José Rodrigues Miguéis nasceu na cidade de Lisboa, no dia 9 de Dezembro de 1901 e A Viagem dos Argonautas, assinalando a data, tem vindo a publicar uma série de textos deste autor. Iniciada com quatro textos de Carlos Loures, prossegue com um artigo de Manuel Simões.
De certo modo herdeiro da ironia e da prosa cáustica do grande Eça de Queiroz, sobretudo quando se propôs reelaborar as «cenas da vida portuguesa» ou o retrato da evolução social do país na primeira metade do século XX, José Rodrigues Miguéis, nascido em Lisboa em 1901, tem sido injustamente esquecido no país que tanto dignificou. E nem a ausência justifica tão grave vazio, até porque o seu exílio voluntário nos Estados- Unidos em 1935, onde viria a falecer em 1980, obedeceu a razões profundas e a pressões de toda a ordem: basta lembrar que nem sequer o seu nome podia ser mencionado nos jornais para se avaliar da perseguição que lhe moveu a censura no Portugal dos anos trinta.
Rodrigues Miguéis cedo se revelou um óptimo cronista, escrevendo para a “República” crónicas da cidade, e pertenceu desde jovem ao movimento de opinião que se formou à volta da revista “Seara Nova” (projectada em 1921 pela esquerda socializante da I República), onde colaborou activamente até como artista plástico. No seu romance O Milagre Segundo Salomé, o autor parte justamente das vicissitudes, das esperanças e desenlace que constituiu o período nascido em 1910 e interrompido pelo golpe militar de 1926 e pela ditadura sucessiva de Salazar. Acontecimentos que marcaram a sua geração evocam-se agora na narrativa de forma pungente, agravada pelo amargo espinho do exílio, que Miguéis sofreu de forma intolerável, com a nostalgia do país sempre a roer-lhe o coração. Deste modo o olhar do expatriado fixa-se permanentemente no espaço do desejo, como Eduardo Lourenço já teve ocasião de referir: «É um olhar de ‘português’ que Rodrigues Miguéis passeia pelo vasto mundo, um olhar preocupado até à crucificação pela ideia que os outros podem fazer de nós e até – sobretudo – pelo grau de existência que nos conferem, não a título de meros indivíduos, mas mais fundamentalmente, como portugueses».
Daí que toda a sua obra evidencie marcas autobiográficas ou memorialísticas, desde Saudades para Dona Genciana, narrativa que reconstrói a atmosfera de Lisboa no princípio do século; Gente de Terceira Classe, novela inspirada na primeira viagem para os Estados-Unidos; ou Uma Aventura Inquietante, tendo como pano de fundo a sua experiência belga, antes da “aventura” americana, experiência que determinaria igualmente o conhecido conto Léah, porventura a sua mais bela história de amor.
Por isso mesmo os seus textos apresentam inegavelmente personagens em trânsito, cumprindo acções que se inserem numa indefinição labiríntica com a qual se mede o “olhar português” para narrar a sua condição de estrangeiro. E é também por isso que a memória desta instabilidade acentua o tom nostálgico das narrativas do autor, a melancolia que invade a sua escrita, muitas vezes atenuada pelo recurso à ironia, aspecto em que Miguéis se revela um verdadeiro mestre.
Mas o exílio pessoal pode investir o tecido social, de modo a assumir uma óbvia amplificação. No extraordinário conto Regresso à Cúpula da Pena, autêntico modelo do desenraizamento que procura a reintegração, a autobiografia conhece uma dimensão que recupera e reactualiza o mito de Ulisses em termos de conhecimento e de experiência, afrontando o problema do retorno com a consciência de que o ser errante é uma característica do Homem e de que nunca se volta completamente do exílio, nunca acontece um regresso pleno porque nada corresponde à imagem que a memória reteve.
A escrita de José Rodrigues Miguéis é percorrida por este incessante desejo de regresso, aspecto que nunca se concretiza e que talvez tenha contribuído para este indesejado esquecimento. Mas é urgente ler o autor de Léah e Outras Histórias, apreciar a sua prosa enxuta, a palavra calibrada e essencial, irónica e pungente mas sempre com uma grande clareza de estilo, tudo elementos que fazem parte da sua bagagem de escritor e da ideia que o autor tinha da Literatura.
PARA QUANDO A PUBLICAÇÃO AQUI DE OMILAGRE DA ESCRITA DE JOSE RODRIGUES MIGUEIS?