Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Comité descentrado II

 

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de Flávio Nunes

 

(conclusão)

Entre os primeiros signatários do texto, e à parte Geórgios Kasimatis, professor de Direito constitucional na Universidade de Atenas, juntou-se ao apelo, Yórgos Vichas, cardiologista membro do conselho da Ordem dos Médicos de Atenas e iniciador do Centro médico solidário de Ellinikón (candidato não eleito SYRIZA nas eleições de Janeiro de 2015), Státhis Kouvelákis, professor no King’ s Colégio de Londres (membro do Comité Central SYRIZA), Dimítris Belandís advogado (membro do Comité Central SYRIZA), Katerina Thanopoúlou (Comité central SYRIZA e Vice-Presidente da Região de Ática), o caricaturista Státhis, o Embaixador Thémos Stoforopoulos e o jornalista Mihális Stylianou, director da Radiodifusão francesa em língua grego durante a ditadura de Coronéis.

O Apelo fez saber que “os programa dos memorandos postos em prática desde 2010, violam abertamente a Constituição, da mesma maneira que violam o direito europeu e o direito internacional. Já provocou igualmente o maior desastre económico e social na Europa (ocidental) desde 1945. A Grécia, é assim utilizada como “um rato de laboratório” para testar em antestreia, os métodos de destruição do Estado social e da democracia na Europa”.

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Pequena tipografia falida. Atenas, Julho de 2015

 

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Terrenos para atividades económicas abandonados. Pireu. Julho de 2015

 

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A Grécia actualmente. “Quotidien des Rédacteurs”, Julho de 2015

“Para manter então às condições morais e materiais mais elementares, necessárias para a sobrevivência do povo grego, este programa deve ser interrompido, preferivelmente de acordo com os outros países da UE, ou, se tal não for possível, interrompe-lo de maneira unilateral. Não há outro meio para salvar a Grécia e o povo grego. Este novo acordo que foi assinado sob o efeito da humilhação e utilizando meios ilegais, traduzir-se-á na apropriação dos bens públicos e privados dos Gregos, incluindo, as suas residências principais, as suas terras agrícolas bem como os bancos do país.”

Míkis Theodorakis (e os outros signatários do texto) criticam o governo “por ter agido depois do referendo como se os Gregos tivessem votado “SIM”, porque o governo, em vez de organizar a defesa do país, pelo contrário, desencadeou na população uma vaga de medo, de desânimo e de pânico. De resto, os dois partidos que governam após ter encarnado a luta contra o memorando durante três anos e isso até ao último minuto, (eles) não estavam preparados e não prepararam o povo grego e o país também não, face à possibilidade muito provável da rutura (no que diz respeito à Troika)”.

Os signatários exortam “o povo grego, num dos momentos mais dramáticos da sua história: não é necessário perder a sua coragem porque o que é necessário é recordarmo-nos do que os antepassados dos Gregos de hoje suportaram e eles sobreviveram depois de terem enfrentado e finalmente de terem ultrapassado e vencido, durante a ocupação alemã de 1941 à 1944 e como consequência, sofreram a terrível situação de fome de 1941-1942. O orgulho e o patriotismo dos Gregos acabarão por prevalecer face ao medo, assim a Grécia, a Democracia e a Europa democrática ganharão também esta batalha.”

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Imagens difusas do ‘NÃO’ e da miséria. Atenas, Julho de 2015

“Os Gregos devem por conseguinte organizar-se para lutarem diretamente, ajudando os mais fracos face ao espectro da fome, da doença, da miséria para assim apoiarem estas pessoas na sua dignidade, seguidamente, para não permitir a deslocação final do Estado e da sociedade, como o prevê este terceiro memorando, preservando tanto quanto possível as funções, as suas funções mais fundamentais e, por conseguinte, resistir em face das novas medidas impostas.”

