EDITORIAL: A mentira da verdade e vice-versa

logo editorial«Povo. s. Do lat. populu, «povo (habitantes de estado constituído ou da cidade); em Roma, o povo (em oposição ao senado); o povo (o conjunto dos cidadãos de qualquer ordem em oposição à plebs, plebe, como o todo em relação à parte)»… É assim que abre o verbete Povo do Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, a vasta e valiosa obra do Professor José Pedro Machado.

Mas a etimologia pouco representa no mundo da política. Ali, não existem mentiras nem verdades que possam esclarecer-se em dicionários – embora os haja. Existem, sim,  interesses, perspectivas e as subjectividades filosóficas de cada grupo ligado a uma determinada área ou classe social. Ou seja, não existe uma linha de pensamento comum, a não ser no campo das banalidades formais… «o povo, os trabalhadores, a democracia, os superiores interesses da Nação”… podíamos referir muitas palavras que todos os sectores políticos adoptam; mas logo nestes que referimos a antinomia é gritante – o povo, pode significar o conjunto de cidadãos que vivem num dado território ou apenas a sua classe trabalhadora, os trabalhadores podem ser os porteiros, contínuos, escriturários de ma empresa, a democracia é um conceito nebuloso, que vai desde a igualdade plena até às liberdades e à indisciplina… Os interesses da Nação abrangem um leque de conceitos que frequentemente confundem Nação com o grupo social que está no poder.

A seguir à Revolução de Abril, dava vontade de rir os engenheiros civis e arquitectos que se declaravam «trabalhadores daconstrução civil», os médicos que passavam a «técnicos de saúde»… Nas manifs. os engenheiros lá punham os capacetes de protecção e os directores administrativos tiravam as gravatas. Aliás, usar gravata dava direito ao apodo de fascista… Quando algum destes “humildes trabalhadores” era chamado à atenção para o embuste criado por estas alquimias de nomenclatura profissional (que, não mentindo, induziam em erro), logo surgia o argumento da «opção de classe». Muitos dos meninos ricos que eram pobrezinhos durante uma parte do dia, emendaram a mão e dos partidos “revolucionários* passaram aos de genealogia fascista e alguns até chegaram a ministros…

Esta plasticidade da linguagem política, torcendo a etimologia e o rigor das ciências sociais e políticas, permite que se minta dizendo a verdade e facilita a vida aos aldrabões que enxameiam os partidos. É a democracia. que significa governo do povo- O que não deixa de ser verdade se atribuir-mos ao vocábulo  povo o vasto espaço semântico que pode, até, no campo da demografia, considerar como povo, como fazendo parte do povo , banqueiros (“bancários” nos tempos da revolução).

A língua portuguesa não é traiçoeira, como dizia um, cómico há tempos em voga- entre os  que a falam é que hã muitos traidores.

r.

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