “matam o seu tempo” de acordo com a expressão consagrada, os seus diálogos às vezes são bem descosidos e muitas vezes entrecortados de numerosos silêncios. Silêncios revestidos desta hiperatividade táctil e obstinada, agarrados a um telefone ou a um tablete iluminados pela última tecnologia.
Há uma taxa superior a 60% de desempregadas nesta faixa de jovens, os nossos jovens matam consequentemente o seu tempo, desocupados e demissionários de tudo, excepto do numérico. A minha prima Maria contava-me recentemente que a notícia, grande moda na aldeia (Grécia central) no grupo dos 25-40 anos, faz com que estas pessoas permaneçam na casa dos pais e dos avós e beneficiem assim de uma (certo) porção das pensões e de outras reformas dos mais velhos. “A nossa aldeia contava 1.300 habitantes, pois bem, mais de 300 habitantes, jovens, emigraram e na sua maior parte para a Alemanha, levando com eles, cônjuges, crianças e às vezes mesmo os avós, história de beneficiar da ajuda em casa ”!

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A música de Mános Hadjidákis (…) oferecida. Pireu, Abril 2015

Os que permanecem, esses adoptam então este novo modelo. Saem apenas para ir até ao bar da aldeia, porque beber aí um café ou uma cerveja torna-se menos caro que na cidade, passam também uma boa parte das suas noites a surfar sobre a Internet, a publicar sobre facebook, a ver filmes ou a enviar numerosas mensagens. Não se lhes levanta nenhuma questão, não seguem sequer as notícias da atualidade, não querem empreender nada, no entanto, todos, ou eles ou os seus pais, são originários da nossa terra, e sobretudo, recusam-se a qualquer projecção quanto ao futuro, que se tem tornado certamente intocável ”, explica a minha prima.
À este quadro tão vivo que a minha prima estabeleceu desde a nossa distopia e a plenária e no entanto local, acrescentaria eu ainda o seguinte: examinando os resultados eleitorais de Janeiro passado, deduz-se que estes jovens por muito insensíveis que sejam de todo (fora do seu “paracosme” conectado), eles então e na sua grande parte votaram a favor da Aurora dourada, o numérico terá assim triunfado à sua maneira, uma vez mais!
Observo igualmente isto. Desde as eleições do 25 de Janeiro e na sequência do pré-acordo de 20 de Fevereiro, concluído entre “instituições” (a troika) e o governo de Aléxis Tsípras, as intenções de voto (futuros) a favor da Aurora dourada revelam-se cada vez mais descomplexadas. Tendência que parece acentuar-se mais ainda desde que se colocou em liberdade recentemente (esperando o processo) os deputados da estrutura neo-naziforme. Na desordem destes últimos tempos e do tempo que faz, entre estas revelações, há Fánis, vizinho na aldeia, Alexandre o mecânico, além de um velho vendedor antiquário ambulante, que encontrámos no outro dia no velho bairro de Monastiráki.

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Nota de 5.000 dracmas. Aléxandros Koroyannákis, 1942

 

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Nota de 5.000 dracmas. Aléxandros Koroyannákis, 1942

 

Este vendedor, um homem idoso, iniciou a discussão na sequência de uma curta troca de palavras. Eu acabava de lhe comprar um bilhete de 5.000 dracmas, uma criação artística de Aléxandros Koroyannákis que data de 1942, e por trinta cêntimos de euros após regatear . Koroyannákis (1906-1966), era na época um jovem artista contratado pelo Banco da Grécia em 1939, conhecido já pelas suas temáticas e pelo seu estilo, pertencendo à linhagem dos pintores e desenhadores dos anos 1930, entre os quais Picasso designadamente.
O historiador Mark Mazower (“na Grécia de Hitler. 1941-1944”, Les Belles Lettres, Paris, 2002), já tinha observado este último simbolismo, voluntariamente “progressista” e fascizante ao mesmo tempo (trabalhadores, agricultores, pescadores, Victoire de Samothrace), através da síntese de Koroyannákis. As notas seguintes, supostas encarnar vários milhões de dracmas devido à hiperinflação, não eram mais (no sentido próprio e também estético), que notas de Monopoly.

(continua)

 

Reproduzido do sítio greek crisis

Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é : http://www.greekcrisis.fr/

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