31. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – A Esquerda com um comportamento ilegal III

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de Flávio Nunes

(conclusão)

“Do lado das pessoas próximas de Tsipras, o tom torna-se extremamente agressivo para com os que estão em desacordo com as escolhas que foram feitas. É mesmo muito chocante ver que certos membros do partido retomem palavra a palavra os argumentos propalados pelos meios de comunicação social, até quanto às calúnias que apresentam contra os defensores de planos alternativos, como Varoufákis ou Lafazánis, como, por exemplo, putschistas, conspiradores do dracma, alinhados sobre a saída da Grécia, à maneira de Schäuble.”

“Este debate (saída do euro) nunca teve verdadeiramente existiu — ou, antes, existiu mas apenas de maneira muito limitada, no interior de SYRIZA, ao longo destes últimos cinco anos. E foi sempre contra a vontade da maioria da direcção do partido, por uma espécie de estado de facto criado pelo posicionamento de uma minoria substancial a favor de uma saída do euro, como condição necessária para a ruptura com as políticas de austeridade e o neoliberalismo. A maioria da direcção do partido nunca aceitou verdadeiramente a legitimidade deste debate. A saída do euro não era apresentada como uma opção política criticável com inconvenientes que justificavam um desacordo. Esta saída era pura e simplesmente identificada como uma catástrofe absoluta. Sistematicamente, era-mos acusados que se defendêssemos a saída do euro, nós éramos então cripto-nacionalistas ou que a saída do euro provocaria um desmoronamento do poder de compra das classes populares e da economia do país. Na realidade, eram os argumentos do discurso dominante que eram pois retomados pelos nossos camaradas.”

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A cartografia em exposição. Atenas, Julho de 2015

 

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Turistas em Atenas, Julho de 2015

 

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Turistas em Atenas, Julho 2015

Neste momento mesmo em Atenas, a Fundação para a Cultura de um grande banco, propõe a sua exposição sobre o olhar dos cartógrafos e a Grécia. Os mapas do mundo alteram-se, o de SYRIZA é sobretudo rasgado. A batalha é então dura pelo controlo do partido, entre Tsipriotas e Lafazanistas.

Alexis Tsipras dá a entender que se poderia muito rapidamente realizar um congresso extraordinário, talvez ainda neste mesmo mês de Agosto. Suponho, que esta vontade tão urgente, quer ter em conta o calendário eventual de Wolfgang Schäuble, porque ninguém está em condições de prever qual será a situação da Grécia, para já no próprio 20 de Agosto, data onde se vence um certo crédito. A Troika, ou seja Berlim, exige novas medidas (não incluídas) no pré-acordo de Junho, nada que muito tranquilize com efeito para este verão Tsipriota.

 

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Madeira para o inverno. Tessália, Julho de 2015

A Europa enche-se de nuvens que anunciam tempestades. Como no-lo recorda no seu excelente texto Vladimir Caller desde a Bélgica e (desde) a sua Esquerda, “a caminho do processo de reunificação alemão, o chanceler Kohl encontrou-se confrontado um processo colossal. Tratava-se de absorver a economia da Alemanha Oriental e as suas quase 15.000 empresas de Estado e de cooperativas e os seus, em geral, 5 milhões de assalariados. A tudo isto era necessário acrescentar milhões de hectares de terras agrícolas e, mais geralmente, o património de Estado da antiga RDA. Para assumir esta tarefa, o chanceler encontrou a pérola rara: um certo Wolfgang Schäuble, que se empenhou e com paixão na criação e na gestão do Treuhandanstalt (diz-se, por facilidade, “Treuhand”), um fundo público destinado a receber o produto das privatizações e financiar assim a dívida do país.”

“O conjunto da operação foi considerada por uns como um sucesso magistral de capitalização de activos e por outros como a pilhagem do século. Sobre o plano social, cerca de 2,8 milhões de trabalhadores alemães orientais perderam o seu emprego.”

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Terrenos para utilização comercial. Tessália, Trikala, Julho de 2015

“Um quarto de século mais tarde, o mesmo Wolfgang Schäuble propõe-se repetir mas esta vez deslocalizando o seu “know-how” para a Grécia. É com efeito ele que obteve que a inclusão de uma cláusula que cria um fundo similar fosse acrescentada ao acordo assinado neste 12 de Julho. Desejava mesmo que este fundo, destinado a captar os montantes das privatizações dos portos, caminhos-de-ferros, aeroportos, etc., fosse colocado numa sociedade pública situada no Luxemburgo e da qual é ele mesmo membro do conselho de administração. Uma maneira de se assegurar que estes fundos sejam na verdade destinados a reembolsar os credores, entre os quais a Alemanha figura em primeiro lugar.”
Acrescentaria contudo o seguinte: depois da anexação da RDA, a elite da Alemanha pôs em execução aberta, o seu velho projecto colonial… europeu e desde há um certo tempo, europeísta. E é este precisamente este europeísmo partilhado e engolido por SYRIZA Tsipriota (como por Pierre Laurent) que fez virar SYRIZA apenas em seis meses, em vez de três a quatro décadas necessárias para o campo dos horrorosos social-democratas, mas isto era um outro século.
A história acelera-se salvo que este verão, os figos gregos vieram com atraso! Será que ela nos deixaria longe, e bem atrás? Os últimos acontecimentos foram vividos como um imenso choque na Grécia e bem além dela. Primeiro, houve a imensa alegria popular imediatamente após o referendo, seguidamente, esta cólera sombria e que desde então ensombra todos os espíritos.

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O atraso das figueiras, Tessália, Julho de 2015

Certos amigos, quadros da Plataforma de Esquerda, e de momento membros no Comité central SYRIZA, consideram que o próprio nome SYRIZA “está queimado”, e talvez também, o da própria Esquerda, se os interessados não se moverem bastante e isso muito rapidamente.

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Construção em venda. Trikala, Julho de 2015

 

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Os belos objetos da velha Alemanha Atenas, Julho de 2015

Areias movediças, então entre duas canículas e três memorandos. Em Atenas vendem-se sempre os belos objectos da velha Alemanha e o mesmo se passas noutros lugares na Grécia tem-se ainda o tempo para uma pequena sesta sobre os chassis dos camiões que na verdade já não circulam. Um belo verão!

Uma série de Panagiotis Grigoriou
Tradução Júlio Marques Mota
Revisão Flávio Nunes
Texto original publicado pelo sítio greek crisis
Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é : http://www.greekcrisis.fr/

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Tem-se ainda o tempo para uma pequena sesta, Julho de 2015

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