“Os Gregos devem tirar todas as conclusões que se impõem depois de tantas experiências dolorosas, mas finalmente necessárias, e então formar uma Frente de Resistência e, enfim, ser-se suficientemente sério para nunca mais acreditar cegamente nos salvadores improvisados, nos aventureiros ou nos oportunistas. Face ao novo totalitarismo dos financeiros, mais perigoso que os totalitarismos dos anos 1930 e 1940, ´nós deixamos de ter escolhas, devemo-nos unir para combater e devemos fazê-lo agora. Amanhã talvez será demasiado atrasado para toda a Europa, para toda a Humanidade.”

 

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Slogan: “Povo, às armas ”. Atenas, Julho de 2015

 

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País calmo. Atenas Julho 2015

Verão grego 2015, no país calmo mas somente para os turistas. As montras ainda estão cheias, as empresas entretanto morrem, ou então, tentam a deslocalização para a Bulgária, para a Grã-Bretanha ou para um outro qualquer lugar. Pela primeira vez desde a sua existência, a mais importante (em volume de negócios) empresa grega do sector da edição e a menos endividada do seu ramo, acaba de anunciar aos seus empregados que os salários de Agosto de Setembro e Outubro serão pagos com atraso e talvez não sejam pagos na sua totalidade.

Os controlos dos capitais, a asfixia assim imposta pelo “situacionismo eurótico e a impossibilidade de realizar mesmo o seu volume de negócios do mês, como dos meses… precedentes e seguintes, tudo isto não deixa mais nenhuma dúvida quanto ao destino das outras pequenas e médias empresas gregas, já corroídas por seis anos de crise.

Crise por conseguinte em imagens foscas do ‘NÃO’ e da miséria, como a de um homem já idoso, jazendo no solo numa passagem que forçosamente não leva a parte nenhuma, em Atenas e em Julho de 2015. O meu vizinho Chrístos, grande desempregado face aos memorandos, pôde encontrar trabalho informal mas para um só dia durante este triste mês de Julho. Está furioso.

“O tipo ainda não me pagou. Ele alegou que as dificuldades associadas com o controlo de capitais não lho permitem fazer. Filho da puta. Nós somos as vacas leiteiras e então acreditávamos em certas promessas. Basta acabou, não haverá mais vacas sagradas na política. Bastante… Este fim-de-semana, vou encontrar-me com o meu amigo Yiorgos, que mora para os bairros a Sul, vamos juntos à pesca à linha. Da outra vez, eu trouxe para casa dois quilos de peixe. Então, não sei mais “

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Sagrada vaca. Salamina, Julho de 2015

A liberdade pode por conseguinte esperar ainda. A Troika, reforçada e promovida habita outra vez em Atenas, e exige já as suas novas medidas, inicialmente… não previstas pelo pré-acordo assinado, entre as instituições e a gerência Tsipriota. O ministro do Trabalho, Yórgos Katroúgalos, anunciou já a amputação das reformas de 4% a 6% (aumento das quotizações), e isto com efeito retroativo desde o 1º de Julho, a imprensa económica precisa que a título de exemplo, para uma reforma atual de 486 € dita de base e bruta a que se acrescenta o montante da reforma complementar de 236 €, 24 € por mês assim serão retirados em vez dos 19 € de anteriormente, e 72 € serão retidos em Setembro devido ao efeito retroativo desta medida. Astuciosos.

Os Atenienses estão muito irritados neste momento, assisto quase todos os dias a estas disputas para um sim ou sobretudo para um não, felizmente que a Bolsa de Atenas reabrirá as suas portas na próxima segunda-feira, felizmente que a canícula recua, enfim, e que o vento forte será de regresso ao mar Egeu durante toda a próxima semana.

SYRIZA fechará contudo as suas portas, a vida pode continuar e a esperança regressará. Os nossos comerciantes estão sem clientes neste momento, alimentam incansavelmente os animais adéspotas na frente das suas lojas. Nem tudo está perdido. Na Grécia, expressões do momento.

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Comerciantes sem clientes. Atenas, Julho 2015
Uma série de Panagiotis Grigoriou
Tradução Júlio Marques Mota
Revisão Flávio Nunes
Texto original publicado pelo sítio greek crisis
Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é : http://www.greekcrisis.fr/

32. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Comité descentrado I

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