REVISTA DA SEMANA por Luís Rocha

revista semana

Revista da semana

De 08/11 a 14/11/2015

O HORROR DA “MORTE DE INOCENTES” PARA VINGAR” A MORTE DE INOCENTES”

Chegados a sexta-feira 13, todas as notícias da semana são de considerar insignificativas, face às mortes de inocentes em Paris.

Segui as notícias na televisão e também as informações noticiosas dos vários canais de comunicação. Seguiram-se os artigos de opinião que também li. Cada um faz a sua interpretação dos factos, tendo em comum os acontecimentos na Europa e nos Estados Unidos.

Quase nenhum refere ou comenta os acontecimentos sobre a “Morte de Inocentes” (não considerada terrorismo), dos bombardeamentos (de acordo com os interesses de cada um) feitos pela Rússia, Estados Undos, Inglaterra e França. A União Europeia não tem forças armadas e por isso aparece apenas como interveniente “politico”.

Como cidadão do mundo e não apenas da Europa entendo que o que sempre esteve na base destes actos, desde a pré-história, foram os interesses económicos e políticos de quem estava no poder. Relembro (sem qualquer apologia religiosa) alguns dos sete pecados capitais definidos pela Igreja Católica, no final do século VI, durante o papado de Gregório Magno:

“Avareza”: apego ao dinheiro de forma exagerada, desejo de adquirir bens materiais e de acumular riquezas.

 “Ira”: raiva contra alguém, vontade de vingança.

 “Soberba”: manifestação de orgulho e arrogância.

 Em função das mudanças ocorridas na sociedade atual, o Vaticano criou, em março de 2008, um conjunto de novos pecados adaptados à era da globalização e de que cito alguns:

“Poluição do meio ambiente”: a poluição do ar, água e solo trazem prejuízos sérios ao meio ambiente e a saúde das pessoas.

Agravamento da injustiça social”: o capitalismo criou, em muitos países, uma má distribuição de renda, deixando à margem da sociedade grande parcela da população (os excluídos sociais).

Riqueza excessiva”: o capitalismo favoreceu a concentração de renda, muitas vezes, de forma excessiva. Algumas pessoas concentram bilhões de dólares, enquanto outros, não têm se quer o que comer.

Geração de pobreza”: a pobreza e a miséria estão espalhadas pelo mundo. Cometem este pecado àqueles que contribuem para a geração destas condições sociais.

Tendo como base a concordância com a totalidade ou parte destas definições sobre “pecados capitais”, constatamos de que quem tem o poder de decisão no Planeta Terra, vai pecando sem qualquer problema de consciência, matando seres vivos com armas de fogo ou com a contaminação do meio ambiente.

A nós cidadãos comuns dão (em alguns países) o direito de votar em quem depois exerce o poder.

É este o mundo onde vivemos que, em prol do poder, perdeu (pôs na gaveta) os valores básicos da revolução francesa que proclamou a primeira declaração dos direitos do homem:

 “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”

Entre os vários artigos publicados há um que faz uma resenha de acontecimentos no século XXI

O atentado mais mortífero dos últimos 10 anos na Europa – Cátia Bruno/Expresso sapo (14/11/2015)

Velas em memória dos que morreram na noite de sexta-feira em Paris, colocadas à porta da embaixada francesa em Berlim, na Alemanha. O atentado é já um dos que mais vítimas provocou em solo europeu nos últimos anos – LUKAS SCHULZE / EPA

É preciso recuar ao ataque na estação de Atocha, em Madrid, para encontrar um número de mortes mais elevado num atentado terrorista em solo europeu – 191. Os atentados em Londres, no ano seguinte, mataram 56 pessoas, mas deixaram mais de 700 feridas. Número de vítimas em Paris ainda pode aumentar.

O número de vítimas nos atentados da noite desta sexta-feira em Paris, França, ainda é provisório, mas cifra-se atualmente nos 128 mortos e mais de duas centenas de feridos. O valor dá conta da escala do ataque, que ocorreu em múltiplos locais, já que não se registava um ataque terrorista em solo europeu que provocasse tantos mortos desde 2004, altura em que a Al-Qaeda fez explodir várias bombas em comboios e numa estação de Madrid, como relembra o jornal francês “Le Figaro”.

O atentado de Madrid provocou 191 mortos e mais de dois mil feridos, um número em muito superior ao que ocorreu no ano seguinte em Londres, no Reino Unido, quando quatro atentando suicidas coordenados em vários transportes públicos mataram 56 pessoas e deixaram mais de 700 feridas.

Desde então, a Europa viveu outros dois ataques terroristas. Em 2011, ocorreu a matança de Anders Breivik, na Noruega, que colocou uma bomba em Oslo e disparou sobre os jovens que participavam no campo de verão do Partido Trabalhista na ilha de Utoya – matando 77 pessoas, na maioria adolescentes.

Mais recentemente, em janeiro deste ano, a França já tinha sentido o impacto dos ataques terroristas, quando dois homens armados atacaram a redação do jornal satírico Charlie Hebdo, enquanto um outro terrorista disparou num supermercado judaico. No entanto, a escala dos ataques foi bastante menor, tendo estes tirado a vida a 17 pessoas no total.

Ler o artigo em: http://expresso.sapo.pt/internacional/2015-11-14-O-atentado-mais-mortifero-dos-ultimos-10-anos-na-Europa

Seguem-se outras notícias

BIRMÂNIA – Partido de Suu Kyi conquista maioria no parlamento da Birmânia – Agência Lusa/Observador (13/11/2015)

Aung San Suu Kyi, conquistou a maioria no parlamento, de acordo com resultados divulgados hoje pela comissão eleitoral birmanesa. Ban Ki-moon já avisou que ainda “há muito trabalho a fazer”.

A Liga Nacional para a Democracia (LND), o maior partido da oposição na Birmânia, liderado por Aung San Suu Kyi, conquistou a maioria no parlamento, de acordo com resultados divulgados hoje pela comissão eleitoral birmanesa.[…]

Apesar de felicitar Aung San Suu Kyi pela vitória do seu partido nas eleições na Birmânia, o secretário-geral da ONU advertiu que há “muito trabalho” pela frente para tornar o seu país numa democracia.

Ban Ki-moon descreveu as eleições de domingo como uma “conquista significativa” para a transição política da Birmânia, mas lamentou que muitos eleitores pertencentes a minorias, como os muçulmanos rohingya, não tenham podido exercer o seu direito de voto.[…]

Ler o artigo em: http://observador.pt/2015/11/13/partido-de-suu-kyi-conquista-maioria-no-parlamento-da-birmania-oficial/

CATALUNHA

Tribunal Constitucional espanhol admite recurso e suspende processo independentista catalão – Observador (11/11/2015)

TONI ALBIR/EPA – O plenário do Tribunal Constitucional espanhol suspendeu hoje o processo independentista na Catalunha, ao admitir a trâmite – por unanimidade – o recurso apresentado esta manhã pelo governo contra a resolução do parlamento catalão.

A resolução do parlamento catalão (iniciativa dos partidos Junts pel Si e CUP) foi aprovada na segunda-feira, com os votos favoráveis destes dois partidos e voto contra de todos os outros.

Ao ter sido solicitado pelo governo (foi entregue hoje de manhã pela advogada-geral do Estado) – e ao abrigo do artigo 161.º da Constituição – a entrada do recurso no TC significa que a resolução catalã está suspensa cautelarmente por um período de pelo menos cinco meses, enquanto o

Ler o artigo em: http://observador.pt/2015/11/11/tribunal-constitucional-espanhol-admite-recurso-e-suspende-processo-independentista-catalao/

Em Portugal a semana foi pródiga em acontecimentos políticos.

Esquerda derrubou Governo de Passos Coelho – Rui Pedro Antunes e Miguel Marujo/DN (10/11/2015)

É oficial: o governo caiu. A moção de rejeição ao programa de governo apresentada pelo PS foi aprovada

A moção de rejeição ao programa de governo apresentada hoje pelo PS foi aprovada, com votos a favor de todos os deputados de PS, PCP, BE, PEV e PAN (123). E votos contra de todos os deputados do PSD e do CDS (107). Não houve abstenções.

O governo caiu às 17.16. Dia histórico. Nunca em democracia tinha caído um governo através de um chumbo de programa após eleições. Nunca a esquerda se tinha unido para uma solução de governação. Para a esquerda, página de glória. Para a direita, página negra.[…]

Ler todo o artigo em: http://www.dn.pt/portugal/interior/esquerda-assina-os-acordos-antes-da-mocao-de-rejeicao-a-passos-4877874.html

Passos rejeita formação de executivo do PS que considera «um golpe político» – Diário digital (12/11/2015)

O primeiro-ministro e presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, considerou hoje que o executivo proposto pelo PS «representa uma fraude eleitoral e um golpe político» e não deveria «vir a nascer, nem na anormalidade» atual.

Durante uma sessão pública promovida pelo PSD e pelo CDS-PP, com sala cheia, num hotel de Lisboa, Passos Coelho declarou que este “não é um tempo normal” e que “será muito difícil que algum dia o país aceite o resultado que se está a formar na Assembleia da República”.[…]

Ler o artigo em: http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=798668

Editorial do El Mundo diz que Cavaco deve dar posse a Executivo de esquerda – Jornal “I” (12/11/2015)

O jornal destaca “a reposição integral dos cortes salariais aos funcionários” Shutterstock

Alerta, contudo, para um eventual regresso “ao descontrolo das contas públicas”.[…]

“Extravasando as funções de neutralidade exigidas pelo cargo, o Chefe de Estado português fez finca-pé em que o seu correligionário Passos Coelho formasse Governo. Neste momento, Cavaco tem duas opções: manter um executivo em funções até que se possam fazer novas eleições – nunca antes de Junho de 2016 – ou indigitar um Governo da esquerda”, escreve o diário espanhol.

Para o “El Mundo”, “as regras do sistema parlamentar português e o respeito ao resultado das urnas exigem que Cavaco opte por esta segunda opção”.[…]

Ler o artigo em: http://www.ionline.pt/artigo/479920/editorial-do-el-mundo-diz-que-cavaco-deve-dar-posse-a-executivo-de-esquerda?seccao=Portugal_i

A hora de Cavaco – Artigo de opinião de Nuno Saraiva/DN (14/11/2015)

Derrubado o governo no Parlamento, onde tinha de ser numa democracia parlamentar, o Presidente da República desencadeou novo processo de consultas. Os patrões, que não são eleitos, desfilaram na ladainha do costume. Disseram-lhe o que se esperava, que tenha cuidado porque os comunistas são um perigo para a democracia

Os sindicatos, mais ou menos encarniçados, sugeriram que indigite António Costa, mal por mal é de esquerda e até cumpre os requisitos constitucionais.[…]

Entretanto, na pré-campanha para Belém, os candidatos a sucessores desdobram-se na unanimidade da crítica a Passos Coelho e seus devaneios constitucionais e nos apelos para que Cavaco Silva não deixe resvalar para quem lhe suceda a batata quente da decisão. Nem Marcelo quer arcar com as consequências de um governo de gestão.

E o que faz Cavaco? Mantém o silêncio em que, dizem os cavacólogos, é mestre a gerir. Mais ainda, segue viagem para a Madeira em plena crise política que urge resolver.

A margem de que dispõe é estreita, muito estreita. Mesmo a contragosto pouco lhe resta que não seja indigitar António Costa. Afinal de contas é alternativa constitucional e política legítima, por mais que as “posições conjuntas” lhe causem dúvidas e até comichões. Nem os mercados lhe dão argumentos de instabilidade.[…]

Portugal precisa de um governo que governe e não que gira o abismo. Cavaco sabe disso melhor do que ninguém. E é por isso que, mesmo a contragosto, não deixará de assumir as suas responsabilidades. Até porque, honra lhe seja feita, se há coisa que Cavaco não ignora é que tem aqui a derradeira oportunidade para concluir o seu mandato com dignidade.

Ler o artigo em: http://www.dn.pt/opiniao/editoriais/interior/a-hora-de-cavaco-4884777.html

De todos os artigos que li sobre esta controvérsia quanto ao poder de decisão do Presidente da República reproduzo, no final desta revista da semana o texto integral do artigo da autoria de Nicolau Santos /Expresso (13/11/2015) sob o título:

Cavaco quer recusar um governo do PS. E pode?

Quanto aos acontecimentos de natureza politico/Económica merece destaque a da formalização da venda da TAP

TAP foi vendida – Jornal “I” (13/11/2015)

Acordo de conclusão de venda foi assinado esta quinta-feira.

A Parpública anunciou esta quinta-feira em comunicado que já foi assinado o acordo de conclusão da venda directa de 61% do capital da TAP.

“Na sequência da resolução do Conselho de Ministros de hoje acaba de ser assinado entre a Parpública e o Agrupamento Gateway o acordo de conclusão da venda direta das acções representativas de 61% do capital social da TAP”, refere em comunicado.

Segundo o documento, estiveram presentes na assinatura do acordo a secretária de Estado do Tesouro, Isabel Castelo Branco, o secretário de Estado das Infra-estruturas, Transportes e Comunicações, Miguel Pinto Luz, os representantes do Agrupamento Gateway e da comissão executiva da Parpública.

Ler o artigo em: http://www.ionline.pt/artigo/480074/tap-foi-vendida?seccao=Dinheiro_i

PRIVATIZAÇÃO DA TAP – Como garantir a venda da TAP? Com 150 milhões já – Ana Suspiro/Observador (12/11/2015)

Injeção de 150 milhões de euros é justificada para responder à ruptura de tesouraria, mas vai tornar mais difícil e caro reverter privatização da TAP. Condições de pagamento foram suavizadas.

Hugo Amaral/Observador – A injeção de 150 milhões de euros na TAP, logo após a conclusão da operação de venda de 61% do capital, vai tornar mais difícil e caro reverter o negócio. O comprador, o consórcio de David Neeleman e Humberto Pedrosa tem cinco dias para realizar a operação, revelou Luís Marques Guedes no briefing do Conselho de Ministros.

Um futuro governo socialista será assim confrontado com uma operação consumada, jurídica e financeiramente, o que pode obrigar ao pagamento de indemnizações em caso de reversão do negócio. O PS quer reduzir a participação privada a 49% do capital, mantendo o controlo nas mãos do Estado. O cenário de indemnização não é afastado pelo ainda ministro da Presidência, Luís Marques Guedes, logo após a aprovação de mais uma alteração ao contrato de venda da TAP. […]

O atual Executivo, já em gestão corrente, aprovou esta quinta-feira uma resolução que altera as condições de pagamento do investimento a realizar na transportadora, permitindo ao consórcio Gateway dividir em duas tranches a entrega da primeira e mais substancial fatia da recapitalização da TAP. Esta alteração contratual foi a Conselho de Ministros por insistência do consórcio privado, soube o Observador.[…]

No entanto, e considerando a expectativa de que os 269 milhões de euros entrariam na TAP até final do ano, a divisão em duas tranches e a “antecipação” de 150 milhões de euros, significa igualmente uma suavização das condições de pagamento do primeiro e mais importante compromisso financeiro assumido pelo comprador da TAP.

O resto do montante dessa entrega inicial, no valor de 120 milhões de euros, terá de ser aplicado até 23 de junho e 2016. E se o capital, a ser entregue sob a forma de obrigações convertíveis, não entrar até essa data, por responsabilidade do consórcio de David Neeleman e Humberto Pedrosa, o investidor privado perde os 150 milhões de euros já aplicados na recapitalização da TAP, que ficam na empresa num cenário de reversão do negócio e de regresso à esfera pública. Esta verba irá chegar à transportadora através de prestações acessórias de capital e não pode sair da empresa durante 30 anos.[…]

Se o negócio recuar, mas por iniciativa de um futuro governo socialista, então o Estado pode mesmo ter de indemnizar o comprador, pelo menos pelos custos já incorridos e pelos 150 milhões de euros que já foram colocados.[…]

Ler o artigo em: http://observador.pt/2015/11/12/como-garantir-a-venda-da-tap-com-150-milhoes/

Passando para a área financeira continua a saga da situação cada vez mais preocupante de encontrar uma solução para o “Novo Banco”

Novo Banco supera em muito insuficiência de capital dos outros sete bancos avaliados pelo BCE – Isabel Vicente e Pedro de Lima/Expresso sapo (14/11/2015)

As insuficiências de capital identificadas pelo Banco Central Europeu a cinco dos nove bancos europeus agora avaliados ascendem a 1,74 mil milhões de euros, só o Novo Banco precisa de quase 1,4 mil milhões[…]

Foram analisadas nove instituições europeias consideradas pelo BCE importantes em termos de dimensão e risco sistémico para o sistema bancário dos respetivos países que não tinham sido avaliadas em 2014.

Entre os bancos europeus que chumbaram no cenário adverso dos testes de esforço agora anunciados mas que já colmataram as exigências de solidez detetadas estão dois bancos da Áustria (o Sberbank Europa e o VTB Bank, com insuficiências de 138 milhões de euros e 102,7 milhões , respetivamente), um banco francês (a Agence Française de Développment com 95,9 milhões de euros) e em Malta o Mediterranean Bank com 5,4 milhões de insuficiência de capital.

Entre os bancos que superaram os testes com avaliação positiva, tanto no cenário base como no cenário adverso, está o belga Banque Degroff, o luxemburguês J.P. Morgan Bank Luxemburgo, o eslovaco Unicredit Banka e o filandês Kuntarahoitus Oyi.

Ler o artigo em: http://expresso.sapo.pt/economia/2015-11-14-Novo-Banco-supera-em-muito-insuficiencia-de-capital-dos-outros-sete-bancos-avaliados-pelo-BCE

Ainda sobre o NOVO BANCO, no dia anterior em artigo de Filipe Alves/Económico (13/11/2015)

Carlos Costa tranquiliza banqueiros sobre factura do Novo Banco

Contribuições para o Fundo de Resolução devem ser registadas no ano a que dizem respeito.

O Banco de Portugal (BdP) deu um passo significativo para acabar com a incerteza quanto ao impacto que o prejuízo com o Novo Banco terá nas contas das instituições financeiras nacionais. Ao que o Económico apurou, numa carta enviada aos bancos na semana passada, o supervisor esclareceu que as contribuições para o Fundo de Resolução terão de ser registadas no ano em que tenham lugar. Tal significa que os bancos não terão de registar perdas, à cabeça, no valor total da sua fatia do muito provável prejuízo que o Fundo terá com o Novo Banco.

A questão é crucial porque o sector financeiro terá de cobrir o expectável prejuízo que o Fundo de Resolução terá na venda do Novo Banco, através de contribuições periódicas que terão de ser pagas ao longo de vários anos. A forma como esse encargo teria de ser registado nas contas – de uma só vez, ou de forma gradual – estava, porém, a penalizar os bancos, gerando incerteza. O que levou os banqueiros a pedirem ao supervisor um esclarecimento, por escrito, sobre a forma como as contribuições para o Fundo de Resolução terão de ser contabilizadas nos seus balanços.[…]

O BCE divulga amanhã os resultados dos testes de ‘stress’ europeus ao Novo Banco, que deverão revelar necessidades de capital de até dois mil milhões de euros. Estas necessidades terão de ser asseguradas até meados do próximo ano, sendo que os bancos rejeitam que o Fundo de Resolução assuma esse encargo.

Ler o artigo em: http://economico.sapo.pt/noticias/carlos-costa-tranquiliza-banqueiros-sobre-factura-do-novo-banco_234631.html

Fraude VW: proprietários de carros na garantia poderão pedir um novo – Mónica Silvares/Económico (13/11/2015)

Quem tem um automóvel do grupo VW ainda dentro do período de garantia poderá vir a pedir carro novo ou dinheiro de volta, caso se confirme que o dano é proporcional a este pedido do cliente.

Quem tem um automóvel do grupo Volkswagen ainda em período de garantia poderá vir a exigir aos representantes nacionais das marcas do grupo um carro novo ou até mesmo a devolução do dinheiro. Segundo a secretária de Estado da Economia, Vera Rodrigues, nesta situação estão cerca de 4464 veículos da Seat e mais de 13 mil das marcas representadas pela SIVA, Audi, Skoda e Volkswagen.

Contudo, a secretária de Estado alerta que é necessário ter em conta o “dano efectivo e a eventual reposição, já que a lei prevê a proporcionalidade entre as duas coisas”, ou seja, “se a ‘performance’ do carro ou o consumo de combustível o justificam”. Esta é, contudo, explica a governante, uma situação limite.[…] São já 125 mil os carros do grupo Volkswagen afectados em Portugal pelo escândalo das emissões de gases poluentes, segundo a contabilização mais recente que o grupo de trabalho governamental que acompanha esta fraude divulgou hoje aos jornalistas.

Ler o artigo em: http://economico.sapo.pt/noticias/fraude-vw-proprietarios-de-carros-na-garantia-poderao-pedir-um-novo_234733.html

CRISE DE REFUGIADOS

Mais de 800 mil migrantes chegaram à Europa via Mediterrâneo, Lesbos sobrelotada –Lusa/Observador (13/11/2015)

Mais de 800 mil migrantes e refugiados chegaram em 2015 à Europa através do Mediterrâneo, divulgou a ONU, alertando para a situação de sobrelotação na ilha grega de Lesbos, onde milhares de pessoas estão a dormir ao relento.

YANNIS KOLESIDIS/EPA – Mais de 800 mil migrantes e refugiados chegaram em 2015 à Europa através do Mediterrâneo, divulgou a ONU, alertando para a situação de sobrelotação na ilha grega de Lesbos, onde milhares de pessoas estão a dormir ao relento.

Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), 806.000 migrantes e refugiados atravessaram em 2015 o Mediterrâneo para chegar ao território europeu, dos quais a grande maioria, 660.700, passou pela Grécia e pelas ilhas gregas do mar Egeu.

Um total de 3.460 migrantes morreu ou desapareceu durante a travessia, indicaram os mesmos dados.

Só no passado mês de outubro, e apesar das más condições meteorológicas, 210.000 pessoas chegaram ao território grego, a maioria à ilha de Lesbos, a principal porta de entrada dos migrantes na Europa.

Este fluxo não abrandou em novembro, referiu o ACNUR, indicando que esta ilha helénica tem registado uma média diária de 3.300 chegadas.[…]

Cerca de 62 por cento dos migrantes e refugiados que chegam à Grécia são oriundos da Síria, 23% do Afeganistão e 7% do Iraque, segundo a ONU.

Ler o artigo em: http://observador.pt/2015/11/13/mais-de-800-mil-migrantes-chegaram-a-europa-via-mediterraneo-lesbos-sobrelotada/

12 de Novembro de 1935. A história esquecida das lobotomias de Egas Moniz – Marta F. Reis/ Jornal “I” (12/11/2015)

A polémica operação que valeu o único Nobel da Medicina a Portugal faz 80 anos. O i recupera relatos sobre os primeiros doentes e os passos do médico no Hospital de Santa Marta, em Lisboa.

Para a história ficaram apenas as iniciais M.C. Seria Maria do Carmo, talvez Catarina. Foi admitida pela primeira vez no Hospital dos Alienados de Lisboa a 26 de Maio de 1910, com 48 anos. Aos 14 teve o primeiro amante e entregou-se à prostituição, uma vida sempre na clandestinidade. No início daquele ano atirara-se de uma janela e, depois da recuperação, foi enviada para o também chamado Manicómio Bombarda com delírios de perseguição e agitação maníaca.

Os antecedentes pessoais anotados pelo psiquiatra Sobral Cid, que dirigia o Bombarda, mostram o passado conturbado da mulher que mais tarde viria a ser a primeira doente lobotomizada da história, na manhã de 12 de Novembro de 1935. Faz 80 anos, mas o livro em francês em que Egas Moniz relatou, no ano seguinte, o historial dos primeiros 20 casos é dos poucos lugares onde é lembrada.

No Hospital de Santa Marta, onde tudo aconteceu, não há também muitas marcas das operações ou sequer da passagem do médico que em 1949 receberia o Nobel da Medicina. Apesar da distinção, Egas Moniz e a sua técnica nunca deixaram de estar envoltos em polémica. Terá sido, como muitos críticos consideram, um dos momentos negros da medicina?[…]

Ler todo o artigo em:

http://www.ionline.pt/artigo/479975/12-de-novembro-de-1935-a-historia-esquecida-das-lobotomias-de-egas-moniz-?seccao=Portugal_i

O artigo que se segue merece a atenção dos pais

Crianças a cabecear a bola no futebol? Nos EUA passa a ser proibido  – Artigo de Luís M. Faria/Expresso sapo (12/11/2015)

Crianças até aos 10 anos não poderão cabecear a bola em jogos de futebol ou mesmo durante os treinos

DANIEL BOCZARSKI / GETTY IMAGES

É a resposta da Federação norte-americana de futebol a uma ação judicial que referia o número crescente de concussões cerebrais em jogadores infantis e juvenis

Crianças até aos 10 anos não poderão cabecear a bola em jogos de futebol ou mesmo durante os treinos. Caso tenham entre 11 e 13 anos, poderão fazê-lo apenas durante os jogos. Estas diretivas anunciadas esta terça-feira são a resposta da Federação de Futebol dos Estados Unidos (FFEU) a uma ação judicial interposta em 2014 por uma coligação de pais e de jogadores.

Preocupados com a quantidade de problemas médicos ligados às situações em que o jogador se magoa ao tentar projetar a bola com a cabeça – muitas vezes limitando-se a bater na cabeça do jogador adversário que procura fazer o mesmo – os autores da ação acusavam as ligas juvenis, e a própria FIFA, de serem negligentes com a saúde dos jovens. Ano e meio após a iniciativa judicial ser lançada, a FFEU reconheceu que a questão era legítima.[…]

Segundo Berman, só no ano de 2010 verificaram-se comoções cerebrais em cerca de 50 mil jogadores juvenis, o que foi mais do que o total no conjunto de quatro outros desportos muito populares no país, incluindo basebol e basquetebol.

Ler o artigo em: http://expresso.sapo.pt/desporto/2015-11-12-Criancas-a-cabecear-a-bola-no-futebol–Nos-EUA-passa-a-ser-proibido

CULTURA

A origem da ópera, a música para amansar feras – José Carlos Fernandes/Observador (07 Novembro 2015)

O mito de Orfeu serviu de inspiração a alguns dos mais sublimes momentos da história da música – alguns dos quais são objecto de lançamentos recentes da Alia Vox e Harmonia Mundi.[…]

A importância do acaso

No mundo da ciência e da tecnologia têm sido frequentes os casos em que um avanço revolucionário ocorre por mero acidente: entre os mais célebres contam-se as descobertas da penicilina por Alexander Fleming e das aplicações culinárias das micro-ondas por Percy Spencer quando trabalhava no desenvolvimento de radares militares.

No mundo da música os desenvolvimentos nascidos do acaso são mais invulgares, mas também a ópera surgiu na Itália da viragem dos séculos XVI-XVII devido a um equívoco. Mas a preceder o equívoco, houve um factor que tantas vezes tem desencadeado as rupturas nas artes: a sensação de que uma forma consagrada atingira, senão o esgotamento, pelo menos os limites do seu potencial expressivo. Foi por volta de 1580 que alguns eruditos começaram a manifestar insatisfação com o madrigal polifónico, que atingira então o pináculo da elaboração e era a forma em que todos os compositores se esforçavam por exibir o seu talento. Um desses “insatisfeitos” era Vincenzo Galilei (c.1520-1591), um alaúdista, cantor e compositor que além de ter dado decisivos contributos para o progresso da música foi pai do astrónomo Galileo Galilei.[…]

O canto monódico – uma voz com acompanhamento instrumental relativamente simples, por oposição ao entrançado de vozes de igual importância do madrigal polifónico – não era desconhecido em Itália, desfrutando a frottola e a villanella de grande voga e tendo alguns compositores conceituados consagrado algum do seu talento a estes géneros mais populares. Por outro lado, os grandes eventos nas cortes italianas costumavam ser abrilhantados por intermedi, espectaculares produções envolvendo música, teatro, poesia e dança e cenários elaborados e efeitos especiais. Um dos mais faustosos intermedi dessa época foi apresentado em Florença, a 2 de Maio de 1589, por ocasião do casamento de Ferdinando de’ Medici com Christine de Lorraine, um evento que começou a ser preparado com um ano de antecedência e que incluiu uma sucessão de banquetes, bailes, peças de teatro e até uma batalha naval simulada no pátio interior, preenchido com água, do Palazzo Pitti.[…]

Ferdinando de’ Medici em vestes cardinalícias – fora nomeado cardeal aos 14 anos, mas nunca foi ordenado padre. Abandonou o cardinalato em 1589, a fim de suceder ao irmão como Grão-Duque. Quadro de pintor anónimo, 1588

Nunca se saberá se este esplendor se destinou apenas a deslumbrar as cortes europeias com o poder e requinte dos Medici, ou se Ferdinando também procurava fazer esquecer os rumores rodeando as mortes simultâneas do seu irmão Francesco I e da sua esposa Bianca, em Outubro de 1587, oficialmente atribuídas à malária mas em que alguns viram um envenenamento perpetrado pelo irmão mais novo.[…]

O encarregado de conceber e coordenar este intermedio florentino de 1589, que ficou conhecido como La pellegrina, foi o conde Bardi, que confiou a componente musical a gente do seu círculo, como Giulio Caccini (1551-1618), Emilio de Cavalieri (c.1550-1602), Cristoforo Malvezzi (1547-1599) e o seu discípulo Jacopo Peri (1561-1633), bem como ao afamado madrigalista Luca Marenzio (c.1533-1599), ficando os versos por conta de Ottavio Rinuccini e do próprio Bardi (que talvez tenha também composto alguma da música). Se nunca saberemos a que soava a alternativa à música polifónica que Galilei advogava, já que toda a sua obra musical se perdeu, sobraram páginas suficientes do intermedio de 1589 para que se perceba que este já prefigura algumas características da ópera, se bem que, em vez de uma narrativa, exista uma sucessão desconexa de quadros, de temática mitológica e pastoril, como era usual no género, e falte unidade estilística (para descobrir La pellegrina recomenda-se a reconstituição levada a cabo em

Quem inventou afinal a ópera?

