30. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – A vida está algures II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de Flávio Nunes

(conclusão)

 

Na mesma altura na cidade de Trikala, os administrados pauperizados agrupam-se já em frente dos serviços municipais, e efectuam as diligências necessárias a fim de obter a nova carta, dita “ carta alimentar”. Dotada de um “chip” esta permitirá a partir desta semana aos 349.826 beneficiários, comprarem alimentos nos supermercados, por uma soma de 70 euros por pessoa e por mês, 220 euros no máximo para uma família. Por conseguinte, no pior dos casos , a minha sobrinha não comerá a poeira… virá a esperança suposta ocorrer com a vitória de SYRIZA em Janeiro passado, de acordo com remoto o grande slogan da época.

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Não esquecer de vive . Uma parede, em Trikala, Julho de 2015

 

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Cartaz do Partido Comunista grego (KKE) em homenagem à vitória dos povos antifascistas em 1945. Trikala, Julho de 2015

 

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Homenagem à Vassílis Tsitsánis, Trikala, julho de 2015

Cartazes do partido comunista grego (KKE) rendem sempre homenagem “à vitória antifascista dos povos em 1945”, enquanto a cidade comemora o centenário do nascimento de Vassílis Tsitsánis, nascido em 1915 em Trikala e morto em 1984, foi um grande compositor grego e interprete de bouzouki, um dos principais autores de música grega de Rebétiko.

Vida, não, de forma nenhuma é calma, música ou não. Os habitantes que esperam em frente dos guichets semiautomáticos dos bancos, distinguem de boa vontade o escárnio da confusão. “Votou SYRIZA? Eu avisei-vos no entanto. Reforcem antes os partidos um tanto bizarros, como o PC ou o outro”, afirma então um homem. Rizos, e sorrisos, mas que desaparecem imediatamente. “O outro” é, infelizmente, a Aurora Dourada.

Há pois uma certa tensão seguramente, todavia sem nenhuma animosidade. Dir-se-ia que certas diversidades políticas nivelam-se sob o peso do destino comum. Para melhor ou para pior. E de resto, julgo constatar que o sentido muito comum dos mortais não compreende a atitude Resistentes internos à SYRIZA, os de Panagiótis Lafazánis e a Plataforma de Esquerda. “Porque é que continuam no Partido?” interrogam-se nos cafés do canto e cada canto.

 

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Representações e mentalidades. Atenas, Julho de 2015

 

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Vida supostamente pacífica. Trikala, julho 2015

 

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Vida de cão. Trikala, Julho de 2015

A Grécia parece estar completamente de acordo sobre certos pontos, por exemplo, para o que se refere ao colonialismo europeísta e às elites da Alemanha, em Trikala, notei claramente a expressão pública desta opinião, segundo a qual “a ocupação otomana seria menos cruel que a imposta pela Alemanha de vez em quando, desde o século XX”.
Sobre o sítio Internet da Associação dos professores reformados, um aderente publicou esta semana a seguinte mensagem: “Sr. Presidente da Associação. Sou um professor na reforma. Tive a o infelicidade de herdar recentemente dos meus pais uma casa construída antes da guerra, um pequeno vinhedo, e 1,3 hectare de terras agrícolas não irrigadas, numa aldeia de montanha Ioannina (Região Épire). Em virtude da nova taxa, os meus rendimentos ditos presumidos objectivos que decorrem de acordo com as regras do fisco, a partir da posse de um tal património, excedem largamente os meus rendimentos reais, pelo que fico consequentemente sujeitado à contribuição de solidariedade, e devo pagar um imposto suplementar pelo meu pequeno vinhedo que cultivo para o meu estrito uso pessoal. Já que a pensão da minha reforma diminui constantemente e que, consequentemente, é passível de imposto sobre rendimentos que não tenho, pessoalmente gostaria que me ajudasse nas minhas diligências, porque encaro a possibilidade de doar este meu património ao Estado turco e de conservar o usufruto até à minha morte, para assim escapar ao imposto injusto. Não vejo outra solução. Muito obrigado . N.P., professor na reforma, Ioannina”

Noutro lugar, em Salónica mais precisamente, a maior organização dos adeptos da equipa de Iraklis (Hercule), anuncia colocar em prática a sua própria moeda. A sua argumentação é primeiramente de ordem política.

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IRA, a moeda dos adeptos da equipa de Iraklis, Julho 2015

“Domingo (5 de julho), o povo grego na sua grande maioria pronunciou um imenso NÃO!!! Um enorme “NÃO” face ao medo!!! Como mencionei no nosso comunicado que publicamos antes do referendo, não sabemos em que direcção esta escolha nos levará . Sabemos em contrapartida que em todos os casos, aquilo de que o nosso povo tem necessidade, tem a ver com a solidariedade entre nós! Esta solidariedade deve tornar-se verdadeiramente a nossa grande arma e esta arma, deve ser trazida pelo maior número possível de gregos.”

“Depois de um longo momento, em que tentámos localizar os meios para nos ajudar-nos mutuamente uns os outros em face dos problemas económicos que muitos de nós encontramos entre nós, e na sequência de numerosas ideias e debates, tomamos como um exemplo, o povo da Argentina. Confrontado com os seus próprios problemas em 2001, tinham decidido criar as suas próprias moedas, seguindo os princípios da economia da troca. Façamos a mesma coisa. Deixemos assim a zona euro, porque ela nos cansa e nos reduz à miséria e a fome! Emitimos pois a nossa própria moeda, chamada “IRA”!!!”

“A nossa moeda será emitida em notas de um, cinco, dez e vinte “IRA” e terá o formato seguinte (fotografia). O seu funcionamento é então bem simples e equitativo. Para nós, os credores da Grécia já não existem mais, não há mais Eurogrupo, não há mais FMI. Cada um é livre de trazer nos locais da nossa associação, todo e qualquer produto que tenha em excedente ou qualquer serviço que pode então trocar. Obterá imediatamente, por outro lado, o valor do produto ou do serviço expresso em “ IRA”. Assim, deterá um rendimento disponível de valor igual quanto aos produtos e serviços trocados. Poderá seguidamente gastar os seus “IRA” conforme lhe convier e entre nós, depois de que a nossa associação tenha procedido à estimativa dos bens e dos serviços trocados.”

“Quarta-feira 8/7, começamos a receber os produtos nos nossos escritórios na rua de Aristote. Na próxima segunda-feira 13/7 e partir de 21:00 e até a 23:00, recolhemos todos os produtos em que estaremos em condições de OS trocar contra os nossos “IRA”, para os que possuem os IRA . Faremos de resto circular um guia de operação detalhado do nosso “IRA” aquando do primeiro treino da nossa equipa favorita, no dia 15/7” (imprensa grega, em Julho de 2015).

 

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Costas Lapavítsas, economista, Julho 2015

“Apesar dos esforços da cleptocracia grega e europeísta, o euro, o seu euro, e é agora visto e sentido pela população ao seu verdadeiro valor: uma arma de destruição massiva , uma fraude, uma moeda de ocupação estrangeira. O capital simbólico desta moeda clânica esgotou-se , resta apenas levar a cabo a sua degradação final, no próximo tempo histórico.
Por seu lado, o economista e deputado SYRIZA (Plataforma de Esquerda) Costas Lapavítsas, confirmou evidentemente a sua recusa aos memoranduns aquando do voto nocturno (de quarta-feira, dia 22, a quinta-feira dia 23 de Julho), e exprimiu-se recentemente em inglês para uma audiência internacional. É em suma, o ponto de vista desta facção (de momento) de SYRIZA, e que não quer deixar-se levar pelo vento mau.
Para Lapavítsas, o funcionamento de classe do euro, é uma outra maneira de falar da sua mecânica a favor dos mais ricos, dentro de cada país que a este se submete, como entre países economicamente desiguais, não haja nenhuma dúvida. Aquando do referendo grego, nos bairros de gente rica, votou-se maciçamente em prol do “SIM”, “NÃO” ganhou largamente por toda a parte, nos outros lugares. ÉE neste caso tudo tem a ver com a luta de classes diz Costa e eu acrescentaria a dos clashs! O tempo dos livros e das análises conduz forçamento aos momentos de acção, tal é também o seu sentimento explicitamente expresso.

 

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Tempo dos livros. Grécia 2015

“Não fechemos os nossos olhos! A diferença entre Schäuble e alguns outros na zona euro é a seguinte: Embora ninguém acredite que a economia grega, a sociedade grega, e o sistema político grego, possam aguentar a corrida face à aceleração do comboio da zona euro. Schäuble exige este “tempo morto” (GREXIT) porque desta maneira, a fortaleza… totalizada do euro aparecerá como melhor conduzida (sem a Grécia), enquanto a França, a Itália, reconhecem em contrapartida neste “timeout” grego, os piores fantasmas do seu próprio futuro. O GREXIT no entanto chegará quando a Grécia estiver já completamente pilhada”, escreve por último um analista menos conhecido.
Tenho também a agradecer aos meus amigos e amigos de Greek Crisis, J. e M . por me terem assinalado este artigo, amigos da ilha de Naxos, a habitarem na casa do imperturbável Papoutsi.

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Na casa do ‘imperturbável Papoutsi. Naxos, Junho 2015

Longe de Naxos e não muito perto de Atenas, Tessália em crise observa e age também como pode. O hospital da cidade de Trikala (e do seu antigo departamento suprimido desde o primeiro memorando como em todos outros departamentos, na sequência da reforma dita “territorial”) é apenas o fantasma do seu passado. Muitos numerosos serviços desapareceram, pediatria, oftalmologia, ginecologia, designadamente. Médicos que se demitem, práticos que emigram, seis mil médicos gregos instalaram-se na Alemanha desde a idade da europedra agravada em 2010.

Ei bem, esta outra noite branca dos deputados não apaixonou os Gregos. A vida está noutro lugar, e não que para Jaromil, heróis de Kundera.
Eh bien, cette autre nuit blanche des députés n’a pas passionné les Grecs. La vie est ailleurs, et pas que pour Jaromil, héros de Kundera.

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A vida está algures. Trikala, Julho de 2015 * Photo de couverture: Démolition de la maison historique. Région de Trikala, juillet 2015

 

Uma série de Panagiotis Grigoriou
Tradução Júlio Marques Mota
Revisão Flávio Nunes
Texto original publicado pelo sítio greek crisis
Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é : http://www.greekcrisis.fr/

 

30. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – A vida está algures I

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