OLHARES SOBRE A HISTÓRIA – O PADRE ANTÓNIO VIEIRA – por Jorge Lázaro

Saltimbancos

Padre António Vieira
(1608 – 1697)

António Vieira nasceu em Lisboa a 6 de Fevereiro de 1608, na rua dos Cónegos, junto à Sé de Lisboa. O pai, Cristóvão Vieira Ravasco, era de origem alentejana, enquanto a mãe, Maria de Azevedo, era natural de Lisboa. Tratava-se de uma família burguesa e modesta.

A comprovar a origem popular da família havia o casamento do avô paterno com uma mulata ao serviço do conde de Unhão, de quem ele próprio foi serviçal. É possível que esse antecedente familiar tenha, de algum modo, contribuído para a formação psicológica e moral de António Vieira, que viria a manifestar ao longo da sua vida uma sensibilidade invulgar para a situação dos oprimidos, nomeadamente índios, escravos e judeus.

Embora a Inquisição tenha suspeitado da origem judaica da sua família, tal facto nunca veio a ser confirmado, nem na época, nem posteriormente.

Pelo casamento, o pai conseguiu ser nomeado para a Relação da Baía, há pouco criada, tendo primeiro exercido as funções de «escrivão das devassas dos pecados públicos da cidade de Lisboa». Seguiu para São Salvador da Baía em 1609, deixando a mulher e o filho em Lisboa. Em 1612 regressou a Portugal, retornando ao Brasil dois anos depois, acompanhado, desta vez, pela família. O jovem António tinha então seis anos.

Em São Salvador da Baía (Brasil), António Vieira frequentou o colégio dos jesuítas até aos 15 anos. Nessa altura, por força de um sermão mais impressivo, e contra a vontade da família, ingressou como noviço na Companhia de Jesus, de que viria a ser um dos membros mais ilustres.

Toda a escolaridade de Vieira decorreu, portanto, sob a orientação dos jesuítas, que, na altura, se destacavam já como os principais educadores, ao menos em Portugal. A ação pedagógica dos jesuítas era sistemática e, a seu modo, eficaz. Sobretudo àqueles, como Vieira, que ingressavam na ordem, os jesuítas impunham uma obediência total; mas, simultaneamente, promoviam nos educandos um forte espírito de emulação pessoal e uma atitude aguerrida. Tudo junto, fez com que a Companhia ganhasse um prestígio e um poder notáveis. No entanto, as circunstâncias em que a educação jesuítica em Portugal era exercida condicionavam a sua ação.

Portugal e Espanha, na altura governados pelo mesmo rei, estavam notoriamente afastados do resto da Europa, por razões de natureza política e religiosa. A Contra Reforma tridentina isolara o país do movimento intelectual europeu iniciado no Renascimento. Lá fora, a matemática e as ciências da natureza, de raiz experimental, ganhavam prestígio. Na península ibérica estavam excluídas dos currículos escolares. De igual modo, o grego e o hebraico, línguas de incontestável interesse para o estudo dos textos religiosos fundamentais, eram quase ignorados na península ibérica.

Desse modo, António Vieira foi submetido a uma educação tradicional, praticamente reduzida à retórica, filosofia e teologia, com as duas primeiras submetidas ao primado da última, bem no espírito da escolástica medieval, que tardava em morrer. E, naturalmente, o latim, simultaneamente língua de religião e cultura.

Da sua formação inicial, fez igualmente parte a chamada língua geral, designação dada à língua dos tupis-guaranis. O seu domínio era essencial para os missionários brasileiros, empenhados na tarefa de evangelização da população indígena. É possível que António Vieira tivesse mesmo aprendido um pouco de quimbundo, uma língua banto falada pelos escravos oriundos de Angola, nessa época o principal fornecedor de mão-de-obra para as plantações brasileiras. A interdependência económica entre Angola e Brasil está historicamente documentada e prova dela é a ocupação simultânea, por parte dos holandeses, de zonas agrícolas do nordeste brasileiro e do porto de Luanda, em Angola.

De qualquer modo, Vieira parece ter sido um estudante invulgarmente capaz. A atestá-lo está o facto de, com apenas 16 anos (1624), ter sido incumbido de redigir a Charta Annua, espécie de relatório que a Companhia enviava periodicamente ao geral da ordem, em Roma. Já nesse primeiro texto, António Vieira revela a sua atenção aos problemas do meio envolvente, pois encontramos aí o relato do ataque vitorioso dirigido pelos holandeses contra a capital da colónia brasileira.

Aos 18 anos é indicado como professor de retórica no colégio de Olinda. Mas, aparentemente, a tranquilidade da vida académica não o seduz, pois, pouco depois, encontramos-lo como missionário na aldeia do Espírito Santo, a sete léguas de Salvador, dedicado à conversão dos índios.

Como vimos, esta permanência de António Vieira no Brasil coincide com o assédio dos holandeses a colónia portuguesa. Em Maio de 1624, uma armada flamenga ataca e ocupa São Salvador. Vieira está presente e regista o acontecimento na Charta Annua por ele redigida. Nessa altura, os habitantes, com o bispo à frente, vêem-se obrigados a procurar refúgio nas aldeias do sertão. Um ano depois, os holandeses sentem-se incapazes de enfrentar os reforços entretanto chegados e abandonam a cidade. Mas, em 1630, voltam à carga e instalam-se em Pernambuco, de onde ameaçam permanentemente a capital da colónia.