Mas não tardaria que alguns dos músicos que contribuíram para La pellegrina dessem passos decisivos na direcção da ópera: Cavalieri terá composto música (perdida) para um divertimento pastoril sobre a Aminta de Torquato Tasso, apresentado em 1590 no palácio de Jacopo Corsi, o grande rival de Bardi como mecenas das artes em Florença, e para outro divertimento pastoril, com texto de Laura Guidiccioni, apresentado em Florença em 1595 (também perdido).

A não ser que emerjam partituras desaparecidas, Peri poderá reivindicar a autoria da primeira ópera, a Dafne com libreto de Rinuccini, apresentada nos festejos de Carnaval de 1598 no Palazzo Corsi, já que Bardi partira entretanto para Roma e Jacopo Corsi acolhera sob o seu manto de mecenas os membros da Camerata de’ Bardi; e sendo também Corsi um músico amador, são de sua autoria dois dos seis fragmentos da ópera que chegaram aos nossos dias.

Dafne, perseguida por Apolo, pede socorro ao pai, Ladon, deus dos rios, que a metamorfoseia num loureiro. Quadro de Giovanni Battista Tiepolo, 1744

Peri e Rinuccini voltariam à carga com uma Euridice, que é a primeira ópera a ter chegado na íntegra aos nossos dias. Estreou a 6 de Outubro de 1600 no Palazzo Pitti, abrilhantando o casamento de Maria de’ Medici e Henrique IV de França, e foi o próprio Peri que cantou o papel de Orfeu. Apenas três dias depois, e integrada nos mesmos festejos de casamento, Caccini estrearia Il rapimento di Cefalo (com contributos pontuais de Piero Strozzi e outros), mas, por a sua partitura se ter perdido, é raramente mencionada quando se evoca a génese do género. Ainda assim, Caccini colheu também louros do sucesso de Euridice, já que parte da música é de sua autoria.[…]

Entra em cena um profissional

Entre os convidados do casamento de Maria de’ Medici e Henrique IV de França que assistiram à Euridice de Peri a 6 de Outubro de 1600 no Palazzo Pitti estava Vincenzo Gonzaga, Duque de Mântua e um dos maiores conhecedores de arte e mecenas do seu tempo.

Vincenzo Gonzaga, retratado por Jean Bahuet, 1587

O que viu e ouviu deve tê-lo impressionado favoravelmente – e, quiçá, talvez o tivesse recordado de que, mais de um século antes, a corte de Mântua fora palco de um momento decisivo na história da música, com a apresentação de outro precursor do género operático, La favola d’Orfeo, com trechos declamados alternando com trechos cantados, compostos por vários membros da cappela ducal e texto do humanista Angelo Poliziano (1454-1494), um homem que poderia ter mudado o curso das artes e letras portuguesas, já que escreveu uma carta a D. João II, em que, considerando que os feitos deste tinham superado os de Alexandre e de César, se propunha para redigir, mediante adequada remuneração, um poema épico que imortalizasse as descobertas portuguesas (o que, a concretizar-se, teria deixado Camões sem trabalho).[…]

Monteverdi por Bernardo Strozzi, 1630

Prova do empenho do duque na empresa foi o facto de ter confiado ao seu secretário, Alessandro Striggio Jr. (filho do prestigiado compositor Alessandro Striggio) a preparação do libreto (cuja fonte principal foram as Metamorfoses de Ovídio) e ao filho Francesco a “produção executiva” do evento. Ao contrário das óperas anteriores, associadas a espectaculares festividades de corte, L’Orfeo: Favola in musica estreou, a 24 de Fevereiro de 1607, numa pequena sala do palácio ducal, para um público restrito de membros da Accademia degli Invaghiti, uma elitista agremiação de intelectuais da cidade, presidida por Francesco Gonzaga. O cuidado posto no evento é atestado pelo facto de o libreto ter sido impresso e distribuído a todo o público.[…]

O mito de Orfeu

A recorrência do mito de Orfeu – e em particular do episódio que envolve Eurídice – no enredo das primeiras óperas não é fruto do acaso. Orfeu surge na mitologia greco-romana como poeta e músico de excepcionais talentos, atribuindo-se-lhe a invenção (ou, pelo menos, o aperfeiçoamento) da lira. Os seus atributos e as peripécias da sua vida variam consoante as fontes, mas há unanimidade quanto à natureza e efeito dos sons que produzia com o canto e a lira: eram capazes de amansar feras, fazer as plantas inclinar-se para ele, acalmar o mais destemperado dos homens e até de suster o curso dos rios.

Um Orfeu adolescente rodeado de feras subjugadas pela sua música. John Macallan Swan, 1896

Um relato que faz Orfeu participar nas aventuras dos Argonautas mostra-o a usar a música para aplacar uma tempestade e para desviar a atenção dos restantes tripulantes do encantatório canto das sereias. De regresso à Trácia natal, a sua paixão pela ninfa Eurídice tem, porém, um trágico destino, quando esta é vítima da mordedura mortal de uma serpente. Desesperado, decide ir ao Inferno resgatar a amada e consegue, pelo seu canto, comover até as potências infernais – nalgumas fontes, até os padecimentos a que estavam sujeitos os danados são momentaneamente suspensos pela acção da música de Orfeu.[…]

A versão suavizada do mito

Fosse qual fosse a versão considerada, nenhuma era adequada a festas de corte e cerimónias de casamento, pelo que o libreto de Rinuccini, usado por Peri e Caccini, introduziu um final feliz: Hades/Plutão não impõe condições ao resgate de Eurídice e Orfeu e a sua amada regressam à superfície e são felizes para sempre.

