31. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – A Esquerda com um comportamento ilegal II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de Flávio Nunes

 

(continuação)

O problema não é Varoufákis, o que não quer dizer que o seu papel nas questões correntes da Grécia do Apocalipse a caminho do fim do Euro, seja claro, ou em todo caso claramente entendível, excepto para os historiadores do futuro, salvo que o grande embaraço resulta então desta tomada do controlo… de chaves na mão, do software fiscal grego pela Troika. É por conseguinte a entrada ilegal oficial (ou oficiosa) que é condenável aos olhos dos memorandistas, e não, a usurpação da soberania restante para proveito de Bruxelas e de Berlim. A história não se repete, ou então repete-se como uma farsa, salvo que Marx não chegou a conhecer a desmaterialização da farsa, agora digitalizada.

Contudo, mesmo a imprensa mainstream conta finalmente os factos, sem perder muito tempo quanto às consequências a deduzir desses mesmos factos: “Durante a sua entrevista telefónica, Yánis Varoufákis evocou igualmente o papel desempenhado pelo ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, nas negociações. Firmemente oposto a uma redução da dívida grega, Schäuble em contrapartida pronunciou-se a favor de uma saída provisória da Grécia da zona euro que poderia revelar-se bem mais dispendiosa para os seus credores. Como explicar então uma tal posição? Para Varoufákis, é claro: o plano de Schäuble, “tal como ele mo descreveu é o de evitar uma união monetária que funcione com um Parlamento (como o sugeria ainda recentemente François Hollande).”

“Nesta óptica, afirma Varoufákis, Schäuble “disse-lhe explicitamente que um Grexit dar-lhe -ia bastante poder de terror para impor à França o que Paris recusa. Do que é que se trata? De transferir uma parte da soberania orçamental de Paris para Bruxelas”. E acrescenta, em o jornal The Telegraph, que o ministro alemão das Finanças sabe perfeitamente que o terceiro plano de ajuda, sobre o qual as discussões acabam de começar em Atenas, “ está destinado ao falhanço ” mas que o seu objectivo continua a ser o de fazer sair a Grécia da zona euro. “ Não haverá acordo a 20 de Agosto ‘, aposta Varoufákis. ” Areias movediças.

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Fachada em Atenas, Julho de 2015

 

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A Assembleia das mulheres, de Aristófanes Teatro Nacional, Épidaure, 2015

 

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Hôtel restaurado. Atenas, Julho de 2015

Sinal dos tempos, o Teatro Nacional apresenta este verão em Épidaure, “a Assembleia das mulheres”, comédia grega antiga de Aristófanes escrita em 392 antes de Cristo. Era ainda necessário salvar a cidade. As Atenienses, por instigação de uma das suas, Praxagora, reúnem-se pela aurora sobre a ágora para tomar no lugar dos homens as medidas que se impõem para salvar a cidade. No dia seguinte manhã, os homens descobrem então com estupefacção as reformas que as mulheres entendem adoptar: colocarem em comum os bens, direito para às mulheres mais feias e mais idosas de escolherem um companheiro. Velhos problemas tal como o mundo.

E como sempre a cidade não é salva, os nossos estigmas do dia-a-dia misturam-se, geralmente ignorando-se. Enquanto que na Praça da Câmara Municipal, os agentes do serviço municipal responsável pelos animais adéspotas (animais sem dono) propõem adopções às famílias que andam a passear, aí uns trezentos metros mais longe, há aí a grande fila de gente em frente da entrada da única farmácia pública, ou dito de outra maneira directamente gerida… pelo fantasma da Segurança Social grega. Uma última esperança para tentar obter um medicamento tornado raro e que está frequentemente inacessível devido ao seu custo. Não haverá para todos, é já compreensível. As pessoas tornam-se agressivas, é a guerras (dos pobres) doentes. Atenas, 2015.

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Animaux adespotas a adoptar. Atenas, Julho de 2015

 

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Diante da única farmácia pública. Atenas, Julho de 2015

 

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Atenas do momento, Julho de 2015

O drama da Esquerda adéspota ou adespotizada permanece intocável. Na segunda-feira 27 de Julho, a Plataforma de Esquerda celebrava o quinto aniversário do seu sítio a nternet iskra.gr. Para Panagiótis Lafazánis assim como para os seus camaradas, a única via possível fora de memorando é à que conduzirá ao abandono da zona euro.

“Permanecemos fiéis ao programa de SYRIZA, sobre o qual fomos eleitos e bater-nos-emos até ao fim pela vitória do NÃO”, eis pois o essencial do programa. Todos terão notado a presença de Manólis Glézos, que tomou a palavra para se diferenciar de Panagiótis Lafazánis quanto à urgência de romper ou não com o euro. Contudo, Manólis que se opõe já em 1941 e então grande personalidade da Esquerda grega (e europeia), também lançou um Apelo solene “à Resistência contra esta nova ocupação alemã, reafirmada pelo memorando III”.
Manólis Glézos, visivelmente irritado, afirmou “que SYRIZA não tem proprietários” antes de se interrogar: “Que relação existe, entre SYRIZA, e o governo do Hotel do Primeiro -ministro? Este terceiro memorando é mesmo o pior de todos eles, e este é assinado por este governo (SYRIZA)”. Este acontecimento da noite era catalisador das atenções, no entanto, a rádio 105,5 (SYRIZA), não julgou útil retransmiti-lo em directo, contrariamente aos seus hábitos.

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Reunião da Plataforma de esquerda (Manólis Glézos e Panagiótis Lafazánis). Atenas, a 27 de Julho de 2015.

 

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Panagiótis Lafazánis, Atenas, a e 27 Julho de 2015.

 

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Manólis Glézos, Atenas, a 27 de Julho de 2015.

Para Státhis Kouvelákis, filósofo francófono, membro do Comité central de SYRIZA e figura da Plataforma de Esquerda, “a única coisa que permanece sob controlo do Estado grego é o aparelho repressivo. E vê-se efectivamente bem que este começa a ser utilizado como antes, ou seja, a restringir as mobilizações sociais. Os gases lacrimogéneos atirados sobre a Praça Sintagma em 15 de Julho, seguido depois da detenção de militantes, de espancamentos policiais e agora os processos contra os sindicalistas levados a tribunal são apenas uma antecâmara do que nos espera quando a situação social se endurecer, quando as confiscações das residências principais se multiplicarem , quando os reformados sofrerem novos cortes na suas reformas, quando os assalariados ficarem privados dos poucos direitos que ainda lhes restam. A manutenção do muito autoritário Yannis Panoússis como ministro responsável da ordem pública, e a quem se vê igualmente entregar a pasta da imigração, é um sinal claro da viragem repressiva que se anuncia”.

(continua)

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – A Esquerda com um comportamento ilegal I

Uma série de Panagiotis Grigoriou
Tradução Júlio Marques Mota
Revisão Flávio Nunes
Texto original publicado pelo sítio greek crisis
Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é : http://www.greekcrisis.fr/

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