Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Revisão de Flávio Nunes
Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – uma análise social diária da crise grega
Uma série de Panagiotis Grigoriou

27. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia -15 Julho- Aqui jaz SYRIZA ?

O impiedoso reino, a amargura extravasa todos os limites pensáveis. Nada mais será como dantes, exceto a continuação do genocídio económico e ainda A nossa situação resulta ao mesmo tempo da terceira batalha de Ypres, de Montoire e de Várkiza SYRIZA também já não é nada como dantes, diria mesmo que em certo sentido SYRIZA já não existe sequer. História então em direto e muito incómoda, um verdadeiro murro no estomago. Terça-feira 14 de Julho ao longo da noite, assisti… como observador participante convidado, numa reunião plenária da corrente (Plataforma) da ala Esquerda de SYRIZA.

Imagens obrigatoriamente leves de uma época, enfim límpida. Os jornalistas foram excluídos porque a reunião não era pública nem aberta, e a instrução foi dada pelos organizadores e repetida por Panagiótis Lafazánis em pessoa, “não registar os debates e não os comunicar, para além das declarações à imprensa que espera lá fora”.
Assim, de acordo com a reportagem da imprensa grega de 15 de Julho, “aquando da reunião dos líderes da Plataforma de esquerda, os seus quadros tentam simultaneamente coordenar as suas ações com outros grupos organizados e de dissidentes de SYRIZA, a fim de adotarem uma linha comum aquando das reuniões ulteriores, tanto no Parlamento como nos órgãos do partido”. “O nosso projeto é de caminharmos para a criação da moeda nacional, o que nós deveríamos ter já feito, e podemos fazê-lo agora, utilizando os 22 mil milhões de Euros de reserva do Banco da Grécia para pagar os salários e as pensões, e assim aproveitar este lapso de tempo para imprimirmos a nossa própria moeda, teria dito Lafazánis, porque a reunião era à portas fechadas, e não houve comunicado publicado”.

«Manifestamente, numerosos membros desta componente de SYRIZA, posicionaram-se abertamente em defesa de um voto contra a proposta do governo que conduz ao acordo, não obstante, deixaram a porta aberta, a da comunicação e do diálogo, também reiteraram a necessidade absoluta, mesmo neste momento da rejeição do acordo pelo governo”.
“Informações muito fiáveis, indicam que a Plataforma de Esquerda discute e dialoga com o ex-ministro das Finanças (Yanis Varoufákis)”, diário “Ethnos” de 15 de Julho. Tudo isto é justo, salvo que não posso escrever mais… sobre os diálogos, sobre os debates que se desenrolaram ontem, os leitores de greekcrisis podem pois assim compreender esta posição!

Posso em contrapartida escrever, que o clima era bem grave, os rostos crispados e os corações a baterem fortemente. Os ministros pertencentes a esta ala esquerda de SYRIZA (e que deixarão de o ser dentro de horas), precisaram o que toda a gente já sabia : “O procedimento é anticonstitucional, o mais anticonstitucional até agora visto, mesmo relativamente a tudo o que já se passou. Ninguém na verdade leu o extensíssimo texto exposto em apenas dois artigos, os ministros diretamente ligados referidos também não. Trata-se de diktat ditado e imposto, por conseguinte é uma violação, primeiro da vontade popular expressa aquando do referendo, da soberania nacional e… acessoriamente da Esquerda, na Grécia e por toda a parte, aliás. Nós, não aceitaremos esta versão da história… da nossa história”.
O memorando III Tsipriota, foi qualificado mesmo “de Solução final”, enquanto que os argumentos avançados por Alexis Tsípras sobre “o pacote afeto ao desenvolvimento” e sobre a ex-anulação da dívida grega, ou seja o seu reescalonamento remoto por volta de 2022, foram recusados pelos eleitos da Plataforma de Esquerda, aquando da reunião mas também a seguir publicamente, nesta quarta-feira de manhã nos meios de comunicação social.
Contactado via telefone direto, o deputado da Plataforma de Esquerda e do Pireu, Leoutsakos, explicou na televisão Ant1 (15 de Julho), que a sua “missão e que é também a da Plataforma de Esquerda e realmente de todo e qualquer elemento de SYRIZA fiel à sua história e aos seus compromissos no que diz respeito ao povo grego, referendo compreendido é : informar, lutar, preparar o povo para que, por fim, saia da zona euro, porque… nenhuma política de esquerda é possível para os países da referida zona, daí o desmoronamento total da estratégia SYRIZA até aqui. Se este acordo (o memorando III) passar, então lutaremos até à sua anulação.”

“Alexis Tsípras cometeu um grave erro ao aceitar este acordo, porque é certamente um erro permanecer numa zona monetária sob as ordens da submissão proposta. De resto, votaremos “não” ao texto e não nos demitiremos do mandato de deputado. Porque este mandato pertence à SYRIZA, e permanecemo-nos fiéis às ideias do partido respeitando ao mesmo tempo a deontologia internamente. Mas não fundaremos para tanto um novo partido, apenas em SYRIZA haverá mudança, é certo” (cito de memória).
Dimítris Vitsas, igualmente deputado SYRIZA (da maioria), muito irritado imediatamente deixou o estúdio onde participava um painel de convidados, o que por conseguinte pôde demonstrar… a clareza do debate em SYRIZA.
(continua)

