CARTA DO RIO – 80 por Rachel Gutiérrez

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Como escreveu no dia 4, sexta-feira, a comentarista de economia Miriam Leitão: existem muitas razões para se reprovar o governo Dilma: arruinou a economia, desrespeitou a Lei de Responsabilidade Fiscal (…), descumpriu a lei quando aprovou decretos de aumento de gastos sem a prévia autorização do Congresso, e o mais importante: há dúvidas sobre a origem do dinheiro que financiou sua campanha.

E das opiniões veiculadas pelo jornal O Globo neste sábado, a que expressa exatamente o que penso é a do cientista político César Benjamin:

O sistema político brasileiro faliu. Perdeu o contato com os problemas nacionais. O desemprego cresce. A indústria entra em colapso. A Amazônia queima. A violência se espalha. O São Francisco morre. O Aedes aegypti se multiplica. As escolas formam analfabetos funcionais. Falta água em grandes metrópoles. A economia caminha para uma depressão. (…) Enquanto os políticos brigam em causa própria, o país está à deriva. E o cientista acrescenta que não ficará surpreso se nas manifestações de rua de 1916 a população repetir o slogan argentino “Que se vayan todos!”

Depois da tragédia ambiental em Minas Gerais, pescadores vindos de várias partes do país jogaram suas redes numa ponte sobre o Rio Doce, agora de tão triste memória e proferiram estas desoladas palavras: “Os pescadores do Brasil estão de luto porque tem um rio que está morto.” Outros trabalhadores e moradores da região, de mãos dadas, simbolizaram “Um abraço no Rio Doce que a Samarco destruiu”.

Enquanto isso, a troca de acusações entre a Presidente da República e o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, é de tão baixo nível que nos envergonha a todos. É preciso reconhecer, porém, que apesar da aceitação do pedido de impeachment, como diz Paulo Sérgio Pinheiro, ter sido um ato de retaliação “de alguém que não tem condições morais” e que já foi qualificado como “psicopata, cínico e chantagista” pelo deputado Jarbas Vasconcelos, (no programa Roda Viva da TV Cultura), o processo “é legal, embora seja um recurso crítico”, como admite Daniel Aarão Reis. De modo algum será um “golpe”, ainda que a presidente e seus aliados insistam em  qualificá-lo como tal.

Tem razão Fernando Gabeira, ao dizer que estamos “vivendo uma crise profunda política, econômica e ética” e ele inclui outros dois aspectos – o ambiental e o sanitário. O impeachement da presidente Dilma é uma chance de desbloqueio do país, é uma instância legítima de debate e foi pedido por juristas cautelosos.

Além desse, a presidente precisará enfrentar outro processo, que também está em andamento e tem o apoio da ex-senadora Marina Silva que, por outro lado, não apoia o do impeachment. Trata-se da “Impugnação de Mandato Eletivo contra a presidente Dilma Rousseff e o vice-presidente Michel Temer.” A decisão do Tribunal Superior Eleitoral foi publicada ontem. E a defesa de Dilma “terá três dias para recorrer da decisão”.

O partido Rede Sustentabilidade, de Marina Silva, no dia 4, distribuiu uma nota cujos trechos principais faço questão de reproduzir:

A Rede considera fundamental a inteira instrução processual e o julgamento da Impugnação de Mandato Eletivo movida contra a chapa da presidente e do vice-presidente, em trâmite no TSE. Esta ação apura as denúncias trazidas à tona pelo Ministério Público de que parte dos recursos desviados da Petrobras pode ter alimentado o caixa da campanha da chapa Dilma/Temer. Não podemos deixar de lado a corrupção que está sendo revelada pela operação Lava-Jato e tem sido um dos maiores fatores de indignação da sociedade.

Nem por isso estão deslegitimadas a aceitação do pedido de impeachment por Cunha e a formação de Comissão Multipartidária para avaliar sua pertinência, pois são atos que se amparam na Constituição.

(…)O pedido de impeachment por qualquer cidadão/ã não é golpe, é um direito garantido pela Constituição. (…)

É essencial prosseguir com o processo de cassação de Eduardo Cunha. As manobras protelatórias feitas até o momento criam a situação anômala e inaceitável de um presidente conduzindo a Câmara na condição de investigado por corrupção, manipulando a instituição em causa própria, em meio a uma crise sem precedentes da qual ele é um dos causadores.

Estamos na época das ilusões perdidas. Os que votamos tantas vezes no PT, acreditando nas suas belas intenções de combater a desigualdade e de impor princípios éticos à política, chegamos ao fim de um caminho com a constatação de que o Partido dos Trabalhadores, como diz Rosiska Darcy de Oliveira, em seu brilhante artigo intitulado Reconstrução, abrigava uma quadrilha, ou, como diz o Ministro do STF Celso de Mello, “um projeto criminoso de poder”.

Diz Rosiska: O partido que defendia os interesses dos trabalhadores acabou por objetivamente voltar-se contra eles, destruindo a economia e fazendo milhões de desempregados, como resultado da corrupção em que mergulhou a gestão irresponsável da política econômica. O PT deixou uma legião de órfãos entre pessoas decentes que confiaram nele e foram ludibriadas.

Eu me pergunto se os próprios petistas no poder não foram ludibriados por sua própria pretensão e sua arrogância, por sua crença anacrônica de que quem não está totalmente com eles é “liberal” ou “de direita” ou “contra o povo”.  E o que é grave  é que os “malfeitos” (palavra cunhada pela presidente) foram principalmente deles, dos supostos defensores da justiça e dos trabalhadores.

Continuemos com Rosiska: O Brasil tem uma população honesta, esmagadoramente majoritária, que ganha o seu sustento com trabalho e busca um bem merecido horizonte de melhoria de vida.

É essa maioria que aponta a corrupção como o maior problema do país, antes da saúde, da educação e da violência, como revela a pesquisa Datafolha.

Contudo e apesar de tudo, as Instituições são sólidas, o Ministério Público, a Polícia Federal, o Tribunal Superior de Justiça e o Tribunal Superior Eleitoral são confiáveis e até agora irrepreensíveis. Felizmente, a etapa difícil deste nosso momento histórico tende a ser superada. Desde a prisão de um senador da República na semana que passou, novos ventos sopraram. E a Democracia continua intocada e  será fortalecida. Há esperança no ar.

Na Carta 12 do mês de agosto do ano passado, ao me referir às eleições, dei asas à fantasia e escrevi sobre o quanto era bom sonhar com a possibilidade de “multiplicarmos clones dos melhores políticos, clones inumeráveis de Pedro Simon, por exemplo, ou de Cristovam Buarque”… Agora sonho com muitas Marinas. E com os melhores parlamentares engrossando o seu partido, a Rede Sustentabilidade. Sem maniqueísmos e sem preconceitos. Dispostos ao diálogo. Com determinação e com coragem. É hora de união, de uma grande união nacional.

 

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