CARTA DO RIO – 79 por Rachel Gutiérrez

riojaneiro2Periodicamente, a tragédia do 11 de setembro, a das Torres Gêmeas  de Nova York é lembrada pelos norte-americanos e, durante as homenagens às vítimas, seus nomes são pronunciados lentamente, um a um, para que ninguém seja esquecido. Na última homenagem aos que morreram nos atentados terroristas de 13 de novembro em Paris, não só os nomes dos 130 jovens assassinados foram lembrados, suas fotos foram projetadas num telão e a Marselhesa foi mais uma vez executada por uma orquestra, cantada por  um coro e por todos os presentes.

Enquanto isso, no país que Vinicius de Moraes chamou de “pátria minha, tão pobrinha”, no dia 5 de novembro tivemos o desastre ecológico provocado pelos homens em Mariana, Minas Gerais. E só no dia 27, o décimo primeiro corpo foi encontrado e mais dois finalmente identificados, enquanto outros tantos, (dez, doze?) continuam desaparecidos, tragados pela lama da maior tragédia ambiental da nossa história e uma das maiores do mundo. Nenhum hino foi cantado, nenhum morto homenageado. Famílias desesperadas continuam em abrigos precários e em casas de parentes. A fauna e a flora de uma vastíssima e riquíssima região foram dizimadas; pobres pescadores olham estarrecidos para uma espuma cor de laranja, que carrega milhares de peixes mortos; toneladas de lama avançam, inexoráveis, em direção ao mar; rejeitos, dejetos, a imensa destruição. A Terra devastada.  O Rio assassinado.

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No dia seguinte ao desastre, enviei esta pequena carta ao Globo, que a publicou: Tragédia da ganância “Quando é que vamos exigir dos que extraem riqueza da terra o respeito pelas pessoas, pelos animais e pela própria terra? Que podemos fazer para que a negligência e a irresponsabilidade criminosas sejam punidas e a tragédia de Mariana não se torne apenas mais uma entre muitas, ou o prenúncio do desastre total?”

 Mas não é só a indignação que nos arrasa diante do que aconteceu, é a imensa tristeza de saber que pouco, muito pouco será feito para reparar os danos incalculáveis que o rompimento das barragens causou e continuará causando. No espaço e no tempo. Pois nem em cinquenta anos o que se perdeu será recuperado.

O Senador Cristovam Buarque fala por todos nós em seu artigo de hoje, 28 de novembro:

No final deste ano, quando o PIB de 2015 for divulgado, a lama que matou o Rio Doce não vai aparecer. As cenas do Rio Doce sendo engolido pelo lixo da mineração, de famílias soterradas, trabalhadores sem meio de vida e praias destruídas são a face mais visível das depredações provocadas e ignoradas pela economia brasileira. Os desastres sociais e ecológicos não aparecem nas estatísticas.

A economia brasileira não leva em conta a sujeira que provoca a destruição da biodiversidade, nem as “monstrópoles” que criou com sua violência descontrolada, nem o agravamento da desigualdade. Nossos rios estão morrendo pelo mau uso de suas águas ao longo de décadas, explorados como depósitos de lixo industrial e urbano, e para geração de energia, sem consideração por sustentabilidade.

Outro artigo que expressa o que sinto é o que a jornalista Ruth de Aquino publicou na revista Época de 23 de novembro:

A memória curta encobre de lama nossos olhos d’água. Quem chora hoje pela morte do Rio Doce, pelo drama de soterrados e desabrigados… quem chora pela imagem dantesca, alaranjada e sólida que fez sumir comunidades inteiras, antes ribeirinhas… talvez tenha esquecido que, num momento, lá atrás, Dilma Rousseff, ministra de Lula nas Minas e Energia e na Casa Civil, ganhou uma briga de foice com Marina Silva, então ministra do Meio Ambiente.

Será que não está claro que optamos contra o verde, contra a proteção ambiental e a favor da autonomia total e falta de fiscalização de mineradoras, ao dar carta branca para um país com a cara da Dilma?

(…) Dilma (…) acusava Marina de atrasar licenças ambientais para “obras de infraestrutura” e hidrelétricas. Qual era a resposta de Marina, hoje indisputável em face de Mariana?  –  “A discussão entre conservação do meio ambiente e desenvolvimento para mim é um falso dilema. (…) não é possível advogar pelo desenvolvimento sem promover a conservação ambiental. As duas questões fazem parte da mesma equação.”

Ruth de Aquino lembra adiante que, ao demitir Marina Silva, em 2008, Lula declarou que ela não era “isenta” para tocar o “Plano Amazônia Sustentável”. Podemos perguntar: isenta de quê?

A seguir, a jornalista revela que “há 402 barragens de mineração cadastradas no Brasil e o laudo de risco vem assinado pelas próprias empresas”. E o que é absolutamente aterrador: Na barragem de Mariana, estava “tudo bem” segundo o laudo. Agora, Exército, caminhões-pipa e helicópteros estão mobilizados. Bombeiros seguem urubus para encontrar corpos. São feitos buracos na lama para liberar cheiro de decomposição.

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E hoje a Folha de São Paulo publicou uma matéria sobre a maior mineradora do mundo, a anglo-australiana, que divide com as brasileiras Samarco e Vale do Rio Doce a responsabilidade pela exploração da região de Mariana. Diz o jornal que a “maior do mundo” está preocupada porque “terá de reconstruir um discurso ambiental que vinha montando nos últimos anos.” Porque afinal, na Austrália, sede do conglomerado, “as ações da empresa despencaram no mais baixo nível dos últimos sete anos depois da tragédia com a barragem em Mariana.”

Para as empresas, as pessoas, os animais e a Natureza importam menos do que sua reputação, suas ações, seu dinheiro e seus lucros.

Nossa presidente, seguindo o exemplo de G.W.Bush quando o furacão Katrina arrasou New Orleans, só foi sobrevoar o desastre de Mariana passados 7 dias. E mais tarde, em entrevista, teve a leviandade de afirmar que, depois de recuperado, o Rio Doce iria ficar “melhor do que era”!

Termino com o último parágrafo do excelente artigo de Ruth de Aquino:

Não vou falar das tartarugas, dos mamíferos, dos golfinhos, dos peixes, dos corais. Não vou falar da recuperação dos olhos-d’água dos rios. E nem das vítimas cujas vidas foram desviadas de seu leito normal. Só vou falar do caráter nacional de leniência e impunidade que propicia “desastres naturais”. (…) Vamos tirar a lama que cobre nossos olhos e enxergar as escolhas que fizemos.

Impossível dizer melhor.

 

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