Os atentados em Paris da noite passada mostram como são reduzidos, para não dizer nulos, os progressos da humanidade, desde os tempos em que se achava natural massacrar uma população inteira, por eventuais culpas de alguns elementos seus, ou até por coisa nenhuma. Naquelas décadas que alguns designam por os anos sessenta (um pouco para trás, ou pouco para a frente), chegou-se a pensar que acontecimentos deste género se iam tornar impossíveis. Pois aqui está mais um desmentido. A indignação, e ao mesmo tempo a vergonha, que uma barbaridade destas causa em qualquer pessoa minimamente bem formada, leva inevitavelmente a que se pense: “quem são os responsáveis?”
Mesmo a alguém que nada percebe de acções militares, causa espanto que um acontecimento destes seja possível numa cidade tão protegida como Paris. Foram realizados em simultâneo vários ataques, executados por indivíduos bem armados, e parece que vários deles se suicidaram ao fazerem rebentar bombas para matarem pessoas indefesas. O grau de preparação, de organização, que terá requerido uma acção destas, só terá sido excedido em escala pelo 11 de Setembro de 2001, em Nova Iorque. Como é possível que esta tenha sido levada a cabo nas barbas das autoridades francesas? Eis uma pergunta a que estas deverão responder muito pormenorizadamente, se realmente têm um mínimo de respeito pelos cidadãos, do seu país, e não só.
Que estes atentados ocorrem no meio de acontecimentos como a grande vaga de refugiados que aflui à Europa, é um aspecto que não escapa a ninguém. Alguns reagirão de uma forma epidérmica, básica, no sentido de que deverão constituir uma justificação para uma acção de rejeição destes refugiados. Não é ousadia nenhuma afirmar que essa relação não tem razão de ser, de maneira nenhuma. A organização desta acção hedionda não foi feita com certeza num barco dos que atravessam o Mediterrâneo, carregados de fugitivos da guerra e da fome, procurando salvar-se a si e aos seus. Foi por quem está do lado dos agressores, e não dos agredidos, em qualquer circunstância. Também não é ousadia nenhuma recordar a evidente relação com os acontecimentos das últimas décadas no Próximo e no Médio Oriente, e noutros países do que se tem chamado o terceiro mundo, que estão sem dúvida na origem destes e doutros atentados e ataques, em várias partes do mundo, como na Rússia, Líbano, Iémen, Nigéria e mais. Para se combaterem as ideias socialistas, reavivou-se o fanatismo religioso. Quem semeia ventos, colhe tempestades. O pior é que estas recaem sobretudo sobre inocentes.
Propomos que acedam a estes links:
http://www.les-crises.fr/la-france-est-en-guerre-ben-oui-depuis-longtemps-cretin/
http://www.esquerda.net/dossier/no-princ%C3%ADpio-era-mentira/27201


Meu caro João Machado
Dois comentários
1. Dizes : Como é possível que esta tenha sido levada a cabo nas barbas das autoridades francesas?
Vejo uma explicação bem simples e temos exemplos: na lógica das políticas de austeridade que além do mais têm uma finalidade bem objectivo, reduzir o Estado-Providência em cada país ao mínimo possível, os Estados têm apenas uma preocupação: reduzir as contas públicas. A visão do mais curto espaço de tempo possível : um ano! Esta lógica levou por exemplo à dois anos a que os bombeiros em Espanha tivessem falta de material para combater os fogos! Em Portugal a mesma lógica e no mesmo plano, o dos fogos, os vigilantes das florestas aqui pura e simplesmente desapareceram. Podíamos multiplicar os exemplos e os países. Ora, o Estado francês debate-se também com o mesmo problema. Portanto cortes, portanto, a segurança é uma coisa cara, os riscos supomos que são mínimos e passemos à frente. E depois acontece disto. Segurança. Segurança, lembram-se dos diques de New Orleâes que toda a gente sabia que se estavam a romper, mas nada se faz. E, depois, romperam-se!
2. Dizes: Para se combaterem as ideias socialistas, reavivou-se o fanatismo religioso. Quem semeia ventos, colhe tempestades. O pior é que estas recaem sobretudo sobre inocentes.
Deveria esclarecer, meu querido amigo, quem é que semeia ventos. Exemplo quem bombardeia as infra-estruturas de cidades da Siria? Quem arma muita daquela gente e com armas de ponta? São esses que colhem as tempestades. Não me parece. Ou será antes que quem colhe as tempestades é quem assume ser apenas a extensão da política imperial do senhor Obama, como é caso de François Hollande. Porque é que em vez de armas não se dá antes apoio económico àquelas populações no terreno e aí se combate o fundamentalismo islâmico no seu próprio campo, através de uma organização internacional sob os auspícios não da NATO mas da ONU, em vez de se está a querer, via países da NATO, transformar a Síria num novo Iraque? E já agora houve algum país que tenha levantado um dedo sequer sobre a destruição de Palmira?
Júlio Marques Mota: