22. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Destino I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de Flávio Nunes

 

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – uma análise social diária da crise grega

Uma série de Panagiotis Grigoriou

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Sábado, 6 de Junho 2015

22. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Destino

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Atenas, tempos de trovoada e de fim-de-semana. O pequeno navio grego negocia enquanto os grandes barcos da mundialização neo – feudal, fortes e imponentes face aos cargueiros piratas, batem pavilhão troikano. SYRIZA indiscutivelmente, tem muita esperança, mas penso que deve baixar as suas expectativas, até porque o plano grego deve vir a ser basicamente rejeitado “pelas instituições”. “Este governo e esta Assembleia não ratificarão um novo memorando”, declarou Alexis Tsípras face aos deputados, na sexta-feira 5 de Junho. Em Atenas, a atmosfera é eléctrica.

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O pequeno navio grego. Golfo de Atenas, 2015

“Os credores colocam sobre a mesa exigências que não constavam através das negociações e isso está a acontecer desde há quatro meses. Entre eles, alguns insistem para assim fazerem falhar as negociações, é evidente. Salvo que eles terão mais a perder que nós, no caso de malogro e ruptura que conduza a uma saída da Grécia da zona euro.
A lógica da punição infligida aos Gregos porque elegeram um governo de esquerda é uma logica que não beneficia ninguém. Convidamos por conseguinte certas partes a tornarem-se razoáveis e a trabalhar de modo a que uma solução aceitável por todos seja encontrada”, declarou , pelo seu lado o eurodeputado SYRIZA Dimítris Papadimoúlis (rádio 105,5, a 6 de Junho).
Ignoramos todas as medidas do clash ou mesmo o bluff, mas o que é já certo, tem a ver com o não-reembolso pela Grécia da pequena soma da semana passada do FMI, uma primeira mundial desde 1970. “Atenas, que devia pagar um cheque de 300 milhões de euros ao FMI a 5 de Junho, seguidamente três outros (336 milhões de euros a 12 de Junho, os 560 milhões a 16 e 336 milhões a 19 de Junho), deveria por conseguinte fazer um pagamento global de 1,6 mil milhões de euros a 30 de Junho, precisou o FMI. É a primeira vez, desde que começaram os primeiros planos de ajuda à Grécia, em 2010, que o país não honra a tempo um dos seus prazos de reembolso”, sublinha então “Le Monde” datado de 5 de Junho.

 

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O outro rapto da Europa. Atenas, Junho 2015

 

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Quotidiano da crise. Atenas, Maio 2015

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Apenas a 1 euro. Atenas, Junho 2015

 

Os Gregos acolheram esta notícia com sorrisos e satisfação. “Por uma vez , enfim, não reembolsamos o que não é devido, a todos os vigaristas internacionais”, assegura Anna, empregada num café do centro de Atenas, a ágora infalível do balcão aprova então imediatamente a seguir.

O meu amigo jornalista e desempregado não atribui nenhuma seriedade às sondagens que nos querem fazer crer que os gregos permanecem em cerca de 70% favoráveis à manutenção do país na prisão que é a zona euro. “É sobretudo uma opinião pública que é bem partilhada; digamos, metade a favor e metade contra”, pensa, e não é o único. Certos jornais arriscam-se nestes últimos dias quanto aos próximos factos e gestos do teatro grego, “após a recusa mal ocultada da Grécia em reembolsar o FMI, o país explodirá a 10 de Junho”, pode-se ler em certa imprensa deste fim-de-semana e de todos os ventos.
O diário de SYRIZA “Avgí”, reproduz as declarações de Vladimir Putin, isto, na sequência da entrevista telefónica da sexta-feira 5 de Junho (após a iniciativa grega), entre Vladimir Putin e Alexis Tsípras: “Mantemos com a Grécia relações históricas e de boa cooperação, sublinha Vladimir Putin na entrevista de hoje, concedida ao diário italiano “Corriere della Sera”. Contudo, sublinhou que seria uma escolha soberana do povo grego participar nas associações e nas organizações internacionais. “Não sabemos o que se passará no futuro e seria por conseguinte errado e contraproducente para a economia europeia e para a economia grega agora, ” tentar adivinhar ‘, explica o chefe do Kremlin, quando foi interrogado sobre a atitude da Rússia se a Grécia poderia então deixar a zona euro. Desenvolvemos relações com a Grécia, independentemente do facto de ser membro da UE e da NATO ou que pertence à zona euro, concluiu”.