A versão de Striggio/Monteverdi é mais dramática, uma vez que Eurídice é forçada a regressar ao Tártaro; porém, Orfeu, após dar largas à sua dor num lamento a que só o eco responde e jurar que nunca mais dará o seu coração a mulher alguma, recebe a visita de Apolo, que desce de uma nuvem e reprova os seus queixumes: “Regozijaste-te demasiado com a tua boa fortuna e agora lamentas excessivamente a tua sina cruel e dura. Não sabes que na Terra prazer algum perdura?”. E então Apolo convida Orfeu a subir com ele ao Céu, que é “o único lugar onde a felicidade é duradoura e o sofrimento não é conhecido”.[…]

Uma revolução

Hoje, com quatro séculos de ópera atrás de nós, é difícil perceber quão inovador foi L’Orfeo no seu tempo. Striggio e Monteverdi tinham escassos antecedentes em que buscar exemplo, mas conseguiram erguer uma obra cuja solidez dramática e perfeita aliança entre palavras e música deixa a grande distância as Euridices de Peri e Caccini. L’Orfeo não surge do nada, mas representa um salto qualitativo tremendo e define linhas-mestras para o que viria a ser a ópera nos séculos vindouros, embora o próprio Monteverdi, ao longo da sua extensa carreira, em que compôs mais 17 óperas e obras cénicas (todas perdidas, com excepção de duas) ainda viesse a dar mais contributos decisivos para a linguagem operática – sobretudo com L’incoronazione di Poppea (1643), composta aos 76 anos (por esta altura a ópera começava a ser conhecida por tal nome – a primeira referência data de 1639 – pois, até aí, o género era referido como favola).[…]

Mas Monteverdi não recorre a este vasto instrumentário por exibicionismo ou “porque pode”, antes explora judiciosamente os recursos postos à sua disposição, combinando instrumentos e silenciando outros de forma a produzir os efeitos desejados a cada momento e realçar a expressividade. Na emblemática ária “Possente spirto”, em que Orfeu tenta convencer Caronte a deixá-lo entrar no Inferno, Monteverdi usa acompanhamento de cordas quando Orfeu fala de si mesmo, usa cornetti (instrumento com conotação fúnebre) quando Orfeu menciona o Inferno, e uma harpa (instrumento com conotações celestes) quando alude ao Paraíso.

[Ouça aqui “Possente spirto”, pelo tenor Ian Bostridge, na versão dirigida por Emmanuelle Haïm (Virgin/Erato)]

Monteverdi seguiu as convenções do seu tempo quando fez os cornetti, trombones e o áspero orgão-regal dominar os trechos passados no submundo e deu protagonismo às flautas nas cenas com ninfas e pastores, mas revelou invulgar atenção ao detalhe quando especificou, passo a passo, que instrumentos deveriam integrar o baixo contínuo – aqui apenas órgão de câmara, ali três chitarroni. A diversidade de formas musicais – do “antigo” madrigal polifónico ao novo stile rappresentativo – também contribui para criar a impressão de uma tapeçaria de riqueza caleidoscópica, mas cuja coerência estilística afasta o risco de poder ser confundida com uma manta de retalhos.[…]

L’Orfeo por Savall

L’Orfeo dirigido por Jordi Savall, com La Capella Reial de Catalunya e Le Concert des Nations, no Gran Teatre del Liceu, de Barcelona, a 31 de Janeiro de 2002, já tinha conhecido edição em DVD, mas esta edição da Alia Vox é a sua estreia em CD (e também em SACD, para os poucos munidos de tecnologia e ouvidos suficientemente sensíveis para desfrutar deste suporte de alta definição).

 

Desde o início da sua carreira que Savall usa instrumentos de época, mas esta récita destaca-se por o rigor historicista se ter alargado aos cenários e figurinos e – o que é inusitado – aos trajos do maestro e dos músicos.

 

[Ouça aqui a exuberante Toccata que abre a ópera (e que seria reciclada por Monteverdi três anos depois, para abrir as Vespro della Beata Vergine)]

Savall é profundo conhecedor da obra de Monteverdi, tendo rubricado para a Astrée/Auvidis uma versão inultrapassável das Vespro della Beata Vergine, de 1610, e uma excelente leitura de excertos dos Madrigali guerrieri et amorosi do VIII Livro, de 1638 (ambas reeditadas na série Heritage da Alia Vox), pelo que não é de admirar que nos ofereça um L’Orfeo de irreprensível elegância e colorido sumptuoso.[…]

[ Ouça aqui “Vi ricorda, o boschi ombrosi”: no Acto I, os bosques e prados partilham da felicidade de Orfeu, que acaba de dar o nó com Eurídice]

O elenco vocal também tem a qualidade a que Savall nos tem habituado, mas ao seu Orfeu, o barítono Furio Zanasi, falta intensidade e arrebatamento nos momentos cruciais, como em “Tu se’ morta” (quando recebe a notícia da morte de Eurídice), pelo que perde na comparação com Anthony Rolfe Johnson (na versão de John Eliot Gardiner) e, sobretudo, com Victor Torres (na versão de Gabriel Garrido).

[Ouça aqui “Tu se’ morta”, por Furio Zanasi]

O facto de se tratar de uma gravação ao vivo faz com que o som nem sempre seja ideal: a distância variável dos cantores aos microfones prejudica, por exemplo, Cécile van de Sant (Esperança) em “Ecco l’atra palude”, e são audíveis ruídos de palco e tosses. Todavia, o som, espaçoso e límpido, cumpre os padrões da Alia Vox.[…]

Outros Orfeus

A popularidade de Orfeu entre os compositores italianos dos alvores do barroco, manteve-se ao longo do século XVII – com relevo para as óperas de Stefano Landi (1619), Luigi Rossi (1647) e Antonio Sartorio (1672) – e alastrou à Alemanha – Heinrich Schütz (1638, partitura perdida) e Johann Philipp Krieger (1683).

Orfeu chegou à cantata no último quartel do século XVII, desabrochando plenamente no início do século XVIII. É a este período que pertencem as quatro cantatas dos italianos Alessandro Scarlatti (1660-1725) e Giovanni Battista Pergolesi (1710-1736) e dos franceses Louis-Nicolas Clérambault (1676-1749) e Jean-Philippe Rameau (1683-1764) incluídas no CD Orfeo(s), pela soprano Sunhae Im e a Akademie für Alte Musik Berlin (Harmonia Mundi).

