FIÉIS E INFIÉIS- A PROPÓSITO DO 14 DE NOVEMBRO EM PARIS – por Carlos Loures

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Na editora internacional onde trabalhei, uma parte importante do catálogo era preenchida com obras infraestruturais da cultura portuguesa. Tenho a convicção de que o recorde absoluto de vendas no nosso País foi a História de Portugal, dirigida por José Hermano Saraiva, embora tal recorde tenha sido reivindicado pelo Círculo de Leitores com a sua História. Segundo dados seguros, nem metade terá vendido. Aliás, com a sem cerimónia que a distância temporal autoriza, diria que a obra dirigida por Saraiva é, em muitos aspectos, superior à de José Mattoso – note-se que Mattoso dirigiu alguns dos volumes da edição de Saraiva e que, sem talvez atingir o rigor estrutural da edição do Círculo, a de Saraiva, mais solta, menos académica, com excelentes colaboradores é uma obra mais agradável e acessível, mais ajustada aos índices culturais do País. Uma das vantagens da obra de que fui responsável editorial, consiste nas histórias que Saraiva intercala com capítulos mais rigorosos de outros autores mais conceituados.

Durante cerca de três anos, contactei diariamente com um homem de feitio difícil (há quem diga que o meu não é dos melhores…). Por dever da tarefa que tínhamos de executar dentro de prazos rigorosos, reuníamos todas as manhãs e, entre divergências que chegaram ao corte de relações, houve momentos de cordialidade, sobretudo quando evitávamos o tema «política» – pois o seu salazarismo (que do ponto de vista ético, o honrava, pois nunca tentou, como outros a desonestidade de se «converter» à democracia), nunca possibilitavam grandes harmonias, salvo em pormenores – por exemplo: divergentes do PCP – por motivos opostos – ambos éramos admiradores da inteligência de Álvaro Cunhal – diga-se da «inteligência» com que conduzia um partido reformista, estalinista, contra-revolucionário… na minha opinião; por uma avaliação contrária, na sua opinião. Numa entrevista na RTP disse algo que me disse ser baseada nas minhas diatribes esquerdistas – «Em muitos aspectos, o PC é um partido conservador…».

Nada disto tem a ver com o que quero hoje dizer. Saraiva contou-me uma história que tentei confirmar, mas que por estar longe da minha biblioteca, tenho de contar de memória: Durante a tomada de Ceuta (ou de Tânger?), um cavaleiro português, homem idoso, mas robusto, entrou a cavalo numa mesquita onde se abrigavam elementos da população não-combatente – mulheres, velhos e crianças. Abrigados das investidas dos portugueses, as mães ajoelharam pedindo piedade para os filhos. O velho cavaleiro, matou, fazendo descer a espada para a esquerda e para a direita. Por fim, esgotado de cansaço, foi apeado pelos poucos sobreviventes e por eles morto. Dilacerado por mãos justamente raivosas. Era um homem bondoso, devoto, amigo dos filhos e netos. Como podia um homem moralmente impoluto, ter cometido um acto tão vil? Saraiva tinha a resposta – um mouro, um infiel, não tinha alma, não era um ser humano – matar um infiel libertava o mundo de um ser cuja existência não fazia sentido.

Foi há cerca de 600 anos. Os árabes não compravam I-pods, sapatilhas Nike, automóveis Mercedes… Nós não consumíamos tâmaras conservadas em boiões de vidro, nem petróleo. Aldeia global seria uma expressão sem sentido. Eles tinham querido conquistar territórios a Norte, nós queríamos prolongar o nosso território para Sul. As explicações para os actos de violência eram de fácil compreensão – um infiel, ou seja, alguém que não usava o mesmo manual, na óptica do utilizador de cada manual, eliminava o infiel, limpando o mundo. As Cruzadas tinham sido um acto de limpeza de grande amplitude e veio depois a Inquisição, que não eliminava só os infiéis, mas também aqueles que convinha que como tal fossem considerados.

(conclui amanhã)

1 Comment

  1. Como sempre a escrita oportuna que vai buscar à memória o conhecimento, o convívio profissional e outros, nos meios culturais onde sempre navegou. A sua escrita é por isso cativante e recomenda-se. Aguardo o seguimento do artigo agora publicado.

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