 

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SYRIZA, o lobo disfarça-se de carneiro. Cartaz, Atenas, Junho 2015

 

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Atenas, Junho 2015

 

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Atenas e certos fantasmas. Junho 2015

 

Este mesmo diário (de SYRIZA), reproduz ainda este sábado, 6 de Junho, e em parte, a tribuna publicada por Ambrose Evans-Pritchard no jornal britânico “Daily Telegraph”. “Num artigo então crítico intitulado “o FMI traiu a sua missão na Grécia porque agiu como refém dos credores da zona euro”, sendo dado como certo que o pecado original do FMI na Grécia tinha sido o de permitir a Dominique Strauss-Kahn de tomar o controlo para assim salvar na Europa os bancos (franceses e alemães) e o euro, quando a crise estoirou, condenando a Grécia à destruição”.
Do seu lado, Panagiótis Lafazánis, chefe da Corrente de esquerda em SYRIZA e ministro da Reestruturação da produção, do Ambiente e da Energia, considera, numa entrevista concedida a “ Daily Telegraph” e retomada pelo diário “Avgí” sempre de 6 de Junho, que “’as instituições’ não parecem querer um acordo, mas exigem antes a capitulação, seguidamente, a conquista da Grécia. O governo grego, assim como o povo grego não permitirão esta destruição do país na zona euro.”

“O ministro da Reconstrução da produção, do Ambiente e da Energia, considera que um terceiro memorando da austeridade, será o que há de mais destruidor para o país, e nota que não é ao SYRIZA, mas sim aos círculos dirigentes da zona euro, que cabe optar por uma das escolhas, dizerem, enfim, o que querem no que respeita à Grécia. Sublinha contudo, que é difícil chegar à uma convergência entre o governo grego e “as instituições”, na medida em que estas últimas, não parecem visar um acordo, mas antes pelo contrário, exigem a rendição grega, ou dito por outras palavras, pretendem a pilhagem da sociedade grega e pela mesma ocasião, a ridicularização de SYRIZA”.

 

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No seu tapete. Atenas, Junho 2015

 

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Cão, dá-se. Atenas, Junho 2015

 

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Cerveja e mézé. Atenas, Junho 2015

A Grécia do quotidiano, espera o seu destino pacientemente sobre a sua esteira da história. Beberica a sua cerveja, provando o seu mézé, e consegue encontrar ainda os meios para se ocupar dos animais sem dono (adéspotas), a exemplo do município de Atenas, ao mesmo tempo que adia o pagamento da “ sua dívida” para com o FMI.

Mézé, então tradição da gastronomia bem levantina, conjunto de pratos servidos que permitem provar um pouco de tudo, de debicar metendo na boca pequenos bocados com a ajuda do pão pita ou, na falta deste, com o garfo.
Como às vezes sobre a mesa das negociações e finalmente do fadado a haveria quase de todo! Uma última ideia relatada pela imprensa, que vai passando de boca em boca, seria a de um acordo provisório sobre três a quatro meses, história de passar o fim do verão e assim os seus ventos e vagas, vagas turísticas incluídas, antes de retomar as negociações e o estrangulamento financeiro do país pelos vigaristas da Troika (de Bruxelas como do Luxemburgo) o que seria assim feito com as primeiras chuvas. Aposta arriscada?

(continua)

 

Reproduzido do sítio greek crisis

Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é : http://www.greekcrisis.fr/

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