18. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia- Insólita distopia III

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão Flávio Nunes

 

(conclusão)

Na vida efetiva, já não se ouve tanto falar sobre a última visita de Aléxis Tsípras a Berlim, por exemplo, e ouve-se muito pouco o barulho a nascer à volta da sua próxima visita à Moscovo, 8 e 9 de Abril. Numerosos são os que apagam as suas televisões, e toda a gente espera pela estabilização pela depressão, ou pela falência enfim para a semana próxima sem estar muito crente disso mesmo.
No bairro de Metaxourgeío, os meus amigos mecânicos e artesãos que habitualmente têm e usam isqueiros esperam a dissipação do fumo. “O Gigante”, o melhor soldador do bairro compreende então o essencial: “É a mundialização que nos põe debaixo de água . A CEE e a UE, para dizê-lo diferentemente. Houve um tempo, o dinheiro circulava. Nada mais que a siderurgia e sobretudo os navios dos armadores davam então trabalho à todos aqui.”
“Mais de oitenta profissões diferentes intervinham num navio. Deste bairro e até Éleusis trabalhamos muito frequentemente por conta dos estaleiros. Por vezes mesmo, recebíamos trabalhadores e técnicos vindos de Salónica porque o trabalho não faltava. E éramos também pagos em dracmas. Podia-se fumar até dois pacotes por dia, beber dois cafés e quatro cervejas. Se um trabalhador atual, um miraculoso que não se encontra no desemprego, tentar fazer tudo em apenas um dia, pois bem, todo o seu salário do mês desaparecerá, esta é a triste verdade do euro e do facto também que se está a levar à morte os estaleiros, desde que os armadores mandam fazer quase todas as reparações e construções de navios na Ásia”.

 

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Sífis, o crocodilo definitivamente perdido. Creta, Abril de 2015

É assim que o nosso país deixou de ser este jardim de aclimatação , favorável ao trabalho e aos diversos técnicos e muito variados. O inverno europeísta e europeu passou certamente por ali, e eis que o réptil “extraviado” desde o verão passado nas profundidades de um lago em Creta, acaba de ser descoberto inanimado; “o inverno europeu matou-o” afirmaram então os especialistas, toda a gente compreendeu imediatamente o essencial e desde então , a ilha chora o seu crocodilo.

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Níkos Maniós, deputado de SYRIZA, Praça da Constituição, no dia 2 Abril

 

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A árvore de Dimitri Christoúlas, Praça da Constituição, 2 de Abril

 

Praça da Constituição sempre, face aos alunos da escola secundária de um estabelecimento da ilha de Naxos, o deputado SYRIZA Níkos Maniós originário de Naxos e igualmente prisioneiro político da ilha de Gyáros durante a ditadura dos Coronéis, explicava o funcionamento da vida do Parlamento. A primavera a isto se presta, o sol não falta, salvo que as leis do país (de momento?), não estão libertas do jugo da Troika. .
Fazendo a chamada dos seus alunos antes da partida, os professores puderam assim estabelecer um primeiro balanço desta visita escolar. O Parlamento, a Acrópole, o Museu, os eleitos a Democracia. Ninguém evocou este outro balanço da Democracia hemorrágica, apenas a poucos metros daqui está a árvore sob a qual Dimitri Christoúlas, reformado farmacêutico e homem politicamente empenhado (SYRIZA), se suicidou há exactamente três anos, deixando-nos uma mensagem política escrita, para denunciar esta nova Ocupação da Grécia.

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O encontro Tsipras- Merkel. Quotidien des Rédacteurs, avril 2015

Enquanto se espera um pouco melhor, aguardemos que Romaric Godin tenha razão quando escreve num excelente texto publicado em “ La Tribune”, que “a Grécia prepararia agora a ruptura. Quinta-feira 2 de abril, Reuters publicou uma informação oficialmente desmentida (evidentemente) por Atenas segundo a qual, aquando da reunião de trabalho do Eurogrupo (Euro working group) do 1º de Abril, o representante grego teria informado os seus “parceiros” que, na falta de um acordo, a Grécia não pagaria ao FMI a 9 de Abril. Nesta sexta-feira 3 de Abril, um artigo de Daily Telegraph, assinado por Ambrose Evans-Pritchard, geralmente bem informado, afirma, de fontes gregas, que o governo grego prepara concretamente a ruptura, encarando a hipótese de assumir o controlo dos bancos e emitir “cartas de crédito” governamentais que têm valor monetário. Seria evidentemente uma primeira etapa para uma saída da zona euro”.
“Com esta estratégia de temporização, Alexis Tsípras dava a impressão aos Europeus que os gregos se fortaleciam, quando na realidade, eles se enfraqueciam. Mais o tempo passava, mais os Gregos se exasperavam com a atitude europeia, e mais Alexis Tsípras ficava popular pela sua capacidade em não ceder. As exigências da nova troika assemelhavam-se cada vez mais às da antiga. Cada vez mais, as negociações se assemelhavam a uma nova maneira de querer “humilhar” os Gregos. E progressivamente, a palavra “ruptura” (rixi, ρήξη) pairava cada vez mais no ar dos tempos, na Grécia. No dia 25 de Março, dia da festa nacional, foi pronunciado pelo ministro das Finanças Yanis Varoufákis, em resposta a uma mensagem de apoio enviada pela multidão: “será necessário que nos apoiem após a ruptura”, respondeu.”

 

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A televisão. “Quotidien des Rédacteurs”, Abril 2015

 

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A televisão. “Quotidien des Rédacteurs”, avril 2015

A Grécia, permanece sempre presa nas mesmas amarras, salvo que a nossa primavera impõe, enfim, as suas cores à nossa distopia insólita. A palavra “ruptura” está certamente no ar dos tempos da Grécia, basta observar os nossos animais adéspotas (sem dono), estes miam as suas rupturas e também as suas uniões sobre as árvores da cidade neste momento.
O Parlamento, o Eurogrupo, a Acrópole, o Museu, os eleitos, a Democracia e os gatos, toda uma vida política entre despotismo e o seu contrário. Que progresso?

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Animais adéspotas. Atenas, Abril 2015

 

Reproduzido do sítio greek crisis

Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é : http://www.greekcrisis.fr/

18. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia- Insólita distopia II

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