A ideia bastante difundida de que Cavaco Silva é um caso raro de mesquinhez não corresponde totalmente à verdade. Personagens viscosas, que vivem fechadas sobre os restos de si mesmas, como Cavaco Silva, são comuns na história e deram origem a tipos clássicos na literatura. O inaudito é alguém que se comporta como uma planta carnívora ter chegado a chefe de governo e de Estado democrático, eleito pelo seu povo, durante mais de 30 anos!
Jean-Baptiste Poquelin, que ficou conhecido como Moliére (1622-1673), fixou este tipo de criaturas num texto clássico do teatro, a que deu o título de “O Avarento”. Nele retrata os que esgotam a sua existência apenas preocupados com o imediato, em função de valores menores, a degradação das relações entre indivíduos sustentadas num mercantilismo levado ao extremo. “O Avarento” é um ser amargo e sombrio, atormentado pelo medo que lhe tirem qualquer coisa que possua, incapaz da mais leve generosidade e de algum prazer.
No século XIX, António Feliciano de Castilho, um escritor romântico e pedagogo, fez uma tradução da peça. Tinha uma vaga noção de a ter lido, entre outras razões pela qualidade da escrita. Depois das últimas arengas e azias de Cavaco Silva, fui repescá-la porque ele me lembrava aquele a quem Feliciano de Castilho deu o nome de Harpagão de Sousa.
Deliciei-me com a descrição do Harpagão, a imaginar um Cavaco Silva de regresso a casa, para viver os tristes anos do fim, na Travessa do Possolo, na companhia da esposa. (Harpagão era viúvo, mas eu não desejo nenhum mal à senhora. Nem ao senhor, apenas que ele saia de cena.)
“Empregado do Paço. 60 anos bem puxados. Génio ríspido. Fato antiquário e rafado com o seu hábito de Cristo. Botas de borla. Cabeleira estupenda, e de rabicho. Cangalhas no nariz. No dedo, um belo anel de brilhantes. “
A sala da casa de Harpagão: “Ao fundo porta larga e envidraçada entre duas janelas de peitos, olhando todas elas para o quintal que fica no mesmo plano. Nas vidraças há seus vidros quebrados, e supridos com papel. Duas portas do lado direito. A primeira que é a da rua tem rodízio de campainhas, sendo o peso da corda uma pedra tosca. A primeira da esquerda para os aposentos de dona Mariana.”
“Ao canto direito do topo da casa, mesa com tinteiro de chumbo, penas e um caderno de papel. Diante desta mesa um biombo roto.”
“Entre as duas portas da esquerda, outra mesa ordinária de pinho pintado e sobre ela dois castiçais desirmanados, com velas de sebo meio gastas. “
“Entre a primeira e a segunda porta da direita um espelho muito falho d’ aço. “
“Pendente do teto, por uma corda ao meio da sala, um candeeiro de três bicos apagado.”
A primeira cena de Harpagão apresenta-o a discutir a posse dos bens e o controlo deles com o criado Tomás, a quem acusa de o ter roubado. Veremos o quê, mas inclui “um palmo de alfarroba”. (seria Harpagão algarvio?):
Harpagão: Rua, rua! Respondão! Mal-ensinado. De mais a mais ratoneiro.
Tomás: Quem? Eu?
Harpagão: És capaz de me negar que me sisaste do almoço quase um palmo de alfarroba, e vinte, ou vinte e um tremoços? Eu trago tudo contado! E a quinze do mês passado, um pedaço de sabão, a dezasseis, sêmeas. A dezanove uma bula. E mais uns cordéis. Pilhaste a vinte e dois três pitadas de açúcar. Tudo o que há na casa é meu!
Passa para a Cena IV, com Harpagão só, passeando desassossegado na sala de um lado para outro:
“Que inferno é ter cabedais. Quando a gente os encafua, sempre os supõe bem guardados, mas em saindo de ao pé são logo dez mil cuidados! Eu cá perco o sono até.
Se alguém mos aventaria, se adivinhassem, sei lá. Há tantos exemplos, se há! E enquanto a gente vigia ainda vá lá, mas dormindo não está o que é meu sem dono? E não pode vir um mono atabafar-mo? Era lindo!
Eu tal não ficava um homem, se acordando antes do dia coas relações que o consomem, achasse a caixa vazia! Era logo pendurar-se. Deus me perdoe.
Se eu pudesse, muito ao disfarce, pôr tudo lá fora, a render. Sim, se houvesse algum banqueiro, que não pudesse quebrar… Mas qual, maldito dinheiro, como és difícil de guardar!
Tenho um milhão a render num banco inglês, mas se a guerra toda essa Europa envolver, não pode o banco ir a terra? Então, se estirando as silhas a burra mãe me abalar poderei sequer a estas burrinhas filhas? Por isso vou enterrando já num, já noutro lugar; isto é, multiplicando razões de me atormentar.
É este meu costume de falar alto comigo!”
Se encontrarem o livro nalgum alfarrabista, aproveitem. Ajuda a perceber porque não podemos voltar a ter um Harpagão na Presidência da República. Um Harpagão partidário, defensor dos seus interesses, confinado ao seu pequeno mundo. Alguém vazio de ideias e cheio de cuidados com o que é seu, deformado por velhas manhas e viciado em truques de seita. O meu anti-avarento é Sampaio da Nóvoa, porque tem ideias limpas, porque é generoso, porque é aberto ao mundo, porque procura ser feliz.
é uma das características das gentes algarvias. Veja-se que venderam a terra por dinheiro, agora reclamam que as terras não são mais dos algarvios. Que o turismo,mlhes levou tudo. Hipócritas.
Que desande para a coelha ou coelheira ou o raio,mas rapidinho.
é uma das características das gentes algarvias. Veja-se que venderam a terra por dinheiro, agora reclamam que as terras não são mais dos algarvios. Que o turismo,mlhes levou tudo. Hipócritas.