FRATERNIZAR – Cardeal e arcebispo de Braga coincidem – SALÁRIO MÍNIMO DE € 600? DESEJÁVEL, MAS… – O que opinam parece sensato, mas é sádico! – por Mário de Oliveira

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Os bispos portugueses estão preocupados com a possibilidade de o salário mínimo nacional subir gradualmente para os € 600/mês. Não porque ele fique ainda muito aquém das necessidades individuais e familiares de quem trabalha no duro por conta de outrem, mas por ir além das possibilidades do país e dos “compromissos internacionais do Estado”. Como se em vez de um país, houvesse dois países. Não há. O país é um só. Se há quem enriqueça com o que ganha cada mês, cada ano, como é o caso da generalidade dos párocos de duas, três, quatro, cinco ou mais paróquias e dos próprios bispos residenciais, isso não significa que  o facto de todos os trabalhadores por conta de outrem passarem a auferir um salário mínimo de € 600, fiquem, só por isso, numa situação de equidade-justiça, à medida da dignidade de cada ser humano. Mas para sua Eminência, o cardeal patriarca de Lisboa, e para Sua Excelência Reverendíssima, o arcebispo de Braga, esta desejável medida do novo governo não deve levar o país à beira da falência. O raciocínio destes dois membros de proa da CEP (Conferência Episcopal Portuguesa) parece sensato, mas é sádico. Sensato seria questionar-se sobre se é legítimo, do ponto de vista da ética humana, que haja salários e reformas de um montante tal, que fazem até as pedras gritarem de escândalo. Os quais, comparados com o salário mínimo de € 600, são um insulto a quem trabalha por conta de outrem. Sobre esta magna questão, nem uma palavra dos dois hierarcas católicos portugueses.

Porque é que é preciso ser-se cauteloso, quando se trata de fixar o salário mínimo em € 600, e não se invoca a mesma cautela, quando o salário máximo e as reformas máximas são o escândalo que se sabe? O país não é um só? Pelos vistos, pode haver salários máximos e correspondentes reformas para as elites do país, que o cardeal patriarca de Lisboa e o arcebispo de Braga não vêm a terreiro alertar para o perigo do país não cumprir com “os seus compromissos internacionais”. Pelo contrário, mantêm-se calados como cães mudos. Mas quando se pretende que o salário dos trabalhadores por conta de outrem chegue ao mínimo dos caricatos € 600, já os bispos saem a terreiro a alertar para os perigos. Fica assim, bem a nu a postura de classe dos bispos portugueses Estão sempre do lado dos grandes ricos e dos grandes grupos económico-financeiros, precisamente, os mesmos que fabricam os pobres e a pobreza em massa. Já quando se trata dos direitos das pessoas que trabalham por conta de outrem, apressam com alertas que são uma manifestação da sua vilania. Aos grandes ricos, tudo fica bem. Aos trabalhadores por conta de outrem tudo fica mal. Pelo menos, toda e qualquer melhoria salarial é um perigo. Já viram o que há aqui de hipocrisia, postura típica do cristianismo e respectivas igrejas cristãs?

As palavras de alerta dos dois hierarcas de proa são tanto mais chocantes, quanto são proferidas no âmbito e à sombra da Comissão de Justiça e Paz nacional. Uma instituição cristã-católica que, como se vê, tem da Justiça e da paz uma visão meramente retórica, gongórica, hipócrita, doutrinal, que fala-fala-fala, mas não mexe com um dedo nas feridas da esmagadora maioria humana do país. Tal e qual a chamada DSI-Doutrina Social da Igreja. É mera doutrina. Não tem nada a ver com a realidade histórica, social concreta. Fica-se pela formulação de certos princípios, nunca desce ao terreno, muito menos, suja as mãos. É muito cristã, nada, absolutamente nada jesuânica. Coisa de altar, não da realidade concreta. Aliás, só existe Comissão de Justiça e Paz em cada diocese católica do mundo, a começar pela de Roma, a do papa, porque o cristianismo lida só com a ortodoxia, a doutrina que ele tem como correcta, não com a ortopraxia, que tem tudo a ver com a realidade e só com a realidade. E, quando, por fim, a ortodoxia cristã chega a lidar com a realidade, fá-lo exclusivamente sob a humilhante forma de caridadezinha, sem nunca pôr a descoberto as causas e os causadores históricos que provocam a existência de dois países, em cada pais, o dos ricos e o dos empobrecidos, em vez de um só país, em cada país, de cidadãos iguais e fraternais, vasos comunicantes.

Do alto das suas cátedras, nunca os bispos da igreja podem tocar nas feridas do país pobre, pior, violentamente empobrecido, onde eles pontificam como os modelos de virtude, ao modo dos fariseus do tempo e país de Jesus, o filho de Maria. Entre as suas cátedras e o país pobre, empobrecido que é o de cada nação no mundo – a esmagadora maioria da população mundial – há um abismo. Os bispos nunca se dão conta dele, porque as suas cátedras e as doutrinas cristãs que formatam as suas mentes não lhes permitem outra postura que não seja a que estes dois membros de proa da CEP apresentam. Junto deles, nunca os grandes ricos e os grandes grupos financeiros chegam a ter posturas semelhantes à de Zaqueu, chefe de publicanos, do Evangelho de Lucas, que recebeu Jesus, não o Cristo davídico, em sua casa, na sua vida. E nesse mesmo instante fez questão de mudar de ser-viver. No confronto com Jesus e as suas práticas económico-políticas maiêuticas, pôde ver quão inumano estava a ser com os demais seres humanos, seus concidadãos. E, num arroubo de exaltante felicidade e de humanidade, logo ali decide dar metade dos bens aos pobres e restituir quatro vezes mais a quem havia roubado (cf. Lucas 19, 1-10). Coisa que nunca acontece junto dos hierarcas das igrejas, a começar pelo papa de turno.

Pois bem. À luz de Jesus e do seu Evangelho que é o mesmo de Deus Abba-Mãe de todos os povos por igual, não o deus do judeo-cristianismo-islamismo, é um imperativo ético pagar o salário justo a quem trabalha por conta de outrem. E salário justo é um salário bastante para o trabalhador, ela ou ele, poder viver e a sua família com dignidade, sem aflições propositadamente provocadas, para tê-lo sempre nas mãos. E quem diz Deus Abba-Mãe, diz seres humanos e povos, todos os seres humanos e povos do planeta. Porque fora do Humano, só há idolatria, religião, alienação. O Humano é a grande epifania de Deus que nunca ninguém viu. Tudo o que é feito aos seres humanos concretos, históricos, é feito a Deus que neles se nos dá a conhecer, como se nos dá a conhecer paradigmática e definitivamente em Jesus Nazaré. Os bispos e os cristãos em geral mudam quanto antes de ser e de Deus, ou são outras tantas pedras de tropeço para as populações que frequentam os seus templos, santuários, catedrais. Alerta! E venha daí o salário justo, não mínimo nem máximo. Ou nunca chegaremos a conhecer a paz social, fruto da justiça e do amor recíproco. Muito menos, a liberdade sororal igualitária.

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