É nesse contexto que Vieira se revela como pregador. Em 1633 profere o seu primeiro sermão em São Salvador da Baía, logo seguido de outro. Nesses sermões iniciais aparecem já dois aspetos da sua ação futura: a intervenção na vida pública, exaltando o patriotismo, criticando, aconselhando… e a defesa dos índios contra a opressão dos colonos.

Em 1635 (ou Dezembro de 1634?) é finalmente ordenado sacerdote. Três anos depois, em 1638, é nomeado professor de teologia no colégio de Salvador. Entretanto, os holandeses, instalados em Pernambuco, não desistem dos seus objetivos. Atacam São Salvador da Baía, mas, desta vez, os defensores, mais prevenidos, conseguem resistir. A vitória é comemorada por Vieira em dois sermões.

Em 1641, o vice-rei decide mandar o seu filho a Lisboa, para manifestar a adesão da colónia ao recém-aclamado rei D. João IV. Da comitiva fazem parte dois jesuítas, sendo um deles o nosso conhecido P. António Vieira.

Os seus sermões em Lisboa fizeram sucesso, tendo sido nomeado confessor do rei e pregador da corte, além de conselheiro. Graças aos seus dotes oratórios e, certamente, à sua capacidade de sedução, rapidamente se impõe na Corte e os seus sermões são ouvidos pela melhor sociedade lisboeta. Defende uma política de tolerância para com os cristãos-novos, de forma a garantir o seu apoio à causa portuguesa, na luta contra Espanha. Em 1646 foi incumbido de diversas ações diplomáticas, tendo passado por várias capitais europeias, só regressando a Lisboa em 1648.

O prestígio adquirido por Vieira em Lisboa e o acolhimento favorável que o rei lhe fez estão, em parte, relacionados com a importância que a oratória sacra assumia na época. Os sermões proferidos pelos padres diante dos seus fiéis eram praticamente a única forma de comunicação social e, portanto,  melhor maneira de divulgar entre a população as ideias favoráveis à restauração da independência.

Entre 1646 e 1650 o P. António Vieira foi incumbido de várias missões diplomáticas no estrangeiro, tendentes a conseguir o reconhecimento da nova situação portuguesa entre os principais países europeus, por um lado, e o estabelecimento de um entendimento amigável com a Holanda, relativamente às possessões coloniais, por outro. A preocupação de fortalecer a coroa portuguesa leva-o a defender uma política de tolerância face aos judeus de origem portuguesa espalhados pela Europa. Vieira pretende envolvê-los nos projetos portugueses, garantindo-lhes uma relativa segurança face às perseguições da Inquisição. Para esse efeito, conta com o apoio do rei D. João IV. Como resultado dessa política, surge uma companhia para a exploração das colónias brasileiras com a participação de vultosos capitais hebraicos.

As suas posições em defesa dos cristãos-novos valeram-lhe a desconfiança da Inquisição, que, em 1649, tentou obter a sua expulsão da Companhia de Jesus. Em 1650 é-lhe confiada nova missão diplomática em Roma. Continua a denunciar os abusos da Inquisição e a sua presença torna-se incómoda.

Em 1652 regressa ao Brasil, tendo desembarcado em São Luís do Maranhão, em Janeiro de 1653. Volta a dedicar-se à evangelização dos índios no Maranhão. Entra em conflito com os colonos portugueses por tentar defender os indígenas da violência dos europeus. Fica famoso o Sermão de Santo António aos Peixes, proferido naquela cidade.

Coincidindo com o regresso de Vieira ao Brasil, chegou uma carta real que proibia a escravidão dos índios. Ora, toda a economia do nordeste brasileiro dependia da mão de obra escrava. A carência de escravos negros levava muita gente a escravizar os índios. Desse modo, é fácil compreender que a determinação real não fosse acatada, o que não impediu os colonos de responsabilizar os jesuítas pela decisão.

Por esse motivo, Vieira volta a Lisboa em 1654, para tentar obter do rei ei proteção mais eficaz para os índios brasileiros, o que consegue. É aqui que profere um dos seus sermões mais conhecidos, o Sermão da Sexagésima. De novo no Brasil, continuou a desenvolver esforços para proteger os indígenas. A hostilidade dos colonos foi crescendo e em 1661 expulsaram mesmo os jesuítas do Maranhão.

Os anos seguintes passou-os em Roma (1669-1675), lutando pela sua reabilitação e continuando a promover a causa dos cristãos-novos e a reforma do Santo Ofício. Adquire fama de grande pregador em Itália, sendo nomeado pregador da rainha Cristina, que se convertera ao catolicismo e abdicara do trono da Suécia, instalando-se em Roma.

Em 1675 regressa a Lisboa, protegido do Santo Ofício por um breve papal. Começa a preparar a edição dos seus Sermões, cujo primeiro volume sai em 1679.

Regressa definitivamente ao Brasil em 1681 e retoma a luta pela defesa dos índios. Em 1687 foi nomeado visitador-geral das missões do Brasil. Faleceu na Baía, a 18 de Julho de 1697.

Em Novembro de 2000 as salas de cinema começaram a exibir o filme de Manoel de Oliveira Palavra e Utopia, com Lima Duarte e Luís Miguel Cintra, inspirado na vida e obra do P. António Vieira.

Bibliografia:

Sermões
Cartas
Clavis Prophetarum
História do Futuro
Esperança de Portugal, V Império do Mundo

 

Obras consultadas:
Breve História da Literatura Portuguesa, Texto Editora, Lisboa, 1999
Lexicoteca, Vol. XII, Círculo de Leitores

 

 

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