Dos quatro compositores apenas Clérambault não se dedicou à ópera – o ballet pastoral Le triomphe d’Iris (1706) foi o mais perto que esteve do género – concentrando a sua produção na música sacra e na cantata. Já os outros três contam-se entre os maiores compositores de ópera do seu tempo, com produção residual de cantatas no caso de Pergolesi e Rameau e com Scarlatti a revelar-se assombrosamente prolífico em ambos os campos: cerca de 100 óperas e 800 cantatas.[…]

Depois do barroco

Ao longo do século XVIII, Orfeu continuou a ser assunto de óperas –Telemann (1726), Graun (1752) – e esteve mesmo por trás de uma obra que marca uma decisiva renovação do género, o Orfeo ed Euridice (1762) de Gluck. O interesse dos compositores pelo tema declinou acentuadamente no final do século XVIII – Haydn foi o único grande compositor do Classicismo a recorrer a ele, em L’anima del filosofo (1791), mas esta nem sequer chegou a ser apresentada em vida do compositor e hoje tem apenas o estatuto de curiosidade. No século XIX, Orfeu ressurgiu sob a forma de ópera bufa pela mão de Jacques Offenbach, com um Orphée aux enfers (1858) em que se dança o can-can e em que Orfeu e Eurídice não só se detestam como ela não suporta ouvi-lo tocar violino.[…]

Porém, é mais recomendável que a iniciação ao mito de Orfeu na música se faça pela ordem cronológica, com L’Orfeo de Monteverdi, pois é aquela em que o poder sedutor da música é mais patente. Não se garante é que as melodias do cantor trácio sejam capazes de dissuadir o gato de afiar as unhas no sofá e o cão de roer sapatos.

Ler todo o artigo em: http://observador.pt/especiais/a-origem-da-opera-a-musica-para-amansar-feras/

Por fim e como referido segue a transcrição do artigo de Nicolau Santos/Expresso (13/11/2015)

Cavaco quer recusar um governo do PS. E pode?

O Presidente da República não quer dar posse a um governo do PS, apoiado pelo BE e pelo PCP. Basta reler as palavras que proferiu quando percebeu que o PS não iria sustentar um governo do PSD e CDS para saber exatamente o que Cavaco pensa da situação que tem à sua frente. A questão é: e pode? Tem outras alternativas a não ser chamar António Costa para formar o novo executivo?

Não é preciso ser um génio para saber que o Presidente não gosta do PS. O seu discurso de posse no segundo mandato foi uma declaração de guerra ao governo de José Sócrates e, depois disso, contribuiu ativamente para o seu derrube. Agora, está radicalmente em desacordo com a decisão de António Costa lhe apresentar uma alternativa governativa de esquerda quando o que tinha na sua cabeça é que PSD e CDS formariam um executivo, que iria governando com o apoio pontual do PS no caso de temas essenciais, como o orçamento e questões europeias.

Para Cavaco foi seguramente um choque perceber que isso não iria acontecer. Daí a sua reação destemperada e crispadíssima quando se tornou claro para ele que o governo PSD/CDS iria cair na Assembleia da República às mãos de uma frente de esquerda, que nunca existiu no Portugal democrático.

Esse discurso, se serviu para alguma coisa, foi para extremar ainda mais a situação.

Na verdade, logo após as eleições de 4 de outubro, o Presidente não se deu sequer ao trabalho de tentar conversar com António Costa. Chamou Passos Coelho e incumbiu-o de formar governo. O desprezo a que votou o PS não é a razão de tudo o que se está a passar mas não ajudou nada. Quando Passos lhe apresentou um governo sem apoio maioritário no parlamento já era claro para todos que ele não iria sobreviver a uma moção de rejeição. E foi aí que Cavaco, que disse que tinha previsto todos os cenários pós­ eleitorais, se viu confrontado com o único que obviamente nunca previu, como prova a reação destemperada que teve quando tal se tornou evidente.

O PRESIDENTE ESTÁ DE MÃOS ATADAS QUANTO À SOLUÇÃO QUE MAIS GOSTARIA DE APLICAR: A CONVOCAÇÃO DE ELEIÇQES. E QUALQUER DECISAO QUE TOMAR ENTRE AS DUAS QUE SE LHE APRESENTAM SERÁ FORTEMENTE CONTESTADA

O que agora Cavaco está a fazer é ganhar tempo. Ele sabe que só tem duas opções: manter o governo PSD/CDS em gestão corrente ou dar posse a António Costa. Mas não quer esta segunda opção, embora a primeira tenha demasiados inconvenientes, mais do que a segunda. Por isso está a desgastá-la, arrastando no tempo a sua decisão. Espera que quem ouve no palácio cor-de-rosa diga à saída de Belém que é contra ela.

Aguarda novas declarações vindas de países europeus que sejam críticas de tal caminho. Olha para os indicadores dos mercados à espera que deem sinais de alarme. Não se importa que as agências de rating foquem de novo os seus olhares críticos em nós. E até vai dois dias à Madeira em viagem oficial, como se não houvesse assuntos um bocadinho mais importantes para resolver no continente.

Há quem diga que o Presidente, numa jogada para proteger os “seus”, poderá fazer um governo de iniciativa presidencial, que seria também chumbado no parlamento, mas que ficaria em funções até novas eleições, libertando assim Passos e Portas desse desgastante exercício. Ou pode exigir a António Costa mais garantias, que ele sabe que o líder do PS não lhe pode oferecer, para assim justificar não dar posse a um governo do PS.

Uma coisa é certa: Cavaco falhou. Não quis antecipar as eleições para Julho, altura em que ainda poderia intervir após os resultados eleitorais, porque pensou que quando mais tempo a coligação estivesse no poder mais isso lhe seria favorável. Após os resultados de 4 de outubro desprezou o PS e não antecipou a decisão de Costa. Quando ela surgiu, reagiu de forma emotiva e crispada, afastando ainda mais a possibilidade de algum entendimento que pudesse existir. Agora está num beco sem saída. Não quer dar posse a um governo do PS. Mas a coligação também não quer continuar num governo de gestão. O Presidente está de mãos atadas quanto à solução que mais gostaria de aplicar: a convocação de eleições. E qualquer decisão que tomar entre as duas que se lhe apresentam será fortemente contestada.

Cavaco começou muito mal o seu último mandato e os quatro anos finais da sua vida política. E vai acabá-los ainda pior. Trinta anos de carreira política não vão ficar na História pelos melhores motivos – até porque as últimas impressões são sempre aquelas que prevalecem

 

 

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