29. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Kaos II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão Flávio Nunes

(conclusão)

 

“Então, que fazer? E sobretudo, com que partido? ”, questiona-se o reformado. “Há apenas a Aurora Dourada. Estas pessoas são patriotas e lutam mesmo desde a prisão. O plano era conhecido. O sistema fabricou ‘a solução’ Tsipras. Atualmente, todos se deram conta”, aí está a lista de argumentos lapidares da estudante. A outra estudante, a que lê Kazantzakis, interrompe para um curto momento a sua leitura levantando os seus olhos. Com um ar de desaprovação e desgosto. Nenhuma outra reação visível na carruagem. O momento passa, enfim, esperemo-lo.

 

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Atenas, Julho de 2015

 

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« Dom » Schäuble. Atenas, Julho 2015

Contudo, os nossos excluídos já naufragados, passariam despercebidos dos vivos que ainda o estão. Uma certa imprensa de esquerda, próxima de SYRIZA, denuncia tanto “o despotismo mafioso de Dom Schäuble” (“Hot Documento”), ou ainda, informa-nos da última “aposta da sobrevivência” e da Grécia (“Epíkaira”). E depois?

Para o diário “Tá Néa” (21 de Julho), “os pretextos caíram no seio de SYRIZA e entre rivais. As duas facões, Plataforma de Esquerda e quadros pró- governamentais mostram-se numa situação que já não é mais reversível. A direção do partido está em posição de espera, espera o fogo verde de Alexis Tsipras para proclamar SYRIZA em estado de Congresso permanente e assim arriscar a grande depuração.”

“Contudo, Alexis Tsipras espera o resultado da votação de quarta-feira 22 de Julho no Parlamento, um segundo pacote de medidas deveria passar para assim oficializar a rutura no que diz respeito à Ala Esquerda, ou seja, a Lafazánis e aos seus amigos”. O ministro Nikos Pappás declarou, por seu lado, ao “Quotidien des Rédacteurs” (20 de Julho), que “votar no Parlamento, sistematicamente contra as medidas do governo, uma tal atitude não é nada compatível com um percurso suposto comum.” Lógico.

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Instrumentos do cinema, no passado. Atenas, Julho de 2015

 

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Museu Arqueológico de Atenas, Julho de 2015

 

Esta pobre esquerda grega esgotar-se-ia num combate entre instrumentos do cinema do passado e do seu espetáculo do mundo. Combate Final?

Como neste cinema, dito de verão na Grécia, onde recentemente redescobrimos “Kaos” topónimo já, precisemos, dos irmãos Taviani, Luigi Pirandello e das histórias revisitadas de há um século já. Próximo filme em cartaz: “La Guerre des boutons” ( “A Guerra dos botões”) de Yves Robert. A sobrevivência em Atenas, pode assim mostrar-se agradável, ou mesmo instrutiva. Até às próximas eleições!

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A guerra dos botões. Atenas, Julho 2015

Enquanto esperam, os marinheiros trabalhadores dos ferrys com destino a Salamina repetem-se como sempre, gesto após gesto. Classe operária, hoje raríssima, sobrenadando neste mar de desclassificados pauperizados. Não muito longe do porto principal do Pireu, por um sítio onde os passageiros e outros turistas nunca viajarão, os marinheiros desclassificados e as suas famílias, acampam a bordo dos seus antigos ferrys, liquidados tal como eles próprios.

A companhia marítima nunca pagou os últimos salários e nem as indemnizações e isso desde há vários meses. A sua bandeirola dirige-se diretamente ao ministro (suposto) de tutela Drítsas, eleito SYRIZA pelo Pireu: “Não à Troika, NÃO ao eurofascismo. Sim aos salários que nos são devidos, Drítsas, acorda e vê ”. Como num cinema do real!

Quase em frente, do outro lado, perto do monumento erigido à memória da batalha naval de Salamina, habitantes recuperam do cansaço de andarem a trabalhar metidos nas lamas e nesta mesma baía e no sítio exato do porto antigo. Outros na Grécia já não recuperam mais nada, uma nova grande vaga de emigração está em vias de crescer mais ainda isso, apesar dos controlos dos capitais. Perto de meio milhão de gregos, valentes e jovens tinham deixado o país na sequência dos pobres resultados das eleições de 2012. É palpável e é uma ideia presente também, aqui e agora, em 2015, na sequência do memorando III.

 

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Trabalhadores-marinheiros. Salamina, Julho de 2015

 

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As lamas (e o resto) recuperadas. Salamina, Julho 2015

 

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Não à Troïka, NÃO aos euro-fascistas. Perto do Pireu. Julho de 2015

É assim, que à força de deixar a história galopar, o Plano-B grego corre o risco de se transformar no dos reformados, presentes e estimados futuros, outra maneira de dizer a morgue muito simplesmente. E estas outras pessoas terminarão então por vender a Acrópole. É provável e é ao mesmo tempo totalmente inconcebível para uma muito larga parte de sociedade grega, a “do NÃO” ao referendo, emigrada ou não. O destino do próximo filme, representar-se-á, talvez, durante o intervalo.

O jornal memorandista (“Ta Nea”, 21 de Julho) protesta contra os controles de capital. É verdade que as empresas gregas estão completamente exangues, em seguida, os indivíduos já não podem utilizar os seus cartões de crédito gregos na internet, para pagarem assinaturas de revistas , comprarem livros ou aparelhos eletrónicos. O mesmo jornal publicou nesse mesmo dia algumas declarações de Alain Badiou, ligadas ao seu espectáculo com base na Politeia de Platão e apresentado como parte do Festival de Avignon este ano.
“Através deste referendo, SYRIZA teve o mérito de querer restaurar a confiança entre os gregos e o seu governo. Esta decisão de Tsipras foi uma forte decisão política e assim ele sai reforçado no que se refere à confiança da sociedade. Só que Tsipras reforçou por esta mesma via a desconfiança das instituições europeias relativamente à Grécia. Para que um clima de confiança se possa instalar novamente entre estas duas partes, é necessário anular a dívida grega. A Europa poderia ter dito: ‘Nós ouvimos a palavra dos gregos. Nós anulamos a dívida do país ao mesmo tempo que reforçamos as reformas “. Uma argumentação gentilmente oca, supostamente de esquerda, limão infelizmente irrecuperável.

Nesta mesma terça-feira, 21 Julho, advogados e juristas do país estão consternados. O próximo texto que será submetido ao “Parlamento” desta semana, contém precisamente reformas a melhorar, entre as quais, esta mudança fundamental no quadro legal imposto pela Troika para os bancos e que está assim redigido, a fim de não entravar a aplicação de memorandos, quando certos Tribunais da Colónia decidem, por vezes, de outra forma.

Em seguida, propor-se-á como uma medida urgente, a fim de restaurar os lanches nas escolas e nos tribunais desde a entrada do ano escolar e judicial a abertura de uma conta especial no Banco Nacional. Toda gente poderá pois contribuir para esta conta e, especialmente, os gregos que vivem no estrangeiro. Intervalo e cinema de Verão. Novo espetáculo?

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29. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Kaos  |  Intervalo e cinema de Verão. Atenas, Julho de 2015  |  * Photo de couverture: Kaos des frères Taviani. Athènes, juillet 2015

 

Uma série de Panagiotis Grigoriou
Tradução Júlio Marques Mota
Revisão Flávio Nunes
Texto original publicado pelo sítio greek crisis
Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é : http://www.greekcrisis.fr/

29. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Kaos I

1 Comment

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